A rua fica num dos pontos mais bucólicos do Rio de Janeiro, ao pé do morro do Corcovado e em frente ao Largo do Boticário, Cosme Velho, bairro que tanto inspirou Machado de Assis. No jardim do centenário casarão de três andares, restaurado por inteiro pelo atual proprietário, passeiam macacos silvestres e aves em extinção. Lá dentro, no terceiro pavimento, onde foi instalada uma soberba biblioteca com 5 mil livros raros sobre o Brasil, toda manhã um velho escriba senta-se na cadeira de couro entalhado e empunha a caneta para rascunhar, à mão, o mais novo capítulo da história econômica brasileira. Aos 68 anos, Carlos Lessa, economista criativo, professor respeitado, escritor profícuo, ex-presidente do BNDES ? mas sobretudo um polemista ?, está escrevendo o seu testamento. ?Vai ser uma bomba?, festeja. ?Todo mundo vai querer ler?. Essa peça bombástica, ressalte-se, é um livro. Com o título Dos Sonhos ao Pesadelo, promete ser um grande manifesto do pensamento econômico desenvolvimentista contra a política macroeconômica neoliberal do atual governo do PT. Quais são os sonhos do título? ?Ao me chamar para o BNDES, Lula me mandou criar o banco dos sonhos do povo?, explica o autor. E o pesadelo? ?Ora, o Meirelles?, responde. ?O pesadelo é a eliminação do BNDES, uma aspiração do sistema financeiro privado que se transformou numa política institucional conduzida pelo sr. Meirelles.?

No atual estágio da vida, não há nada no mundo que deixe Lessa mais exaltado do que falar sobre o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Boa parte do livro, segundo adianta com exclusividade para DINHEIRO, é para denunciar a tentativa dos grandes bancos privados de esvaziar, com o suposto apoio de Meirelles, o crédito direcionado dos bancos oficiais, BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. ?Enquanto essa idéia absurda só era defendida em público por acadêmicos e pelo Joaquim Levy (secretário do Tesouro), fiquei quieto?, revela Lessa no livro. ?Mas quando vi Meirelles encampá-la, senti um pesadelo?. O ácido começa a ocupar a pena do polemista. ?O Meirelles, coitadinho, disse que tinha que empurrar a Selic para cima como sinal de advertência ao mercado, pois o peso dos empréstimos direcionados seria muito grande. Então propus o Nobel para o Meirelles por sua criatividade e fui demitido.? Lessa ainda está no início do livro ? mas as idéias principais estão sendo registradas antecipadamente (leia quadro ao lado). ?Consigo terminar tudo antes de março?, promete. O primeiro capítulo, sobre seus sonhos no BNDES, já está pronto. O segundo, uma tese sobre o potencial econômico do Nordeste, fechou na segunda-feira 31. Até o final do Carnaval ele pretende terminar de organizar seus registros sobre os setores siderúrgico, petroquímico e de bens de capital. ?Vou baixar o sarrafo nos vendilhões da pátria?, adianta. ?Esses meninos da AmBev, por exemplo, usaram o BNDES e depois se entregaram aos belgas para converter o patrimônio em euro?. É nessa parte do livro que estão reservadas muitas pancadas para o ministro Luiz Furlan, do Desenvolvimento. ?O Furlan apoiou essa operação, chamou de multinacionalização?, ataca.

Carlos Lessa decidiu escrever o livro porque o presidente Lula não deixou que seu sucessor Guido Mantega organizasse a cerimônia de transmissão de cargo. ?Fiquei magoado com Lula?, revela. Ele já tinha preparado um discurso antológico, prestando contas de sua gestão, verdadeiro libelo do desenvolvimentismo econômico. ?Era um momento privilegiado para mim?, diz. ?Seria nessa cerimônia, quando meus inimigos fossem lá aplaudir minha demissão, que eu teria a chance de obrigá-los a engolir a minha verdade?. Esse discurso está sendo em boa parte incorporado ao livro. ?Mas não será um livro denúncia, nem de bastidores?, explica o autor. Imagina se fosse. A parte mais quente da obra foi reservada para os últimos capítulos, batizados de ?O Pesadelo? e ?Com Chapéu de Economista?. Carlos Lessa não vê a hora de disparar a tinta da caneta revelando as ilusões do presidente Lula com a falácia dos banqueiros internacionais e a teimosia do ministro Antônio Palocci em seguir as receitas ortodoxas do Fundo Monetário Internacional. ?O ministro é aquele médico que sofre da Síndrome da Terra Prometida?, compara Lessa. ?Acha que o paciente precisa da terapia trágica do FMI, com drogas pesadas, na qual sofre, sofre acreditando que um dia vai atravessar o deserto rumo à Terra Prometida?.

Mas qual a receita, afinal, para conduzir o Brasil ao desenvolvimento? A fórmula de Lessa tem cinco pontos ? que partem do princípio de que o País precisa elevar a taxa de investimento de 18% para 23% do PIB. ?Mas só é possível depois que o Banco Central baixar os juros para permitir os investimentos públicos em infra-estrutura?, ensina. ?Isso é tão óbvio, só o Meirelles e o Palocci não conseguem enxergar?. Por muito polêmico, há um ponto de suas memórias que Lessa ainda não decidiu se incluirá nesse livro. Na segurança de seu casarão, ele baixa a voz para revelar que o presidente estaria encurralado pelos banqueiros internacionais. ?O Lula já não pode mais demitir o Meirelles, senão o risco Brasil dispara?, confidencia. E qual a saída? ?Costurar um pacto anti-inflação com empresários e trabalhadores?, propõe. ?Isso permitiria enfrentar os banqueiros e baixar a Selic?. Uma ave rara se aproxima da janela de Lessa. É um jacu, galináceo em extinção. Assim como os desenvolvimentistas.

LEIA TRECHOS DO LIVRO DO SONHO AO PESADELO, DE CARLOS LESSA

Sobre Luiz Fernando Furlan
?Nossa relação começou muito mal. Nunca tinha ouvido falar dele, pensava até que seu nome fosse só Luiz Furlan. No primeiro encontro, tentei ser simpático e contei uma piada sobre a ‘fernandécada’. Disse que Fernando Collor e Fernando Henrique haviam sido gafanhotos destruindo a Terra e que esse nome era uma desgraça nacional. Só depois descobri que ele também é Fernando. Fiz um estrago irreparável na relação e nunca aceitei me subordinar a ele.?

Sobre Henrique Meirelles
?O meu pesadelo é a eliminação do BNDES, uma aspiração do sistema financeiro privado e do senhor Henrique Meirelles. Ele, na companhia do Joaquim Levy, do Tesouro Nacional, argumentava que o Banco Central precisava aumentar os juros porque o volume de crédito dos bancos privados teria um peso pequeno no mercado, diante da grande participação do BNDES. Então, eu propus o Nobel de economia para o Meirelles por sua criatividade e fui demitido.?

Sobre Antônio Palocci
?O ministro da Fazenda é aquele médico que sofre da síndrome da Terra Prometida. O paciente tem a febre recorrente da inflação? Está vulnerável a ataques cambiais? Então precisa da terapia trágica do FMI, com drogas pesadas, na qual o paciente sofre e um dia atravessa o deserto. Propus ao Palocci reduzir o superávit, mas ele continuou acreditando no FMI.?

Sobre Lula
?Lula acredita no canto da sereia da estabilização. Está convicto de que se o Brasil for comportado, mais cedo ou mais tarde virá uma enxurrada de dólares. Uma vez eu lhe disse: ?O senhor está errado, o capital não virá, pois já veio e agora corre para onde tem crescimento’. Ele encaixou a observação e não respondeu nada. Entre o Lessa e um banqueiro, ele acredita no banqueiro.?

Sobre José Dirceu
?Dirceu tem uma visão muito boa sobre as reais prioridades para o desenvolvimento. É um operador político nato e dança segundo o cenário político imediato. Me dei muito bem com ele em todas questões envolvendo o BNDES. O melhor é que jamais recebi bilhetinhos mandando receber fulano ou afrouxar com sicrano.?