No início, era só um boato. Mas 24 horas depois virou oficial. A gigante japonesa Sony, dona de vendas anuais de US$ 75 bilhões, surpreendeu o mundo corporativo e mudou sua estrutura de comando na segunda-feira 7. Dispensou Nobuyuki Idei, que ocupou o cargo de presidente mundial nos últimos dez anos, e convocou o galês Howard Stringer para o posto. Nunca, em 59 anos de história, a Sony ? um dos maiores símbolos do capitalismo nipônico ? havia alçado um ?gaijin? (estrangeiro) à presidência. Mais: um ?gaijin? que não fala japonês e que vai pilotar a empresa a partir de Nova York, não de Tóquio. Autêntico ?sir? britânico, condecorado cavaleiro pela rainha Elizabeth II em 1999, Stringer não é um estranho no ninho dentro da Sony. Até o anúncio da queda de Idei, ele era o chefe da filial americana e presidia a divisão de entretenimento (cinema, música). O que causou burburinho foi o que está por trás da dança de cadeiras. ?É a ocidentalização da cultura econômica japonesa, que cada vez mais adota o modelo de negócios de americanos e europeus?, diz Alexandre Uehara, analista no Brasil do Jetro, órgão do governo nipônico presente em 50 países. ?Foi uma troca inusitada e ousada?, completa o Helio Castro, diretor da consultoria Horton.

Mesmo assim, o japonês Minoru Itaya, presidente da Sony Eletrônicos do Brasil, tem outra avaliação. ?Há tempos a companhia usa o inglês como idioma oficial nas suas reuniões?, disse à DINHEIRO. ?E os principais encontros estratégicos são feitos na Europa ou nos EUA.? Seja como for, o fato é que o Japão vive um outro ambiente de negócios desde a crise dos anos 90. Antes da turbulência econômica, os grupos nipônicos tinham uma relação única com seus funcionários, baseada numa lealdade canina de lado a lado. O empregado enxergava a corporação como uma extensão da sua família, e as companhias reconheciam esse esforço. Os laços eram tão fortes, que um japonês, quando se apresentava a alguém, dizia seu nome e o da empresa em que trabalhava. Embora ainda esteja presente aqui e acolá, esse comportamento vem mudando rapidamente. Mas não é nada fácil. Até pouco tempo atrás, os tentáculos desse modelo se estendiam até o ensino superior, porque o aluno que cursava faculdades de primeira linha já sabia que o seu futuro estava conectado a uma grande companhia. Dependia apenas dos contatos de cada universidade. Tudo funcionava como um relógio até os bancos entrarem em colapso na década passada, com a descoberta de que estavam abarrotados de créditos podres. Grandes financiadoras da cadeia produtiva, as instituições fecharam suas torneiras e o estilo japonês entrou em parafuso. Aí não teve jeito. A única (e irônica) saída para resguardar as multinacionais foi aplicar a cartilha anticrise de americanos e europeus: corte de pessoal, redução de custo operacional e foco no principal negócio.

A adoção desse modelo foi um choque para os japoneses, porque começou a colocar em xeque a tal lealdade e ainda fez os jovens repensarem a relação. Hoje, o que se vê no país é a presença cada vez maior do formato ocidental de negócio, que contou inicialmente com um empurrãozinho de um brasileiro: Carlos Ghosn, que salvou a montadora Nissan fechando fábricas, promovendo demissões e acabando com as promoções por tempo de serviço. Foi um duro golpe no orgulho japonês, porque as medidas deram resultado. ?A chegada de Stringer é só uma evolução do episódio da Nissan?, diz Uehara.

Jornalista da rede de televisão americana CBS por 30 anos, Stringer terá uma dura missão pela frente. Apesar de ter sido o articulador da compra do lendário estúdio de cinema MGM (um negócio de US$ 5 bilhões) e de ter dado alguns tiros certeiros como o lançamento do filme ?Homem-Aranha?, ele precisará estabilizar em um bom patamar de lucro a operação de eletrônicos ? o coração da Sony e que representa quase 63% das vendas. Também precisará retomar o terreno perdido para os ágeis concorrentes coreanos e pegar o bonde andando dos aparelhos que executam arquivos de música em MP3. Correr atrás do iPod da americana Apple tornou-se uma questão de honra para a empresa que inventou o revolucionário Walkman. Com tantas responsabilidades, Stringer já tratou de eliminar uma promessa do antecessor Idei. Logo que assumiu, informou ao mercado que não pretende atingir os 10% de margem de lucro operacional até 2007. Uma sábia decisão. Só para se ter uma idéia, neste ano a Sony registrou margem de 1,5%, enquanto as demais companhias do setor tiveram 3%. Um abismo. Foi a somatória desses fatores, mais as vendas estagnadas e o lucro em queda livre (de 120 bilhões de ienes para 80 bilhões de ienes em 2004) que custaram a cabeça de Idei ? o último samurai da Sony.

US$ 75 bilhões foram as vendas da empresa em 2004. Elas estão estagnadas desde 2001.