04/02/2010 - 23:31
Qualquer pessoa que tenha acompanhado a espetacular valorização dos ativos financeiros em 2009 chegou à mesma conclusão. O desenho da recuperação mundial se deu em forma de V ? uma forte aceleração depois de uma queda acentuada. Nos últimos dias, no entanto, surgiram sinais de que aquela interpretação talvez tenha sido precipitada. Na quinta-feira 28, a Bovespa fechou com pequena alta, mas a queda das ações no Brasil, depois de cinco pregões consecutivos de baixa, estava acumulada em 7% e a saída de capital estrangeiro em apenas dois dias somava US$ 1,5 bilhão. Isso contribuiu para que a moeda americana fechasse próxima a R$ 1,90. Essa nova percepção de risco, que afeta não só o Brasil, mas todo o mundo, fez com que diversos economistas passassem a prever que o V logo se transformará num W ? ou seja, haveria um segundo mergulho antes da recuperação definitiva. ?Estamos nos preparando para a próxima crise?, disse à DINHEIRO Jérôme Cazes, CEO da seguradora francesa Coface. E a razão para isso, segundo ele, seria a existência de várias bolhas na economia: excesso de crédito na China, revalorização dos imóveis nos Estados Unidos, alta exagerada das commodities agrícolas e uma exuberância irracional nas bolsas.
No Brasil, o possível W do mercado financeiro não significa, necessariamente, um abalo da economia real. É praticamente consensual a ideia de que uma correção nos preços dos ativos dissolveria eventuais bolhas, ajustaria as contas externas e, no caso do câmbio, beneficiaria a rentabilidade dos exportadores. E um câmbio mais favorável era tudo o que a indústria e o agronegócio pediam ao governo ? o que, agora, poderá vir de forma natural. Para Sergio Amoroso, presidente do Grupo Orsa, uma das maiores fabricantes de embalagens do País, a montanha-russa do mercado não afetará a rotina das empresas ? apenas corrigirá exageros especulativos. ?O dólar estava barato demais, e dólar assim só beneficiava importadores?, avalia. ?Ajustadas as distorções, o País crescerá ainda mais.?
Além disso, uma correção do câmbio ajudaria o governo a resolver o problema das contas externas. O déficit em conta-corrente, de US$ 24,3 bilhões em 2009, equivalente a 1,55% do PIB, deverá alcançar US$ 40 bilhões neste ano, segundo o Banco Central, o terceiro maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Espanha. E mais: um levantamento do Ministério do Desenvolvimento apontou que várias indústrias brasileiras estavam simplesmente deixando de exportar. Se retomarem os negócios externos, o impacto será positivo. Afinal, a economia brasileira já tem girado a um ritmo de 7% ao ano, os executivos brasileiros já são os mais otimistas do mundo em relação do futuro, de acordo com um estudo da PriceWaterCoopers, e até o conservador Fundo Monetário Mundial tem revisto para cima as projeções para o Brasil. Na terça-feira 26, mesmo em meio às teorias de nova queda do mercado global, o FMI elevou de 3,1% para 4,7% a previsão de expansão do PIB em 2010, ajudada por uma ligeira valorização do dólar.
A correção da moeda brasileira, que já se desvalorizou quase 10% de um mês para cá, abre horizontes positivos para setores importantes da economia. A indústria têxtil é um exemplo disso. No ano passado, o segmento registrou déficit de US$ 2,2 bilhões, em razão, entre outros fatores, do câmbio desfavorável. ?Nos últimos 12 meses, o real subiu 27% sobre a moeda chinesa. Como reflexo disso, as exportações foram de apenas US$ 1,2 bilhão, enquanto as importações atingiram R$ 3,4 bilhões?, diz o presidente da Companhia Cedro e Cachoeira, Aguinaldo Diniz Filho, que também é presidente da associação da indústria têxtil. ?Um real menos valorizado pode inverter essa situação?, aposta. No agronegócio, há uma torcida semelhante. Cotadas em dólar, as commodities agrícolas perderam competitividade nos últimos meses. ?Dólar muito baixo prejudica o produtor, reduz a arrecadação dos municípios e, de forma geral, não é bom para o País?, diz Otaviano Pivetta, executivo do Grupo Vanguarda, que produz grãos em mais de 300 mil hectares de terras.

A indústria de eletrodomésticos também não teme que a turbulência dos últimos dias ou o surgimento de um duplo mergulho se reverta em um ciclo prolongado de baixa. O diretor da Whirlpool, Armando do Valle, afirma que as causas da crise no início do ano passado foram superadas, o que afasta solavancos inesperados. ?A questão do crédito, a origem da crise, está restaurada. Pequenas flutuações vão sempre existir, mas não chegam a ser um problema?, afirma o executivo. ?A gente se preocupa mais com oscilações violentas de câmbio?, completa. Fora do Brasil, a situação não é a mesma. Como o desemprego continua alto nos EUA e Europa, uma queda dos ativos poderia interromper a incipiente retomada. Mas o Brasil, felizmente, parece estar mais protegido.
Porcos em perigo
Depois dos BRICs, surgiram os PIIGS. E eles assustam os investidores
Primeiro, surgiram os BRICs, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China, quatro países que se tornaram motores importantes do crescimeto global. Agora, uma nova sigla, desta vez PIIGS, foi criada pelos economistas. O acrônimo inclui Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha (Spain, em inglês). Só que não traz bons augúrios. Na verdade, os PIIGS são uma das principais fontes de preocupação daqueles que vislumbram a volta da crise global. Estes cinco países são os que apresentam suas finanças públicas em piores condições. Não apenas têm grandes déficits orçamentários, como já possuem dívidas no limite. E estão acima do teto da União Monetária Europeia, que impede um déficit maior do que 3% do PIB. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, todos eles já ultrapassaram a linha vermelha. Do Fórum Econômico Mundial, em Davos, o economista Nouriel Roubini, o mesmo que previu o início da crise, alertou até para o risco da dissolução da moeda única no continente. Já se especulava que a Grécia sairá do bloco e voltará a emitir o dracma, sua moeda original. Essa decisão provocaria a escalada da inflação interna, mas seria resolvida nos limites de Atenas. Desastre maior, na visão de Roubini, é a situação espanhola. ?Se a Grécia deixar a moeda comum, será um problema; se a Espanha sair, um desastre?, disse ele. As agências de classificação de risco, que já rebaixaram a Grécia, agora ameaçam rebaixar a nota dos bônus espanhóis. É como se o lobo mau das finanças estivesse à espreita dos PIIGs.
