Ronaldinho Gaúcho: Sucesso pelo Barcelona, âncora de seus 23 milhões de euros anuais…

Quanto vale o produto Copa do Mundo? Menos, certamente, do que valia há quatro anos. A força econômica, hoje e cada vez mais, está nas mãos dos clubes milionários da Europa, administrados como empresas. Não é impossível que, já na África do Sul, grandes jogadores prefiram poupar-se em nome de quem os paga a peso de ouro, em um processo semelhante ao dos americanos da NBA. Depois das Olimpíadas de 1992, a do Dream Team de Michael Jordan e Magic Johnson, os craques profissionais da cesta recusaram-se em bloco a participar dos megaeventos que trazem visibilidade mas poucos dólares. Caminha-se, no futebol, para um cenário semelhante. Por ter sido realizada na Europa, a Copa de 2006 foi um sucesso comercial. Mas criou um imenso problema. Os grandes clubes europeus devem aumentar a pressão para participar do bolo. O chamado G-14, grupo que reúne os times mais ricos do continente, já chegou a propor que a Fifa pague US$ 50 mil por jogador convocado para disputar a Copa, além de participação nos lucros da competição. Além disso, como sinal de enfraquecimento das Copas, é certo que o rodízio de continentes pode estar em xeque, e a África do Sul tende a ser o derradeiro mundial nesse desenho aparentemente democrático mas antieconômico. ?Na Copa dos Estados Unidos, em 1994, você se afastava um quilômetro dos estádios e o clima de competição era zero?, diz Marco Aurélio Klein, diretor de futebol do Ministério dos Esportes e professor de marketing esportivo da Fundação Getúlio Vargas. ?Na Alemanha, não. O comércio inteiro, da venda de carros ao vendedor de kebab, surfou na onda da Copa.?

 

… e decepção com a camisa amarela da Seleção Brasileira derrotada pela França

Os clubes aproveitam o vácuo, e o espaço de quatro anos entre uma Copa e outra, para ganhar força. São eles, a rigor, os donos do espetáculo, abrigo de craques como Alessandro Del Piero, da Juventus, Thierry Henry, do Arsenal, e Cristiano Ronaldo, do Manchester United. ?É urgente uma reestruturação do modelo, porque hoje só a Fifa ganha com a Copa do Mundo?, diz Mauro Holzmann, diretor de marketing do Atlético Paranaense. ?Já na próxima Copa haverá muita pressão deles para ter lucro com o Mundial.? É simples: na Copa, o clube que gastou milhões para contratar um jogador corre o risco de apenas assistir ao seu investimento perder valor, à mercê de treinadores, contusões e táticas de jogo equivocadas.

A Uefa, o braço europeu da Fifa, já percebeu o risco de clubes milionários roubarem a cena. No ano passado, a entidade aprovou uma determinação segundo a qual já a partir da temporada 2006/2007 os clubes serão obrigados a ter em seus quadros pelo menos quatro jogadores ?localmente treinados?. A partir da temporada 2007/2008 esse número aumentará para seis, e na temporada seguinte cada equipe terá que contar com oito jogadores treinados por pelo menos três anos nas equipes de juniores. O objetivo é muito claro: evitar que a força do dinheiro determine as regras do jogo. Os cartolas que mandam nas Copas querem frear o avanço de nomes como Roman Abramovich, o magnata russo do petróleo, dono do Chelsea da Inglaterra, homem capaz de tornar o clube onipotente ao transformar o óleo negro em euros e libras. A Fifa e a Uefa insistem com a decisão porque somente ela pode reduzir a fome do G-14 e manter acesa a chama e a aura das Copas, máquina de marketing, que rende à entidade máxima do futebol 1,9 bilhão de euros a cada quatro anos. É missão complicada. Tome-se como exemplo Ronaldinho Gaúcho, que depois da derrota para a França passou a noite em uma badalada boate de Barcelona ? e lá, ninguém reclamou. Ronaldinho está quite com o clube catalão, depois do título espanhol e da Liga dos Campeões. Fez por merecer, em grande estilo, os 23 milhões de euros anuais que amealha, entre salário e contratos de publicidade vestindo a camisa azul-grená. Copa do Mundo? Já passou. Não vale a pena tanto suor para dividir com toda a delegação os 3,6 milhões de euros destinados às seleções que chegam às quartas-de-final, como o Brasil de Parreira.

Colaborou Christian Cruz