21/05/2003 - 7:00

Alencar, no palácio do Jaburu:”Meu lar está aberto para quem tiver boas idéias sobre como baixar os juros”
O Brasil já teve vice-presidentes gordos como Aureliano Chaves e magros como Marco Maciel. Já teve vices polêmicos como João Goulart e invisíveis como Adalberto Pereira dos Santos, segundo de Ernesto Geisel. Já houve no Brasil vices melindrosos como Itamar Franco e literatos como José Sarney. O que nunca tinha havido era um vice-presidente como José Alencar Gomes da Silva. Por ser empresário, por ser amigo do presidente, por participar das decisões do governo, por ter espaço para falar sobre questões econômicas, o vice de Lula é uma exceção à tradição brasileira de vices figurativos. Ele tem feito barulho. Em cinco meses de governo esse mineiro de Muriaé transformou-se em uma peça ao mesmo tempo harmoniosa e útil da nova administração. Sem violar o delicado protocolo do cargo e sem provocar ciúme entre os colegas do PT, o fundador da Coteminas ? a segunda maior empresa têxtil do País, que está negociando esta semana a compra da Pillontex, a segunda do ramo nos EUA — tem conseguido injetar um novo conteúdo à função de vice. Embora o próprio Lula tenha contatos diretos e freqüentes com os empresários, seu vice vem se tornando o virtual porta-voz da produção em Brasília. ?Ele é uma figura importante no governo, um vice-presidente poderoso e um excelente interlocutor?, afirma Horácio Lafer Piva, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo. ?Alencar levou para a vice-presidência uma agenda positiva e como amigo de Lula tem espaço para implementá-la.?

Em privado: No Jaburu, usufruindo com simplicidade mineira “os confor tos da civilização”
Uma espiada na sua rotina ? são 40 audiências por dia, 15 das quais para empresários ? mostra que o anexo II do Palácio do Planalto, onde funciona a vice-presidência, ganhou vida nova. Na última segunda-feira, por exemplo, Alencar voou para Roraima em companhia do deputado Valdemar da Costa Neto para conhecer as obras de conexão viária entre Brasil e Venezuela. Foram sete horas de vôo durante as quais ele falou sobre o tema que mais o preocupa, a taxa de juros. Na manhã de terça-feira foi chamado por Lula ao Planalto sem aviso prévio. Lá, participou do lançamento de um programa educacional ? Acelera Pernambuco ? e ouviu do presidente uma derramada declaração de apreço. ?Precisava de Alencar e ele de mim. Nossa história se juntou em um caso de amor profundo, como Romeu e Julieta?, disse Lula. Ambos têm Silva no nome, ambos têm esposa Marisa, os dois trabalham desde criança e nenhum deles tem diploma universitário. Apesar da diferença de idade de 13 anos, há afinidades que se expressam claramente no fato de Lula convidar seu vice para tudo. Depois da cerimônia da manhã de terça, tipicamente, Alencar foi levado pelo presidente a participar do almoço com o PMDB no qual se acertou o apoio do partido às reformas econômicas. Ali falou por três minutos em favor das reformas e tocou o coração de deputados como André Luis da Silva, do Rio de Janeiro, que não alimenta simpatias pelo PT. ?Lula deu ao seu vice uma posição e uma dimensão que nunca se deu em outros governos?, constata o deputado Antônio Delfim Netto. ?Mas o Alencar, por ser um empresário de enorme sucesso, também é uma figura diferenciada no cargo.? Nunca houve essa combinação no passado. João Goulart tornou-se vice de Jânio Quadros porque naquela votava-se no presidente e no vice separadamente. Era rivais e Goulart não teve espaço. João Batista Figueiredo recebeu um vice de prestígio, Aureliano Chaves, mas não se dava com ele. Como vice de Fernando Henrique, Marco Maciel pôde nomear muita gente em Brasília, mas não influía de outra forma na administração.

Em público: Na reunião com o PMDB para pedir apoio às reformas econômicas
Sala de aeroporto. Na tarde de terça-feira Alencar recebeu em seu gabinete o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, que é também o maior plantador de soja do País. Maggi queria apoio em sua campanha para que o governo federal volte a investir em estradas. Teve de esperar meia hora para ser recebido porque àquela altura a sala de espera da vice-presidência estava cheia como um saguão de aeroporto. ?O governo precisa eleger prioridades ou o País vai parar?, disse Maggi. ?Vim dizer isso ao Alencar porque ele entende o quanto isso é grave.? No início da noite o vice voou para São Paulo para participar de um evento empresarial. Havia se levantado às 6:30 da manhã, feito uma hora de alongamento nos jardins da residência oficial do Jaburu e tomado um café da manhã frugal, acompanhado de um coquetel de quatro vitaminas, uma delas para a memória. ?Sempre foi boa, mas uma ajudinha é sempre bem-vinda?, explica. Alencar tem 71 anos, caminha lépido e fagueiro e nunca trabalha menos que 13 horas por dia. Ainda gosta de jogar bola no final de semana, pela esquerda. ?Mas eu bato com as duas?, avisa.
Nos últimos dias, ele tem batido, sim, é na tecla da redução dos juros. Com uma linguagem até mais dura que a da oposição, Alencar tem aproveitado ocasiões públicas, como fez na semana passada, para denunciar que ?o custo do capital no Brasil extrapola qualquer lógica? e que ?nunca houve na história do Brasil maior transferência de renda da produção e do trabalho em benefício do setor financeiro?. Na boca da senadora Heloísa Helena essas palavras causariam escândalo, mas soam aceitáveis quando vindas de Alencar. O mercado, assim como o Planalto, parece entender que o vice expressa mais um desejo do que uma insubordinação. Mesmo sem combinar com Lula ele parece comunicar à praça sentimentos de urgência que são do próprio presidente. E tem conseguido fazê-lo, em relação ao juros, sem agastar o ministro da Fazenda Antônio Palocci, com quem mantém relações muito cordiais. Um dos segredos da tolerância petista com o martelo do vice está no fato de que a pregação de Alencar por juros mais baixos vem acompanhada de um apoio sem nuanças à linha ortodoxa da Fazenda. ?Os juros vão cair no dia em que obtivermos saldos comerciais que nos levem ao superávit das transações correntes?, disse o vice à DINHEIRO. ?Não há outra saída além de exportar. A não ser para quem acha o calote uma opção. Não é o nosso caso.?

Tradição figurativa: Jânio e Jango eram adversários, Figueiredo não queria Aureliano e FHC não deu espaço a Maciel
Afeto com Lula. A outra explicação para o espaço de Alencar no governo está na qualidade da sua relação com Lula. Os dois se falam diariamente, freqüentam-se afetuosamente nos finais de semana e Lula ouve seu vice com entusiasmo. Alencar já participa nas reuniões do núcleo duro de governo — composto por Palocci, José Dirceu, da Casa Civil; Luiz Dulce, secretário-geral da Presidência; Luiz Gushiken, de Comunicação Estratégica e Gilberto Carvalho, secretário da Presidência — e mesmo entre esses ?ministros da casa? fala com freqüência e desenvoltura. Suas opiniões contam, sobretudo no terreno da economia e especialmente na área de comércio exterior, na qual o vice tem experiência direta e muita informação. É capaz, por exemplo, de discorrer com precisão sobre os mercados mais remotos da Ásia. ?Ele não é um vice que fica no banco?, resume o mineiro Dulce, que o conhece de longa data. ?Alencar participa do governo solidariamente.?
Um dos termômetros mais relevantes da influência de Alencar é a fila do Palácio do Jaburu. A residência oficial do vice ? um mero caixote branco visto de fora, mas que uma vez dentro se converte em uma casa aconchegante — tornou-se desde janeiro num centro de peregrinação empresarial. Ali Alencar recebe em média cinco empresários por dia, sempre com cafezinho e pão de queijo. Na primeira semana de abril, por exemplo, uma comitiva de seis representantes do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, o Iedi, foi reclamar do fato de o governo ?ter caído na armadilha dos mercados?. Alencar escutou calmamente a bronca de Ivoncy Ioschpe, presidente da entidade, e pediu alternativas. Ouviu a proposta de uma política coordenada entre BC e Fazenda para incentivar as exportações, com juros e câmbio subordinados à necessidade do superávit. Alencar prometeu levar o recado à Lula e, desde então, tem ele mesmo defendido o câmbio flutuante e a redução dos juros. Em outras ocasiões, como ao discutir na semana passada a reforma tributária com o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, ele defende as posições do governo embora não concorde em tudo com elas. Já quando não gosta de um assunto, o vice saca da carteira uma fotografia dos netos e muda de assunto.
Seu repertório de mineirices, aliás, ajuda a explicar porque
Alencar navega tão bem no mar revolto do petismo. Ele se empenha em jamais ultrapassar os limites das suas atribuições e costuma repetir uma frase modesta: ?Vice não manda. Quando muito, pede.? Na verdade, enquanto tiver sua viola afinada com a de Lula, José Alencar poderá mais do que pedir ? poderá sugerir e influenciar, que são formas discretas e eficientes de exercer poder. Mineiras, de qualquer forma.
| ?VAMOS CRESCER, SIM!? |
Agenda Cheia: O vice passou a ser visita obrigatória em Brasília
DINHEIRO – Os empresários reclamam que o governo Lula ainda não deixou claro um eixo para o desenvolvimento… Mas o PIB está caindo. Corre-se o risco de fechar o ano com zero de crescimento. Como o sr. responde aos que dizem que o governo Lula está igual ao de FHC? O sr. percebeu que está mudando o perfil da função de Como mudaria o perfil pura e simplesmente, passando sobre os trâmites da legislação? O sr. é mineiro, mas tem feito uma vice-presidência do barulho… Apesar de mexer em temas candentes, como juros e Os empresários têm afinidade com o senhor, todos o elogiam… Onde o Brasil tem potencial? O sr. acha que está vindo uma nova fase para a política econômica? Quando? Quando o spread bancário cairá? Os bancos vão abrir mão dos ganhos? O sr. está disposto a comprar brigas no governo para |
