06/07/2004 - 7:00
A platéia do teatro Alpha, em São Paulo, surpreendeu-se com aquele empresário alto, encorpado e muito bem-humorado que subiu ao palco na tarde da última terça-feira 29. Alberto Saraiva, o dono da rede Habib?s e de mais uma dezena de empresas, empunhou o microfone para ensinar ao público os segredos do sucesso da maior rede brasileira de fast-food. Contou como transformou uma pequena padaria em uma cadeia de 250 restaurantes de comida árabe que fatura R$ 500 milhões ao ano, como consegue ter os custos ? e os preços ? mais baixos do setor e como levou sua marca ao México. De quebra, apresentou o primeiro livro de sua autoria: os Os 10 mandamentos da lucratividade, editado pela Campus. Médico ? ele é clínico geral formado pela USP ?, empresário, filantropo (o cachê de R$ 30 mil das palestras vai direto para ONGs e a Santa Casa de São Paulo) e agora palestrante e escritor, Saraiva diz que vive a melhor fase de sua vida. No teatro Alpha, enquanto apresentava sua fórmula de sucesso, esse descendente de portugueses exibiu ainda seu lado cênico. Em alguns momentos da palestra, o palco se transformava numa grande cozinha e lá estava Saraiva metendo a mão na massa e produzindo esfihas. Em outras ocasiões, odaliscas dançavam ao seu redor enquanto ele contava a origem humilde ? época em que pegava oito ônibus para ir ao colégio e ao cursinho ? e o começo do projeto Habib?s. Enfim, ele fez seu próprio show e foi interrompido 16 vezes pelos aplausos de um público engravatado que pagou, per capita, R$ 3,6 mil para assistir as cinco palestras empresariais daquele dia. O dono do Habib?s desceu do palco satisfeito: havia contado tudo o que sabe sobre a criação de um grande negócio.
Ou melhor, quase tudo. No dia seguinte à apresentação, Saraiva recebeu a equipe da DINHEIRO em uma das lojas da rede em São Paulo para falar de seus próximos passos. Acaba de fechar um contrato com um master — franqueado no México para expandir a rede por lá. O desembarque ocorreu em 2001 com seis lojas próprias na capital, mas agora, com o sócio local, a idéia é levar as esfihas para a região de León, localizada a 100 km de Guadalajara. O nome do parceiro é Sergio Gonzales&Gonzales, dono também de uma franquia americana de autopeças chamada Speed. ?Temos um contrato fechado para a abertura de mais 22 lojas no México?, diz Saraiva. No Brasil, ele espera chegar ao final de 2004 com um total de 285 unidades. No ano passado, bateu o recorde de abertura de lojas: foram 35 inaugurações. Mas seu grande salto no País está, na verdade, sendo gerado em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. É lá, bem em frente a uma loja do Habib?s na principal avenida do município, que surge um letreiro vermelho na fachada de um restaurante de comida italiana, onde se lê: Ragazzo. Trata-se da nova rede de fast-food que Saraiva pretende transformar numa potência do tamanho do Habib?s. ?Construi o Ragazzo há seis anos, não fiz nenhuma publicidade e mantive o empreendimento funcionando até chegar a hora de fazê-lo decolar?, explica. A hora chegou. ?O Habib?s atingiu um bom tamanho. Temos presença em 62 cidades em 15 Estados, uma marca mais do que consolidada e o respeito dos consumidores?, afirma Saraiva. ?Daqui para frente, qualquer abertura de lojas Habib?s poderá entrar na zona perigosa de canibalização das unidades já existentes. Por isso, a criação de uma nova bandeira.?
A idéia é repetir a estratégia de operação que transformou o Habib?s em sucesso no mercado. Hoje, mais de 90% dos insumos usados na produção de quibes, esfihas, pizzas, beirutes e outras especiarias da rede vêm das próprias empresas de Saraiva. Ele é o inimigo número um da terceirização. É dono, por exemplo, do latícinio Promilat, que capta de suas próprias fazendas o leite usado na fabricação dos queijos que recheiam esfihas e pizzas. Também é proprietário de uma fábrica de sorvetes, a Icelip?s, e de uma produtora de doces, a PBBT. Tem ainda a Arabian Bread, que faz pães e massas, sem contar a própria agência de publicidade ? PPM ? a imobiliária Planejj e a Vector 7 Engenharia que, juntas, são responsáveis pela descoberta de pontos de locação e pela construção e arquitetura das lojas. O resultado de toda essa operação sem intermediários pode ser verificado no cardápio da rede, onde uma simples esfiha custa R$ 0,49 e uma pizza grande de mussarela sai por R$ 7,90. ?Os únicos insumos que compro de fora são a farinha e a carne?, diz Saraiva. É essa verticalização dos negócios que ele quer adotar na Ragazzo, com uma modificação aqui outra ali ? afinal novos ingredientes serão adicionados a um fast-food italiano. Saraiva já está negociando um ponto na região do ABC para montar a central de distribuição da Ragazzo. Até o final de 2004, abrirá duas unidades na capital paulista e, em 2005, outras sete.
O momento para a nova empreitada parece bom. A última pesquisa de orçamento familiar, do IBGE, revela que no biênio 2002/2003 os gastos com alimentação fora de casa de uma família brasileira representaram 24,5% de sua despesa média mensal. Há oito anos, o índice era de 9,7%. ?A única dúvida em relação a Ragazzo é se realmente já estava na hora de o dono da Habib?s partir para a diversificação?, diz o consultor Marcos Gouvêa de Souza. Pelo visto, Saraiva acredita que sim.
A Ragazzo também vai se servir de um novo empreendimento inaugurado pelo grupo Habib?s no início desse ano: a Vox Line, empresa de contact center com 600 posições de atendimento. Foi ela que possibilitou a criação do projeto Delivery 28 minutos, interligando todos os restaurantes da rede, de Porto Alegre a Belém. O cliente de qualquer ponto do Brasil faz o pedido e se a encomenda não chegar nesse tempo, ele não paga um tostão. Foram mais de 3 milhões de pedidos em seis meses e ninguém ainda comeu de graça. A Vox Line não atende só o Habib?s. Trabalha também para a Telefônica, Banco Panamericano e o Parque da Xuxa. Aliás, essa é uma outra fonte de receita de Saraiva. Muitas de suas companhias mantêm contratos fora do universo Habib?s. ?O trabalho no Brasil deve servir de exemplo para nossos master-franqueados no exterior. Antes de fechar qualquer contrato eles passam por um estágio aqui no País para aprender o nosso conceito?, diz ele.
Além do sócio no México, o empresário tem recebido propostas de Portugal, Espanha, França, Argentina e até da China. Diz que está avaliando todas, mas que a oferta de portugueses e argentinos estão mais próximas de se tornarem realidade. Em Portugal, inclusive, já há repre-
sentantes do Habib?s fazendo pesquisas de mercado. ?Em dois anos, a marca estará na Europa?, pro-mete. O velho continente, na verdade, não estava nos planos de curto prazo de Saraiva. Após a conquista do México, a escalada natural seria o mercado norte-americano. Em 2001, ele e uma equipe de executivos do grupo passaram 120 dias na Flórida avaliando o local. No dia 2 de agosto daquele ano, eles chegaram a fechar um pré-contrato com um empresário local. Mas 40 dias de-
pois houve o ataque terrorista ao World Trade Center. ?Desfizemos o contrato. Quem seria louco de colocar uma rede com o nome Habib?s nos EUA depois do atentado??, pergunta Saraiva. Talvez agora, com o Ragazzo, ele possa voltar à Flórida.