04/10/2006 - 7:00
Os milhares de turistas que acorrem às instalações gigantescas da Boeing em Everett, nos Estados Unidos, para ver como são construídos os aviões da empresa, têm a impressão de que tanto os diretores como os funcionários transpiram uma certa euforia em razão dos últimos sucessos alcançados pela companhia. Depois de uma pequena crise na década de 90, a Boeing não começou bem o século XXI, permitindo que, em 2003, a européia Airbus tomasse a dianteira na entrega de aviões pela primeira vez na história da aeronáutica. A fabricante americana começou então um processo de transformação que agora começa a dar frutos. Foi da Cidade do México que os executivos da empresa brandiram as duas frentes em que pretendem focar a Boeing pelos próximos anos. A primeira, a da inovação tecnológica, responde pelo 787 Dreamliner, lançado há duas semanas para a América Latina. Prometido como uma aeronave mais silenciosa e 20% mais econômica, o 787 conseguiu uma proeza: foram encomendados 420 aeronaves em menos de um ano, num valor total de US$ 65,7 bilhões. É a maior aceitação da história no setor. Apenas para a China, o maior mercado consumidor do mundo, serão 60 aviões. A outra frente leva a bandeira da visão de mercado. Trata-se da ampliação do lendário cargueiro 747-400, em um tamanho três vezes maior que o original. É a resposta da Boeing para o setor de cargas aéreas, que prevê um crescimento expressivo pelos próximos 20 anos baseado na duplicação da frota atual de 1,7 mil para 3,5 mil aeronaves. ?Não tínhamos outra alternativa a não ser obedecer ao que o mercado pedia?, disse à DINHEIRO Craig Saddler, o principal executivo da área financeira da Boeing. ?Hoje podemos dizer que não estávamos errados?.
Após os ataques terroristas de 2001, houve uma retração na demanda de aviões em um momento em que o leque de produtos da empresa americana empalidecia diante das sedutoras criações da empresa européia. Foi aí que entrou o trabalho iniciado pela Airbus nos anos 80, que lhe garantiu a liderança no mercado mundial de aeronaves duas décadas depois. Naquela época, a Boeing dominava o segmento, mas era a fabricante européia quem introduzia a maior parte das novidades. O resultado foi que em janeiro deste ano a Airbus revelou um incremento de 38% no número de pedidos, o que a deixou à frente de sua concorrente pelo quinto ano consecutivo com 1.015 unidades, ante 1.002 da Boeing. ?A Airbus cometeu o pecado de investir em aviões maiores enquanto a Boeing sempre soube que o grosso do mercado é constituído de aparelhos medianos?, analisa Richard Aboulaña, vice-presidente da consultoria Teal Group. A fabricante européia apostou alto, mas o lançamento da menina dos olhos da empresa, o gigantesco A380, voltou a atrasar pela terceira vez, o que levou à queda das ações da companhia na bolsa. Somado aos preços do petróleo, os modelos da Boeing se mostram muito mais eficazes no que diz respeito ao consumo de combustível. ?O lançamento do A350 em resposta ao sucesso do concorrente é prova da validade da estratégia da Boeing e explica por que a empresa optou pelo 787?, observa Ronald Epstein, da Merrill Lynch. ?O grande desafio da Boeing é o 787. Se vencer, a empresa fica com 75% do mercado, o que seria um golpe praticamente mortal para a Airbus?, diz Aboulaña.
Na busca de um status mais elevado, e sem levar em conta as transformações da economia, o A380 foi projetado para proporcionar uma experiência luxuosa em um momento em que as companhias aéreas de baixo custo fazem sucesso e obrigam as demais companhias a reduzir as comodidades oferecidas nos vôos. E nem os executivos da Boeing escondem um certo prazer na estratégia que pode estar fadada ao fracasso. ?Ao analisar as companhias aéreas mais rentáveis hoje, que são a Gol e a RyanAir, todas utilizam aviões da Boeing?, discursa John Wojick, vice-presidente de venda da fabricante americana. ?No atual panorama, não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar dinheiro.? A Gol, inclusive, comprou 101 aeronaves 737-800. E a Boeing não desmente que a companhia brasileira pode utilizar suas opções de compra em trocas pelo novo modelo 787 Dreamliner. Comum a ambas empresas, no entanto, está a incerteza em relação ao futuro do setor. Tanto a Airbus quanto a Boeing dependem de subsídios governamentais, que andam escassos na Europa e nos EUA. A batalha aérea prossegue. ![]()