05/11/2008 - 8:00
QUANDO CONQUISTOU A CONCESSÃO PARA OPERAR O SISTEMA Anchieta-Imigrantes, em maio de 1998, a Ecovias, um dos braços do grupo paranaense CR Almeida, recebeu um Centro de Controle Operacional (CCO) com apenas um rádio para comunicação com todas as viaturas espalhadas pelos 176 km de extensão das duas rodovias. Hoje, o CCO sabe com exatidão quantos carros trafegam pelas estradas, quais as condições metereológicas da semana, o número de acidentes, graças a imagens captadas por 132 câmeras. Mas, mesmo com todo esse controle e o acesso a informações precisas, alguma coisa deu errado no plano de negócios da companhia. Nesses dez anos, a empresa não conseguiu acertar o volume de tráfego no corredor rodoviário que liga o maior centro consumidor do País com o principal porto da América do Sul. Os números sempre foram abaixo dos projetados, fazendo com que a receita com pedágios ficasse aquém do esperado. Isso tem impacto direto no retorno dos investimentos feitos desde o início da concessão. De 1999 até hoje, o fluxo de veículos ficou quase 20% abaixo das projeções. Como se explica? “As estradas são reflexos da economia brasileira. O preço do combustível, a renda e o comércio interno podem ajudar ou atrapalhar”, afirma Humberto Gomes, diretor-superintendente da Ecovias.
Gomes diz que, mesmo com fluxo menor do que o previsto, o retorno do investimento está dentro do cronograma. Os reajustes no valor dos pedágios têm ajudado um bocado. De julho de 1998 até hoje, as tarifas subiram 286%, conforme rezam os contratos de concessão. No mesmo período, a inflação oficial do País, medida pelo IPCA, cresceu 94%. A Ecovias também passou a buscar alternativas para reduzir custos. A instalação de câmaras, por exemplo, exige um número menor de fiscais ao longo das estradas. A eficiência no escoamento do tráfego melhora a segurança e evita acidentes. A construção da segunda pista da Imigrantes, feita em 2002, fez com que a descida pela serra deixasse de durar até seis horas para consumir apenas duas, no máximo.
Outras melhorias, estimadas em R$ 184 milhões para este ano, facilitarão a vida de pedestres e motoristas. Uma delas é o viaduto sobre a linha férrea no Km 262 da rodovia Cônego Domênico Rangoni, que dá acesso a um dos pátios do porto de Santos. A obra acabará com as interrupções no tráfego que causavam transtornos aos usuários, congestionamento e dificuldades na entrega de cargas no porto. Além disso, a Ecovias investiu R$ 5 milhões na construção, em junho de 2005, de uma usina própria para fabricação de asfalto de pneu, próxima da sede da concessionária, no Km 28,5 da Rodovia dos Imigrantes. Até hoje, foram utilizadas 130 mil toneladas de asfalto de borracha e reciclados 195 mil pneus usados. A estimativa da companhia é que o custo seja 35% maior que o do asfalto comum, mas sua durabilidade, 50% maior.
Alguns especialistas se surpreendem com essa situação. “Se o número de carros sempre está abaixo do esperado por que a Ecovias teria de investir tanto?”, questiona Luiz Célio Bottura, consultor de engenharia urbana e presidente da Dersa na década de 80. Ele estranha o fato de a empresa nunca ter estimado corretamente o aumento no número de veículos pedagiados. “Eles usam uma tecnologia avançada demais, não podiam errar tanto”, afirma. Segundo Bottura, há uma cláusula de equilíbrio financeiro nos contratos de concessão, em que reajustes podem ser solicitados quando a receita diminui. “Talvez isso explique porque eles estimam mais do que realmente alcançam”, sugere.