19/04/2026 - 11:00
Em grave crise financeira, a Oncoclínicas viu o caminho que se formava como saída para os seus problemas deixar de existir nesta semana. Endividada – o volume superou R$ 3,5 bilhões em 2025 –, a companhia acaba de pedir proteção contra credores na Justiça, enquanto Fleury e Porto Seguro desistiram de fechar um negócio conjunto que formaria uma nova empresa. Era esperado um aporte de ao menos R$ 1 bilhão.
Depois disso, a Oncoclínicas comunicou ao mercado investidor nesta semana que dará continuidade à avaliação de alternativas estratégicas para a reestruturação de sua situação financeira. A empresa informou que voltará suas atenções para outras opções de capitalização, incluindo propostas surgidas nas últimas semanas que não puderam ser exploradas anteriormente devido à cláusula de exclusividade que estava em vigor com o grupo Fleury e a Porto Seguro.
+ Fleury e Porto Seguro desistem de operação para criar nova empresa com a Oncoclínicas
Embora essas empresas tenham confirmado oficialmente o fim das tratativas, nenhuma delas detalhou o fator que levou à desistência do negócio. O projeto, que havia sido delineado em um acordo não vinculante assinado em março, era ambicioso: previa um aporte direto de R$ 500 milhões em uma nova estrutura societária, além da emissão de outros R$ 500 milhões em debêntures conversíveis em ações ordinárias, que seriam subscritas por uma ou ambas as parceiras. Em meio ao cenário, as ações da Oncoclínicas chegaram a cair quase 10% no início da semana, mas já recuperaram parte das perdas.
Para a equipe de análise do BTG Pactual, o cancelamento do aporte não foi uma surpresa. Os analistas do banco, Samuel Alves e Maria Resende, destacaram que a complexidade da transação e o rigor do processo de due diligence provavelmente trouxeram à tona a profundidade dos desafios financeiros enfrentados pela Oncoclínicas.
O relatório do banco, enviado a clientes, informa que o alto nível de endividamento da companhia, somado à possibilidade de passivos fora do balanço, criou uma barreira para que grupos capitalizados como Fleury e Porto avançassem em uma injeção de recursos que fizesse sentido sob a ótica de risco e retorno.
Como medida de proteção imediata, a Oncoclínicas acionou a Justiça de São Paulo para solicitar a suspensão dos efeitos de cláusulas contratuais que poderiam acarretar o vencimento antecipado de suas dívidas. Especialistas setoriais reforçaram que a visibilidade sobre o futuro da companhia permanece limitada, embora existam acenos de propostas alternativas envolvendo acionistas de referência. O BTG, que sinaliza recomendação neutra para investidores, afirmou que seguirá monitorando os próximos passos da reestruturação para entender os impactos reais tanto na estrutura de capital quanto na capacidade de continuidade operacional da Oncoclínicas.
Retrato do problema
A situação financeira da Oncoclínicas tem sido um tema que chama a atenção no mercado de capitais brasileiro, com a queda acentuada das ações em 2024 e 2025. O prejuízo da companhia não é fruto de um único fator, mas de uma combinação de modelo de negócio, estrutura de capital e mudanças no setor de saúde. Um dos fatores para o atual retrato foi a rápida expansão. A Oncoclínicas cresceu de forma muito agressiva por meio de aquisições. Para comprar outras clínicas e expandir sua rede, a empresa tomou muita dívida – e com a taxa Selic em alto patamar, o custo do endividamento consome boa parte da geração de caixa operacional.
Outro problema, apontado como crítico por especialistas, é o ciclo de conversão de caixa da companhia. Há um descasamento entre o recebimento dos planos de saúde, que são os seus principais clientes, e o pagamento dos custos da operação. Ou seja, o tratamento oncológico exige medicamentos de alto valor. A Oncoclínicas costuma comprá-los à vista ou em prazos mais curtos do que recebe das operadoras, portanto o reembolso acaba por ser mais demorado para repor ao caixa. E as operadoras de saúde, enfrentando suas próprias crises financeiras, têm atrasado pagamentos ou aumentado recusas de procedimentos realizados em pacientes.
Ademais, os juros altos afetam não só a empresa diretamente, mas as operadoras de planos de saúde, que estão com a sinistralidade alta. Isso faz com que elas apertem as tabelas de preços e dificultem o credenciamento de novos serviços, atingindo diretamente a receita da companhia. Recentemente, a empresa precisou fazer ajustes contábeis relacionados a provisões para devedores duvidosos e ativos fiscais, o que por fim impactou o lucro líquido e a percepção de transparência da companhia.
