Todas as semanas pelo menos uma missão comercial chinesa desembarca no Brasil. No ano passado, foram mais de mil delegações com cerca de 18 mil executivos da China em busca de oportunidades de negócio. Eles vem de mansinho, olham e discretamente vão embora. Meses depois voltam para fechar negócios. É isso o que está acontecendo agora. Uma nova onda de investimentos estrangeiros está chegando ao País patrocinada pela China. Depois de se instalarem no mundo todo, os chineses consideram o Brasil a última fronteira a ser desbravada. Hoje, a China é uma potência econômica, que deverá crescer 7,5% em 2003, enquanto o resto do mundo patina em recessão. Como têm dinheiro de sobra ? são US$ 500 bilhões em reservas externas ?, eles podem se expandir além de seus territórios. Aqui, vêm em busca de oportunidades no mercado brasileiro ou simplesmente produzir aqui o que falta lá. O alvo são setores como construção naval, motocicletas, eletroeletrônico, farmacêutico, frigorífico e até agrícola. Nos últimos anos, cerca de 40 empresas fincaram seus pés aqui. Outras 15 estão em prospecção no momento, contabiliza a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China. ?Se esses projetos se concretizarem serão US$ 150 milhões em investimento?, diz Charles Tang, presidente da Câmara. Essa entidade é quem está fazendo o meio de campo entre os chineses e os empreendimentos brasileiros. Em comum entre todos os projetos há o fato de os chineses quererem um parceiro local. Não procuram um sócio capitalista em terras brasileiras, mas alguém que conheça a lógica do mercado nacional. E mais: eles querem acesso ao BNDES, linhas oficiais e incentivos fiscais. Esses são, por exemplo, os planos da Linfan. A fabricante de motocicletas procura um parceiro para instalar uma planta na Zona Franca de Manaus e fazer a montagem das motos. ?Primeiro, montar. E depois, nacionalizar?, conta Tang.

Embora todo o investimento seja bem-vindo, a fama de predadores desses neo-capitalistas causa receio nos brasileiros. ?Vejo com preocupação a chegada dos chineses porque a qualidade e o preço dos produtos são muito baixos?, diz Claúdio Rosa Júnior, diretor da Companhia Brasileira de Bicicletas. Prevenidos, os fabricantes do setor querem alteração na legislação que obrigue os novos fabricantes a investir em fábricas no País. A idéia é evitar o que aconteceu no Uruguai, onde 95% do mercado de motos e bicicletas foi tomado pelos chineses. Mas nem é preciso ir tão longe. Na Zona Franca de Manaus, o Ministério do Desenvolvimento permitiu que empresas asiáticas importem componentes e produzam com preços mais baixos. O DVD da SVA, por exemplo, ficou 15% mais barato que a concorrência nacional.

O fato é que os chineses estão decididos a fincar sua bandeira no Brasil. ?Paciência oriental que nada. Eles querem é resultado voando?, diz João Pedro Flecha de Lima, vice-presidente da Huawei, empresa na área de telecomunicações que investiu US$ 25 milhões em uma fábrica em Campinas em 2002. ?A grande barreira é cultural?, diz Carlos Meinberg, que tenta exportar embriões bovinos para a China. Não é só entre chineses e brasileiros que ocorre a confusão, mas entre os próprios orientais. Meinberg assistiu uma cena clássica: em uma reunião com empresários de Pequim, Macau e Shangai nenhum deles entendia o dialeto que o outro falava. Hoje, a língua oficial nessa relação comercial é o inglês. Mas o mais comum é que se use um intérprete do português para o chinês.

Apesar da dificuldade, os projetos continuam chegando. A Northwest, empresa farmacêutica, quer produzir AZT, um dos remédios contra a Aids. Já a Guaungzahou, outra do setor farmacêutico, quer fabricar um bálsamo anestésico. O estaleiro Dalian quer participar da megalicitação para as plataformas P-51 e P-52 da Petrobras, que valem US$ 500 milhões cada uma. Muitas companhias, no entanto, querem fazer negócios aqui de olho na capacidade de importação do país natal. O grupo Husbandry, maior importador de carne da China, pretende arrendar um frigorífico no Brasil. ?É um negócio com potencial de US$ 20 milhões ao ano?, diz Pedro Bordon, que está intermediando a Husbandry no País. O mesmo raciocínio é feito por investidores que querem produzir soja no País e exportar para a China, que no ano passado importou 15 milhões de toneladas do grão. Com números assim, não há quem não se interesse por esse poder empreendedor. A questão é evitar que esses investimentos não se tornem negócios da China apenas para os chineses.