21/06/2006 - 7:00
Existe um dragão ganhando corpo nos porões da economia brasileira, e não é o da inflação. Trata-se de uma parcela da população que começa a desfrutar de um padrão de crescimento digno da economia chinesa. Sua renda per capita cresce a uma média de 12% ao ano, enquanto o restante dos brasileiros avança a 3% anuais. Estudo do economista Ricardo Paes de Barros, coordenador de avaliação de políticas públicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, IPEA, mostra que esse movimento quase subterrâneo começou em 2000. E se mantém forte. Sem investimentos em títulos públicos, iates ou bens de luxo, o notável aumento na renda ocorreu no grupo dos 20% mais pobres do País. Essa parcela de 26 milhões de brasileiros não tem por que invejar a robustez econômica da China, que cresce a 10% ao ano. Comemora seu próprio êxito. Afinal, o poder aquisitivo dos 10% mais pobres no Brasil subiu animadores 16%, em 2004. ?O grau de desigualdade vigente é o menor dos últimos 25 anos?, avalia Paes de Barros. ?O percentual de pobres e extremamente pobres caiu muito. Foram dois pontos entre 2001 e 2004?. Mas se os pobres estão mais ricos, pode-se concluir que os ricos estão mais pobres? Nem tanto. Os 10% mais ricos perderam 2% de sua renda. Mesmo assim seus ganhos são 20 vezes maiores do que os dos 40% mais pobres. E os cientistas políticos avaliam que reside aí o segredo do favoritismo eleitoral do presidente Lula, cuja popularidade não sofre abalos apesar de todas as denúncias e investigações contra seu governo.
A dona-de-casa, Ana Lúcia Furtado, de Brasília, é o espelho das pesquisas de Paes de Barros. Sua vida melhorou – e muito – nos últimos anos. O marido, Gilson, 41 anos, caminhoneiro, conseguiu um contrato fixo com uma madeireira. A renda da família subiu para R$ 500 por mês. Em meses melhores chega a R$ 2mil, impulsionada pelo crescimento dos pedidos de frete. Com orçamento mais folgado, a família conseguiu comprar televisão, som, rack e um sofá. Dividiu em dois anos. Mal terminou de pagar, decidiu que teria um carro. Dividiu em prestações a perder de vista e termina de pagá-las em outubro. A casa própria? Por enquanto continuará pagando aluguel de R$ 280, por uma casa pequena, mal acabada, com as paredes no reboco, mas com dois quartos. O suficiente para Ana Lùcia, marido, filho de 10 meses, uma irmã de 22 anos, desempregada, e um enteado de 16. ?A vida está boa demais?, conta a jovem de 23 anos com um largo sorriso no rosto. Para o gerente-geral de Propaganda da cadeia de lojas Mig, Leônidas Rodrigues, o aumento na renda das classes C, D e E traz a oportunidade de novos negócios. A empresa, especializada nos comércio popular, vai inaugurar duas novas filiais e alimenta sonhos de expansão ainda maiores. ?Nossa mídia está toda focada nos mais pobres?, avalia Leônidas. ?A pontualidade deles aumentou e a inadimplência caiu bastante?. Maria das Graças, 57 anos, é outra freguesa da loja. Aposentada pelo governo do Maranhão, está em Brasília passando uma ?temporada? com um dos seus nove filhos. Deixou três no Piauí, desempregados, que têm como única renda fixa a Bolsa Família. Por mês, o governo deposita pouco menos de R$ 100 em um cartão, que complementado com ?bicos?, garante o sustento dos filhos, noras e netos de Maria. ?Eles fazem tanta coisa, entregam mercadoria, consertam máquinas, são pedreiro, carpinteiro…?, diz ela. ?Lá no Nordeste, o emprego está mais difícil, mas eles se viram?.
O dragão que se movimenta por aqui, porém, não é a mesmo que aquece a economia da China. Por lá, são os investimentos que fazem o país crescer a taxa de dois dígitos. Por aqui, os mais pobres são favorecidos sobretudo pelas políticas de transferência de renda dos últimos cinco anos, ainda que o crescimento da economia industrial, mesmo moderado, cumpra um papel coadjuvante na redistribuição de renda. ?O que estrutura uma sociedade é trabalho e crescimento econômico?, afirma o professor da Unicamp, Márcio Pochmann. ?Na China a renda cresce pelo trabalho. No Brasil, a renda do trabalho caiu?. É fácil perceber isso quando se olham os números de perto. Um quarto do aumento de poder aquisitivo dos mais pobres foi provocado pelos programas de transferência de renda ? a maior parte integrada ao Programa Bolsa Família ?, que deram uma contribuição três vezes maior do que a do aumento do salário mínimo. Em parceria com o Centro Mundial de Pobreza da ONU, o pesquisador da FGV-RJ, Marcelo Nery, constatou, com outra metodologia, que a renda de todos pobres do Brasil cresceu 3,07%, em 2005. Nesse caso, o Bolsa Família contribuiu com 2% e o repasse da Previdência com 0,48%. Confirmando a curva pró-pobre e anti-rico, a renda dos ricos caiu 1,35%. Isso comprova que o impacto dos programas não é desprezível. Mesmo assim, não faltam críticas. ?A utilidade do programa Bolsa Família é inegável, mas apenas em caráter emergencial?, diz Paes de Barros. ?Com a carga tributária em quase 40% do PIB, o Estado não tem mais onde arrecadar para garantir o aumento desses recursos.? Há o temor generalizado entre os economistas de que esses programas, caso se prolonguem por muito tempo, resultarão em assistencialismo. O ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, atual diretor da Faculdade de Economia da Faap, alerta para um outro problema: a deterioração da renda da classe média nos últimos cincos anos. ?Os ricos aquinhoam uma fatia de renda muito alta. Os pobres estão melhorando de renda. E a classe média??, pergunta ele. E responde: ?Vai se degenerando?. ![]()
16% é quanto cresceu em 2004 a renda dos 10% mais pobres da população brasileira |