A pose na foto aí do lado revela, e muito, a personalidade das duas mulheres ? e revela também como elas dirigem a Onodera, a maior rede de centros de beleza do País. Lucy, a moça de olhos amendoados de pé sobre a poltrona, é espevitada, falante e cheia de idéias novas. Sua mãe, Edna, a elegante senhora sentada a seu lado, é contida nas palavras, observadora e cadenciada nas decisões. Lucy fala com tanta desenvoltura da empresa que muita gente pensa que ali está a dona ? em alguns momentos até ela mesmo se convence disso. ?Ela acha que é a Edna?, provoca a mãe. Durante a conversa, uma corta a outra, a mãe dá pitos na filha, a filha se arrepende (?Contei mais do que deveria??), mas volta a falar e só é interrompida pelo barulho das obras na sede da empresa, recém-adquirida. ?Tínhamos parado a reforma porque o dinheiro acabou. Mas agora retomamos?, conta Lucy.

Pode parecer um tanto desorganizado, e é mesmo. Mas foi assim
que as duas ergueram uma malha de 50 lojas da Onodera, espalhadas por 22 cidades, que geram um faturamento anual superior a R$ 22 milhões. A cada mês, quatro mil clientes cruzam suas portas em
busca de tratamentos de beleza corporal e facial, que lhe custam entre R$ 50 e R$ 1 mil. Até o final do ano, 10 novas unidades serão inauguradas. Lucy tem mais planos. Um deles é estender o atendimento aos homens. Em breve, um clínica dirigida aos marmanjos entrará em operação, em fase de testes. ?É um mercado diferente?, conta Edna. ?A seleção de atendentes é diferente, o tratamento é diferente, tudo é diferente.? Até mesmo o logotipo ? o corpo estilizado de uma mulher ? sofrerá alterações. Uma experiência passada traumatizou mãe e filha. ?Clientes iam às clínicas e cantavam as funcionárias?, recorda Edna. ?Outros pensavam que se tratava das tradicionais massage for men.?

Outra investida da Onodera é a oferta de produtos de beleza. A linha de seis itens saltará para 20 até o final de 2004. Os cremes são encontrados exclusivamente nas clínicas Onodera, mas podem desembarcar nas gôndolas das lojas dentro de algum tempo. ?Contei mais do que deveria??, pergunta, olhando para a mãe. Formada em Administração de Empresas, Lucy tem como missão profissionalizar a companhia. A mudança começará pelas áreas de administração e finanças. Por exemplo: até hoje, as contas correntes da empresa e da família se confundem.

A Onodera padece de alguns males do crescimento acelerado e do voluntarismo dos empreendedores. Em 2000, eram cinco clínicas, todas de propriedade de Edna. Em menos de três anos, esse número foi multiplicado por dez com a abertura de franquias. Edna foi coração e mente na gestação da Onodera. Em 1981, era uma dona de casa prestativa, casada com Ikuo Onodera, treinador da seleção brasileira de judô. Sua academia, em São Paulo, sempre estava relegada a um segundo plano. ?Ele era idealista, mas não ganhava dinheiro?, conta Edna. Notou que as mães ficavam ociosas enquanto os filhos se espancavam em cima do tatame. Durante uma das constantes viagens do marido, ocupou uma saleta e começou a dar aulas de um tal de ginjazz, expressão inventada por ela que, a rigor, nada significava. ?Acho que era uma mistura de dança com ginástica?, arrisca. Iuko só soube da iniciativa da esposa quando retornou.

Logo Edna começou a oferecer sessões de massagem. Enquanto as mulheres pulavam e eram massageadas, ela percorria ruas do bairro pendurando cartazes em postes. Em condomínios, reunia moradoras e falava dos benefícios da dança e da massagem. Uma pergunta era recorrente: ?Vai melhorar minha aparência?? ?Percebi que o caminho era oferecer serviços de estética?, diz. Em semanas a pequena sala lotou. Edna esperou outra viagem do marido, vendeu o carro, comprou equipamentos e mudou-se para uma área maior. O sucesso teve dois ingredientes, segundo ela. Primeiro: ?Transformamos uma atividade elitista em algo acessível para a classe média. Sem volume não cresceríamos nunca.? Segundo: ?Nunca me endividei. Cada vez que precisava investir, vendia carro, casa e o que fosse para não correr aos bancos?. Ou seja, Edna não falou mais do que deveria.