Carlos Rukhauf, o governador de Buenos Aires, é uma figura conhecida dos brasileiros. Foi ele, entre os políticos argentinos, que se pronunciou mais violentamente contra a ?invasão? de produtos brasileiros em seus país. Foi ele, também, quem denunciou uma suposta ? e falsa ? fuga de empresas para o Brasil. A linguagem dura e as ameaças de então não se parecem com o homem sorridente e tranqüilo que desembarcou em São Paulo para uma visita de 24 horas, há duas semanas. Oficialmente, ele veio estreitar o laço entre as duas cidades mais ricas do Continente. Extraoficialmente, esteve aqui para dissipar a imagem antibrasileira ? incômoda para quem, como ele, é candidato natural à presidência do seu país. Foi a segunda vez que esse advogado de 57 anos (seis dos quais na clandestinidade, durante a ditadura militar) esteve em São Paulo. Da outra vez, há 30 anos, acompanhou um amigo que veio pedir a mão de uma brasileira. ?Foi um caso de amor?, lembrou ele, nostálgico.

DINHEIRO ? Como o sr. explica as ameaças que fez às empresas argentinas que queiram se mudar para o Brasil?
RUKHAUF ?
Se tratava de empresas que queriam se mover para pequenos Estados brasileiros, atraídas por mecanismos de subsídios. Era competição desleal. Mas eu nunca tive uma atitude contra o Brasil.

DINHEIRO ? A questão cambial impõe um limite à competitividade da indústria argentina. Isso não será uma fonte permanente de conflito?
RUKHAUF ?
É preciso analisar os custos da indústria argentina na sua totalidade. Estamos tentando fazer com que esses custos diminuam na província de Buenos Aires. A desvalorização do real teve um impacto forte no comércio, mas as negociações entre os dois governos vão por bom caminho.

DINHEIRO ? O sr. é a favor do ajuste fiscal de De la Rúa?
RUKHAUF ?
O presidente tomou várias medidas. Algumas nós apoiamos, outras, não. Elas estão vinculadas à busca do equilíbrio fiscal. Propusemos ao presidente chegar ao mesmo objetivo por meio de medidas de reativação econômica. Está em marcha uma conversação entre o governo e o meu partido para buscar convergência nesse sentido.

DINHEIRO ? Como o sr. vê a recusa do Senado em apoiar as medidas de ajuste?
RUKHAUF ?
Alguns companheiros do meu partido acreditaram que tinham de potencializar o mau humor popular. Eu creio que há que se trabalhar como estadista para solucionar os problemas.

DINHEIRO ? As manifestações populares não demonstram cansaço com as medidas orientadas pelo Fundo Monetário?
RUKHAUF ?
O Fundo tem um diagnóstico equivocado. Ele acredita que o problema na Argentina é apenas de equilíbrio fiscal, mas o problema é a recessão.

DINHEIRO ? Como o sr. recebeu o manifesto do ex-presidente Carlos Menem contra o governo De la Rúa?
RUKHAUF ?
Não li, não tem importância política. Menem pertence à história, não ao futuro.