O Ministério Público Federal (MPF) denunciou à Justiça neste domingo,  29, 16 investigados por suposto envolvimento com a negociação ilícita  para aprovação de medidas provisórias que beneficiariam contribuintes  específicos. A ação, assinada pelos procuradores da República Frederico  de Carvalho Paiva, Marcelo Ribeiro e pelos procuradores regionais da  República José Alfredo de Paula Silva e Raquel Branquinho, faz parte da  Operação Zelotes, que apura irregularidades cometidas entre 2005 e 2014 e  que, de acordo com as estimativas iniciais, causaram prejuízos  bilionários aos cofres públicos. Na ação penal, a força-tarefa que  investiga o caso aponta a prática de crimes como corrupção ativa e  passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e extorsão. Todos os  denunciados pela Procuradoria negam taxativamente envolvimento em  irregularidades.

A lista de pedidos da Procuradoria da  República inclui a perda dos cargos e a cassação de aposentadoria dos  funcionários públicos, o pagamento de, no mínimo, R$ 879,5 milhões como  reparação aos cofres públicos e a perda, em favor da União, de R$  1.581.263,17 decorrentes da prática de lavagem de dinheiro praticada por  parte dos denunciados.

Iniciada em 2013, a investigação se  tornou pública em março deste ano, quando foi deflagrada a primeira  fase de buscas e apreensões. A análise do material recolhido levou os  investigadores a desmembrarem os casos a partir da constatação de que  grandes contribuintes contrataram pessoas – na maioria dos casos  advogados e ex-conselheiros – que atuavam de forma paralela à defesa  oficial e regularmente constituída junto a conselheiros do Carf para que  estes votassem favoravelmente aos recursos apresentados junto ao órgão.

“No  entanto, ao analisarem uma das situações, os investigadores descobriram  que determinada organização criminosa também agiu para viabilizar a  aprovação de legislação que concedeu benefícios fiscais a empresas do  setor automobilístico, o que levou à abertura de um inquérito  específico”, aponta a Procuradoria em nota.

Concluído nos  últimos dias, esse procedimento embasou a denúncia, que envolve as  empresas SGR Consultoria Empresarial Ltda e a Marcondes e Mautoni  Empreendimentos e Diplomacia Corporativa Ltda (M&M).

“As duas organizações se uniram em 2009 para a prática de crimes, conforme revelaram as investigações”, indica a Procuradoria.

Na  denúncia, os procuradores da República detalham a atuação de cada  integrante do esquema, frisando que tanto a SGR quanto a M&M nada  produzem. Os principais nomes ligados aos dois grupos estão presos de  forma preventiva desde o dia 26 de outubro.

No caso da SGR,  a empresa fundada por Eivany Antônio da Silva, ex-auditor fiscal da  Receita Federal, se especializou, segundo a denúncia, em “oferecer como  produto criminoso a contribuintes de grande porte, selecionados pelos  membros da organização, decisões favoráveis dentro do Conselho  Administrativo de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda – Carf,  última instância administrativa na esfera tributária”. O principal nome  da companhia é José Ricardo Silva (filho de Eivany), mas o grupo conta  ainda com Alexandre Paes dos Santos e Eduardo Valadão. José Ricardo foi  conselheiro do Carf entre 2007 e 2014.

Em relação à  M&M, de propriedade do casal Mauro Marcondes e Cristina Mautoni  (também presos por ordem judicial), os investigadores afirmam que a  atuação sempre foi no sentido de patrocinar “interesses de particulares  junto ao Estado”. Além do casal, a empresa contava com o “trabalho”  regular de Francisco Mirto Florêncio (preso e denunciado). A relação de  Mirto com a M&M aparece em vários momentos da denúncia, como o fato  de ele ter recebido R$ 500 mil da empresa e de ter sido o responsável  por realizar – ainda em 2010 – uma investigação clandestina contra o  então procurador da República José Alfredo Paula Silva, que na época  apurava a compra de caças pelo Brasil, assunto sobre o qual o trio  atuava intermediando interesses.

As diligências realizadas  ao longo de mais de um ano por investigadores do MPF, da Polícia  Federal, da Receita Federal e da Corregedoria do Ministério da Fazenda  mostraram que o objetivo inicial da união entre SGR e M&M era o  atendimento de interesses da montadora MMC junto ao Carf, onde um  recurso discutia uma cobrança milionária imposta à montadora.  Posteriormente, o grupo atuou também na compra de legislação federal  (medidas provisórias) que beneficiou, além da MMC, o grupo Caoa, também  do setor automobilístico. “Como suporte e estímulo a essa atuação, há o  denunciado Eduardo Ramos, que, via MMC, financiou a organização  criminosa ao longo do tempo”, afirmam os procuradores em um dos trechos  da ação. Robert Rittscher, presidente da MMC a partir de abril de 2010,  também foi denunciado por financiar a organização criminosa.

No  caso do recurso administrativo – acatado por 4 a 2, no julgamento do  Carf – a empresa MMC deixou de pagar mais de R$ 266 milhões. Já o valor  conseguido com a renúncia fiscal decorrente da prorrogação promovida  pela Medida Provisória 471/09 alcançou a cifra de R$ 879,5 milhões. Como  financiamento ao longo do tempo, a MMC teria repassado ao grupo de  lobistas R$ 57 milhões. Na denúncia, o MPF frisa que, em função do alto  valor, o pagamento foi feito de forma parcelada, entre os anos de 2009 e  2015. Explica ainda que, para ocultar sua relação com a SGR, o  relacionamento financeiro da MMC se restringiu à M&M, com quem tinha  uma “história” comercial antiga.

Outros envolvidos

Além  das pessoas com vínculos diretos com a SGR e a M&M e dos três  representantes da montadora MMC (Eduardo de Souza Ramos, Paulo Arantes  Ferraz e Robert Rittscher), o MPF denunciou outros envolvidos no  esquema. Neste aspecto, destaca-se a servidora pública Lytha Battiston  Spíndola e seus dois filhos, Vladimir e Camilo Spíndola, além do  ex-diretor de comunicação do Senado, Fernando Cesar de Moreira Mesquita.  Mesquita, frisam os autores da ação, teria recebido R$ 78 mil como  pagamento por ter monitorado a tramitação da Medida Provisória 471 no  Congresso Nacional. Aprovada como pretendiam os investigados, a MP foi  convertida na Lei 12.218/2010 e rendeu benefícios fiscais às empresas  Caoa e MMC de 2010 a 2015.