Em plena temporada de verão muitos brasileiros estão se aventurando a fazer seu primeiro cruzeiro de navio.  O preço ainda é convidativo, apesar do dólar nas alturas, e a relação custo-benefício para lá de boa.

Mas nem tudo é alegria nesse setor. No ano que vem menos navios vão atracar no Brasil e a oferta pode ser menor. O motivo? O Custo Brasil e a perda de mercado para países como China e Cuba.

O CEO Global da MSC, o italiano Gianni Onorato, que pilota uma das maiores companhias de cruzeiros marítimos do planeta, falou com o portal da DINHEIRO sobre os prazeres, e os problemas do setor.

Ainda vale a pena operar no Brasil com um dólar alto e custos elevados?
Temos alguns países estratégicos e o Brasil é um deles, além de Itália, França, Espanha, Alemanha. Estamos agora investido na China e fortemente na América do Norte. A América do Norte já é um mercado maduro, mas até agora não tínhamos investido o suficiente. Nos próximos seis anos, vamos dobrar a capacidade da companhia em todo o mundo. Temos hoje sete navios encomendados e vamos sair dos atuais 1,7 milhão de passageiros transportados por ano, para 3,4 milhões por ano em todo o mundo. Isto porque os novos navios que chegarão a partir de 2017 são maiores. Devo dizer que alguns deles foram encomendados pensando em países como o Brasil.

E no Brasil, quais serão os navios da MSC? Quais as expectativas de faturamento?
Em 2016, no Brasil, teremos quatro navios para atual temporada, sendo que um deles aportado em Buenos Aires. Em todo o mundo serão 200,5 mil passageiros este ano ante 200 mil ano passado. Os cruzeiros são uma forma de retorno bastante alto em termos de investimento. No Brasil as pessoas reconhecem que pagam por um cruzeiro o que vale, o que nos dá a dimensão de que este mercado pode crescer muito mais por aqui. O detalhe é que estamos crescendo em torno de 20% nosso faturamento na América Latina, número que se aplica também ao  Brasil, comparando-se com a última temporada.

É correto afirmar que a China tem atraído mais cruzeiros e de certa forma desviado navios da América do Sul para atender a essa demanda?
Estamos trabalhando para satisfazer uma demanda crescente na China. Sim, é verdade que há o deslocamento de alguns navios da América do Sul para atender esse mercado. O total de navios na China praticamente dobrou nos últimos anos considerando-se toda a indústria. Mas a adequação dos navios em todo o mundo está relacionada com a estratégia de cada companhia, com a busca da lucratividade.

Alguns custos no Brasil estão fora do padrão internacional? Em que medida um real desvalorizado em relação ao dólar afeta o negócio de cruzeiros? 
Acho que, mais do que a taxa de câmbio, o que é preciso se observar é a situação econômica no País. Operamos neste mercado há muito tempo e tenho visto muito altos e baixos. O que não se pode é olhar a situação de momento, mas observar o cenário em longo prazo quando se analisam países como o Brasil ou a Argentina.

Como lidar com estes altos e baixos?
Eu sou um fã de Charles Darwin. É preciso sempre uma adaptação dos negócios, das espécies (risos). Eu sempre olho o cenário com prazo mais longo para tomar decisões, nunca menos do que cinco anos de horizonte. Se a situação melhora, você coloca mais navios. Caso contrário, retira. O segredo está em você flutuar de acordo com o mercado. E quando em um ano você tem menos lucro, eventualmente no outro você pode ter mais.

Algumas operadoras, como a Royal Caribbean, afirmam que podem não atracar navios no ano que vem aqui no País… 
Não posso julgar meus competidores, são estratégias diferentes. Tivemos impacto do câmbio aqui nas vendas, sem contar os custos que são todos em dólar. Temos que pagar os empregados embarcados nessa moeda.

Por que operar no Brasil é caro?
Os controladores da MSC não conseguem entender porque os cruzeiros no Brasil são mais caros do que em outros países do mundo. Eu não sei a razão, mas sei os fatos.  Em termos de custos operacionais, aqui é em torno de 35% superior do que em outros países. Estou me referindo aos custos portuários, de pessoal, de praticagem (para atracar o navio no porto).

O episódio do naufrágio do navio Costa Concórdia, na Itália, abalou a confiança da indústria?
Existem episódios que colocam a indústria sobre teste. Sem dúvida houve um impacto inicial quando ocorreu o problema, em 2012. E é preciso lembrar que um ano antes, em 2011, a situação econômica na Europa não era boa com recessão em alguns países. A partir de 2014, houve uma recuperação do número de passageiros naquela região, uma retomada do negócio.

E em relação a Cuba, com o fim do embargo americano? Será um destino crescente para cruzeiros?
Teremos um navio em Cuba operando. Trata-se de um destino muito atrativo tanto quanto os outros: Itália, Espanha, Alemanha e também o Brasil. Mas queremos fazer mais aqui no Brasil.

De uns anos para cá, as operadoras estão oferecendo cruzeiros mais curtos em relação ao que se via no passado. Por quê?
E uma tendência quando você quer abrir um novo mercado, mas depende da circunstância. É uma forma de você se aproximar do consumidor para que ele possa mais tarde fazer cruzeiros de mais longa duração. Para nós, a evolução do mercado brasileiro é bastante clara: os minicruzeiros para um primeiro contato durante um feriado, depois um cruzeiro de sete dias e posteriormente um internacional.