28/01/2003 - 8:00
Uma revolução começa a ser desencadeada nos conselhos de administração das companhias de capital aberto. Até agora eles acomodavam amigos, ex-executivos e figurões do cenário político que estavam ali apenas para cumprir uma exigência legal, ou seja, fazer número. Algumas empresas, porém, resolveram levar a sério o papel dos conselheiros. Abriram as portas e cederam cadeiras para experientes profissionais do mercado, que têm poder e conhecimento técnico para fiscalizar as finanças e a gestão da corporação. A idéia é mostrar para os investidores de forma isenta (eles não representam os majoritários nem os minoritários) a real situação da administração e evitar os típicos boatos, como fechamento de capital e fusões. Em um momento de incertezas, a palavra de um conselheiro graduado e independente pode mudar o rumo da história. ?Por esse motivo, a participação profissional pode render uma valorização de até 20% no preço de uma ação. O papel não estará tão sujeito às quedas de preços em função de suspeitas levantadas no pregão?, afirma o conselheiro profissional Leonardo Viegas, coordenador do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa). Entre os adeptos da nova filosofia, se destacam a Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR), Marcopolo, Cerâmica Chiarelli, Tele Norte Celular Participações, Banco Itáu, Banco do Brasil e Petrobrás.
Em todas essas companhias, a mudança no papel dos conselheiros ainda está em fase embrionária, mas já oferece uma segurança maior para os minoritários. Em processos polêmicos como, por exemplo, reestruturação acionária, a participação de um conselheiro independente pode inibir a possibilidade de que as regras básicas de ajustes de preços das ações não sejam respeitadas com prejuízos para os minoritários. ?A figura de um conselheiro independente é uma prova do compromisso da empresa com os seus acionistas?, diz o conselheiro profissional Paulo Vasconcelos, da consultoria Proxycon, que trabalha na Cerâmica Chiarelli, Tele Norte Celular Participações e na Marcopolo.
Crise de confiança. A profissionalização dos conselhos
também ameniza o risco de o minoritário ser pego de surpresa
com a divulgação de um escândalo sobre fraudes nas contas da empresa. Em todas reuniões, o profissional terá acesso aos complexos números das empresas. Ele será o responsável pela análise dos dados levantados pelas auditorias financeiras independentes. Poderá, por exemplo, suspeitar, conferir e questionar os balanços apresentados. Afinal, os rombos das companhias gigantes norte-americanas como Eron e WorldCom nos Estados Unidos ainda deixaram profundos traumas em acionistas minoritários em todo o mundo.
A crise de confiança dos investidores deu largada ao processo de transformação dos conselhos administrativo e fiscal, ao exigir uma postura mais ética e atenta dos controladores. ?A partir de agora, os acionistas minoritários, principalmente os estrangeiros, querem mais garantias para aplicar o seu dinheiro?, explica o economista Roberto Teixeira da Costa, que foi o primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Ele divide a sua rotina de trabalho entre a diretoria da Sul América Investimentos e o conselho profissional do Banco Itaú. Muito em breve, a independência dos conselheiros será incluída entre os indicadores de investimentos, ao lado da liquidez e da rentabilidade?, afirma Costa.