06/11/2016 - 22:21
Os nicaraguenses votaram neste domingo em um clima de calma e baixa participação, em eleições polêmicas devido à falta de observadores internacionais e de uma oposição real ao chefe de Estado atual, Daniel Ortega, que busca um terceiro mandato consecutivo junto a sua esposa.
A oposição estimou que a abstenção foi maciça e que será preciso convocar novas eleições inclusivas e transparentes.
“É evidente em todo o país que a abstenção foi maciça. Nós calculamos entre 70% e 80% de abstenção”, segundo boletins preliminares, afirmou a dirigente da opositora Frente Ampla pela Democracia (FAD), Violeta Granera, em coletiva de imprensa em Manágua.
A abstenção foi notória “em municípios onde tradicionalmente a Frente Sandinista (FSLN, esquerda) teve maioria” de votos nas últimas eleições.
Foram convocados a votar 3,8 milhões de eleitores.
A maioria das seções eleitorais estava parcialmente vazia por volta do meio-dia, constataram jornalistas da AFP.
Grupos da oposição haviam pedido à população que não votasse para “deslegitimar” eleições das quais foram excluídos por uma decisão da Justiça, uma convocação desconsiderada pelas autoridades.
“Percorri em León (oeste) muitas seções de votação e a (ausência) de gente confirma que (a) abstenção é altíssima. Já não há forma de inventar votos na farsa”, disse o ex-deputado opositor Carlos Langrand.
O ex-deputado é um dos 28 opositores que perderam o assento por se opor a uma sentença judicial que os despojou da dirigência do Partido Liberal Independente (PLI) para colocar um suposto aliado de Ortega.
O presidente do Conselho Supremo Eleitoral (CSE), Roberto Rivas, por sua vez, assegurou que “há muita gente concorrendo a exercer seu voto” em diferentes pontos do país.
Imagens de TV do Caribe e das comunidades por onde passará o projeto de canal interoceânico mostram pouca presença de eleitores nas mesas eleitorais.
As eleições são dominadas por Ortega, que completará 71 anos em 11 de novembro e desfruta de uma ampla vantagem: segundo as últimas pesquisas, conta com 69,8% dos votos, sob a bandeira da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), muito acima dos cinco candidatos de pequenos partidos de direita.
O presidente tem como companheira de chapa como candidata a vice a esposa e braço-direito, Rosario Murillo.
A oposição, que qualifica as eleições como uma “farsa”, busca impedir que Ortega, que controla todo o aparato estatal, instaure uma nova dinastia no país similar à da família Somoza, que governou a Nicarágua entre 1934 e 1979.
O Conselho Nacional de Universidades (CNU), um dos organismos locais credenciados para observar a eleição, destacou a tranquilidade e a ordem com que transcorre o processo, segundo seu presidente, Telémaco Talavera.
“Há uma participação excelente. Não temos uma cifra, mas os reportes, as fotografias e os vídeos indicam uma ampla participação. Não queremos falar de cifras por enquanto”, disse Talavera.
O chefe do exército, general Julio Avilés, e a diretora da polícia, Aminta Granera, coincidiram em que em todo o país há tranquilidade.
Rivas anuncio que o informe de resultados está previsto entre as 21h e as 21h30 locais (01h e 01h30 de segunda-feira, hora de Brasília), três horas depois do fechamento das seções de votação, às 18H00 locais (22H00 de Brasília).
Os nicaraguenses elegerão presidente e vice, 90 deputados da Assembleia Nacional e outros 20 do Parlamento Centro-americano.
Nos últimos 10 anos, Ortega acumulou um enorme poder político e econômico graças à condução de seu partido, uma aliança com o setor empresarial e o apoio da Venezuela.
Segundo dados oficiais, entre 2007 e o primeiro semestre de 2016 a Nicarágua recebeu quase 4,8 bilhões de dólares em empréstimos em condições favoráveis e investimentos da Venezuela, que foram administrados fora do orçamento e sem fiscalização.
A maior parte deles foi investida em projetos de energia, desenvolvimento de comércio, grupos empresariais, agricultura, construção de casas e programas sociais que permitiram reduzir a pobreza de 42,5% a 29,6% entre 2009 e 2014.
Mas a crise política e os baixos preços do petróleo afetaram os fluxos de cooperação e o comércio com a Venezuela, que até 2015 era o segundo sócio em importância da Nicarágua, depois dos Estados Unidos.
No entanto, de acordo com o analista Cirilo Otero, professor de sociologia da Universidade Centro-Americana, o governo se preparou para sobreviver sem a Venezuela, buscando petróleo em outros mercados, como Estados Unidos.
O anúncio da candidatura da primeira-dama à vice-presidência atiçou as críticas da oposição para Ortega, acusando-o de querer impor uma dinastia familiar no poder.
Militante sandinista desde a década de 1970 e mãe de dez filhos, dois adotados, esta excêntrica poetisa de 65 anos, conhecida por seu estilo autoritário, é adorada pelos simpatizantes de Ortega e apelidada de “bruxa” pelos opositores.
“Durante os últimos dez anos, a senhora Murillo assumiu em muitas ocasiões as funções de chefe de Estado”, disse à AFP por e-mail Verónica Rueda Estrada, especialista em Nicarágua da Universidade de Quintana Roo, no México.
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