Nunca, em toda a história brasileira, um líder político chegou tão perto das massas. Decorridas apenas três semanas desde sua eleição, Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu a proeza de se tornar ainda mais popular do que quando foi ungido presidente. Eleito com 60% dos votos, Lula é hoje quase uma unanimidade. Onde quer que
esteja, seja em São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasília ou Garanhuns ? as cidades por onde passou na última semana ? lá estará uma multidão disposta a ganhar um autógrafo, a entregar-lhe uma santa, a tocá-lo ou, simplesmente, buscando um mero
olhar do ídolo. Carismático como poucos, o homem que subirá a rampa do Planalto revelou-se um mestre das multidões. Isso
significa então que Lula, inebriado pelo sabor da vitória, teria
deixado de lado a tarefa de preparar o terreno para começar a governar? Ao contrário. Lula já se encontrou com vários governadores, aplacando a pressão por renegociações de dívidas. Também esteve com autoridades internacionais, com quem negociou novos créditos para o Brasil. Mas ao estabelecer um canal direto com o povo, Lula construiu um colchão de popularidade invejável. Amealhou um capital político que vale ouro. É a mercadoria que lhe dá condições para a tarefa hercúlea de domar o mercado financeiro e fazer o País voltar a crescer.

Cercado pelos fãs: Em Brasília, o presidente vive o assédio de uma estrela. É quase uma unanimidade
E o fato é que, enquanto Lula exerce esse papel com maestria, seus homens de confiança seguem tocando uma extensa agenda de decisões. São, pelo menos, 12 grandes trabalhos, que vão desde a formação da equipe até a construção da governabilidade, passando por temas como o controle da inflação e a costura do pacto social (veja quadro abaixo). ?O que impressiona no PT é a ordem e a disciplina?, avalia o americano Christopher Garman, cientista político da Tendências, maior consultoria econômica do País. ?Ainda não houve um erro ou uma declaração inapropriada.? É verdade. Só na última semana, aconteceram várias demonstrações positivas. No capítulo FMI, ficou claro que nada impedirá que o Brasil saque os US$ 24 bilhões disponíveis para 2003. Do encontro entre Antônio Palocci, futuro ministro da Fazenda ou do Planejamento, e os técnicos da missão oficial do Fundo em Brasília na terça-feira 19, saíram juras de amor. ?Há muita afinidade e os mercados responderão bem ao governo Lula?, disse Jorge Marquez-Ruarte, chefe da missão. Dois dias depois, Otto Reich, responsável pela América Latina no Departamento de Estado americano, encontrou-se com Lula e prometeu empenhar-se para que os bancos dos Estados Unidos reabram as torneiras do crédito ao Brasil. Na mesma quinta-feira, o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, também se derreteu em elogios ao País. ?Lula é autêntico, sonhador e responsável, o que dá uma combinação genial?, declarou, logo após sair de um encontro com o presidente eleito na Granja do Torto. Dizendo-se emocionado, Wolfensohn prometeu liberar um empréstimo de US$ 10 bilhões do Bird para apoiar o combate à pobreza.

 

 

Todos esses sinais rebateram no mercado financeiro. Um mercado ? é bom lembrar ? que logo após a vitória do PT, em tom ameaçador, previa um desastre caso o novo governo não anunciasse logo sua equipe econômica, de preferência ortodoxa. Lula confirmou apenas o nome do médico sanitarista Antônio Palocci, mas ainda assim o dólar manteve-se estável, o risco Brasil desabou e os papéis da dívida externa brasileira já subiram mais de 20% desde as eleições. Na prática, os investidores se deram conta de que o Brasil não será governado de acordo com os caprichos do ?deus-mercado?. Perceberam também que ficou caro especular contra o País. Por isso, o Brasil já começa a ser apontado como a bola da vez, só que desta vez do crescimento. ?O barco seguia em direção a um iceberg, mas Lula conseguiu freá-lo?, avalia Marcelo Mesquita, estrategista do UBS Warburg, banco suíço que já estima um potencial de alta de 45% para os títulos e ações de empresas brasileiras. ?Para mudar a direção de vez, falta aprovar as reformas econômicas.? Entre os empresários, o otimismo também ressurge. Uma pesquisa divulgada na segunda-feira 18 pela Câmara Americana de Comércio, realizada pelo Ibope, aponta que quase 60% dos homens de negócio prevêem um bom crescimento das vendas em 2003. No cenário para 2004, o número salta para 80%.

Legitimidade. Para que as reformas, de fato, saiam do papel, não se pode subestimar o papel do ?presidente popstar?. É algo que os próprios adversários políticos reconhecem. O deputado Roberto Brant (PFL-MG), que foi ministro da Previdência no governo Fernando Henrique, diz que só Lula terá condições para revolucionar o sistema de seguridade social. ?Quando nós tentamos mudar, diziam que iríamos tirar os benefícios do povo?, afirma. ?Lula conta com a vantagem de ter legitimidade e capital político.? Com uma base de apoio que já conta com parlamentares e governadores de todos os partidos ? é o caso de Aécio Neves e Geraldo Alckmin, do próprio PSDB ? o PT tem tudo para ser bem-sucedido nas votações na Câmara e no Senado. Até porque, com o clima de lua-de-mel entre a sociedade e o presidente, não restou muito espaço, pelo menos até agora, para se fazer oposição.

 

 

Toda essa popularidade ajuda, mas, evidentemente, não basta. Pouco a pouco, o presidente eleito terá que começar a deixar de lado o contato com as multidões para, efetivamente, enfrentar os desafios de governo, que são muitos. É o caso da inflação que, medida pelos índices de preços ao consumidor, já se aproxima de uma taxa de dois dígitos. Foi isso que levou o Banco Central a aumentar, na quarta-feira 20, a taxa básica de juros de 21% para 22% ao ano. No PT, dentro da equipe de transição, já se discutem medidas para conter a alta dos preços. Estudam-se fórmulas para controlar as tarifas públicas e os combustíveis da Petrobras. É algo crucial para viabilizar o pacto social, uma das prioridades do governo Lula. ?Com uma inflação superior a 10%, é muito difícil que não haja pressões para uma reposição imediata e um gatilho salarial?, avisa Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical. Outro grande desafio é lidar com as turbulências corporativas. Na última semana, várias empresas, endividadas em dólar, soltaram balanços com prejuízos de centenas de milhões de reais ? alguns na casa do bilhão, como foi o caso da Globopar e da Cesp. Equipes do PT também discutem saídas para essas companhias, como a abertura de linhas internas de financiamento no BNDES. Mas seja como for, ficou muito mais fácil avançar e apagar incêndios da economia com um presidente popstar.

Com reportagem de Janaína Leite e Renato Mendes

Os 12 trabalhos de lula

Equipe econômica:
Lula superou as pressões do mercado para anunciar logo seu time. Palocci foi confirmado e pode ir para a Fazenda. Dinheiro externo:
Uma das metas do PT é assegurar a retomada do crédito internacional. O Bird já acena com US$ 10 bilhões. Acordo com FMI:
As negociações com o Fundo têm sido bem-sucedidas, o que deve garantir US$ 24 bilhões em 2003.

Agenda global:
Lula já começa a definir prioridades na política internacional, com viagens a Argentina, Chile e Estados Unidos. Inflação:
Equipe de transição estuda fórmulas de controle dos preços públicos e dos combustíveis da Petrobras Livre comércio:
Técnicos do PT querem endurecer negociação com os EUA, para eliminar subsídios e criar a Alca.

Redução de jornada:
Prioridade de Lula, a proposta prevê redução de 44 para 40 horas, mas atrai críticas de parte do empresariado. Pacto social:
PT tenta conter os sindicatos, que já pressionam pela volta da indexação dos salários diante da inflação. Combate à fome:
Lula debaterá seu programa com missão das Nações Unidas, que chega na primeira semana de dezembro.

Governabilidade:
Partido amplia a base de alianças para garantir a aprovação das refomas tributária e da Previdência. Prejuízos privados:
Economistas do PT estudam como criar linhas de crédito para as empresas com fortes dívidas em dólar. Dívida dos estados:
Encontro em Araxá com governadores na segunda 25 deixará claro que não haverá renegociação.