Domingo, 12h30, recepção do Hotel Meliá, em São Paulo. O senador eleito Aloizio Mercadante chega com a mulher e os filhos. Às duas horas da tarde, o deputado José Dirceu também entra discretamente e dirige-se para o 16º andar, onde uma suíte executiva havia sido reservada pelo Partido dos Trabalhadores. Às três da tarde, o secretário-geral do PT, o mineiro Luiz Dulci, que votara em Belo Horizonte, chega e sobe apressado. Assim, aos poucos, foram chegando, um a um, os demais cardeais do partido ? como Antônio Palocci e Luiz Gushiken ? para uma reunião que se apresentava crucial. Havia muito a decidir, mas não foi possível. A emoção da vitória iminente paralisava o núcleo decisório do partido. Era o terceiro dia em que o alto comando do PT tentava, inutilmente, colocar no papel os nomes e as medidas que iriam ditar o ritmo da transição do governo FHC para o governo Lula. Na tarde do sábado, esses mesmos homens eram esperados na suíte presidencial do Sofitel, em São Paulo, mas não apareceram. O espaço reservado pelo PT ficou vazio. Uma festa na noite anterior no Rio de Janeiro acabou depois das três horas da manhã e não havia ninguém em condições de trabalhar no sábado. O motivo da noitada carioca, oferecida pela governadora Benedita da Silva, foi o desempenho de Lula no debate da Globo. O candidato do PT assegurou a vitória com uma presença sóbria e segura diante das câmaras. Aliados como Leonel Brizola juntaram-se à comemoração, cujo espírito antecipava a euforia da vitória ? uma atmosfera já instalada desde o almoço no restaurante La Grita, do Hotel Glória, no qual Lula e Marisa foram acompanhados por José Graziano e Mercadante. ?Não estou assustado?, garantiu Lula. ?O Brasil é um País grande e forte.?

 

Não faltavam tarefas a ser executadas nesses dias de festa. O ponto mais urgente era definir os nomes das 51 pessoas que, em nome do PT e de seus aliados, receberiam o bastão do ministro da Casa Civil, Pedro Parente. Desde o encerramento do 1º turno, Lula tinha em mãos listas de nomes com sugestões para coordenar a transição, mas até a noite do domingo não havia conseguido debruçar-se com seus auxiliares para escolher uma delas. Entre os petistas de primeira escalão, como Luiz Gushiken, já havia na manhã da eleição a sensação de que era hora de arregaçar as mangas. ?Não estou emocionado. Estou preocupado com o governo?, dizia o dirigente do PT, que correu da sua seção eleitoral direto para a reunião de trabalho do Meliá, que não houve.

A equipe de transição não era o único tema pendente. Havia uma grande preocupação em preparar o texto com que o novo presidente se apresentaria à Nação ao meio-dia de segunda-feira. O conteúdo desse pronunciamento foi objeto de idas e vindas entre Lula e seus auxiliares, sobretudo o secretário-geral Luiz Dulci. Um grupo de petistas de alto calibre passou boa parte da noite de domingo para segunda limando os termos do discurso que Lula havia encomendado em detalhes. Outra questão que afligia os homens de Lula era o protocolo. Além de lidar com os detalhes da sua comunicação oficial com Fernando Henrique, Lula tinha de responder aos cumprimentos que chegavam da França, México, Alemanha e, sobretudo, dos Estados Unidos. ?O presidente dá os parabéns para o vencedor da eleição e espera ansiosamente para trabalhar com o Brasil?, disse na noite de domingo o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer. Ele adiantou que o presidente George W. Bush ligaria para Lula ainda no domingo para cumprimentá-lo. Não ligou, embora haja na presidência americana algo que a conselheira Condoleezza Rice definiu como ?medo de perder o Brasil? e vontade de agradar o novo presidente.

 

O próprio Lula, inaugurando o que deve ser uma era de grande informalidade presidencial, tratou da questão internacional na noite de domingo, quando fez seu improvisado discurso de vitória no Hotel Intercontinental, em São Paulo ? um dos três usados como QG pelo partido nesse final de campanha. Lula chegou ao hotel por volta das 23 horas acompanhado da mulher e de seu companheiro de chapa, José Alencar. Sorridente, comovido, fez um longo agradecimento aos eleitores e deu dois recados, um ao mundo e outro ao mercado financeiro. ?O Brasil pode jogar um papel extraordinário no continente americano?, disse ele. ?Podemos construir um mundo em que os povos cresçam do ponto de vista econômico e social.? Em seguida, falando sobre o mercado,
procurou tranqüilizar os agentes econômicos, sem parecer subserviente. ?Espero que o mercado respeite o Brasil da mesma maneira que o Brasil respeita o mercado?, afirmou. Usou a ocasião também para sinalizar que seu governo vai muito além das fronteiras do seu próprio partido: ?Cada homem e mulher de bem deste País, todos os empresários, todos os sindicalistas, todos os intelectuais, todos os trabalhadores rurais, todos devem se unir por um Brasil justo e fraterno.? Fugindo totalmente ao roteiro da ocasião, Lula deteve-se em um longo e rasgado elogio ao ?companheiro? José Alencar. Foi uma forma de reparar o mal-estar causado pela ausência do empresário mineiro na gravação do último programa de campanha, na quinta-feira 24. Um dia depois, Alencar ficou preso no trânsito do Rio de Janeiro e também não conseguiu chegar ao debate. ?Nem todo irmão é um companheiro, mas todo companheiro é um irmão?, disse Lula, que considera seu vice empresário a maior conquista da sua campanha.

Diante do presidente eleito havia uma platéia de cerca de 200 jornalistas, nacionais e estrangeiros. Eles se encontravam no Intercontinental desde a tarde de domingo, quando se concentraram ali os 150 representantes estrangeiros ? sobretudo de partidos de esquerda, muitos deles ex-guerrilheiros latinos ou sindicalistas americanos ? que vieram ver de perto ?la ola roja brasileña?, a chamada onda vermelha. Domingo Laino, principal líder da esquerda paraguaia, deu a dimensão do sentimento corrente: ?Lula tem tudo para ser o líder do Terceiro Mundo?. Quem ciceroneava pessoalmente os mais ilustres desse convidados era Marco Aurélio Garcia, secretário de relações internacionais do PT e candidato a chanceler de Lula. ?Guardo há 10 anos um charuto Davidoff de US$ 200 e um champanhe Don Pérignon para esta ocasião?, revelava Garcia. Havia entre os potentados do PT a explosão de uma alegria represada por quatro eleições consecutivas. Era uma outra forma da euforia que tomava as ruas do País desde o início da noite. Na praia do Leme, no Rio de Janeiro, na avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, na praça Castro Alves, em Salvador e, sobretudo, na avenida Paulista, em São Paulo, onde 120 mil pessoas produziam a maior aglomeração vista na cidade nos últimos anos ? a poucos metros do hotel Intercontinental. Quando Lula falou, as bandeiras se aquietaram e a música cessou. A rua onde pulsa o coração do capitalismo brasileiro ouvia em silêncio reverente cada palavra de Lula, que vinha direto do hotel pelos alto-falantes.

As bandeiras, camisas, broches e bonés que coloriam a Paulista foram fruto de uma verdadeira operação de guerra propagandística. Nos últimos cinco dias de campanha, só do comitê central saíram 5 mil camisas por dia. Em três semanas de segundo turno o PT distribuiu a mesma quantidade de material de todo o primeiro turno ? 250 mil camisas e 60 mil bonés. Quer dizer, aproximadamente, porque os organizadores perderam a conta. ?Nesta última semana o que importa não é a contabilidade, é ganhar?, contava, na manhã de domingo, Paulo Okamoto, responsável por toda a logística da campanha, que consumiu quase R$ 40 milhões. O profissionalismo da campanha, a mais bem organizada da história do partido, não impediu grandes reveses que dominaram a atenção da cúpula petista nas últimas horas do domingo. Ao mesmo tempo em que se celebrava Lula, havia profunda consternação pelas derrotas já esperadas em São Paulo e no Rio Grande do Sul e por aquelas que chegaram nos últimos votos. Foi assim no Ceará e no Distrito Federal. Na conta final, o PT entrou na eleição com três estados e saiu dela com três ? mas trocou o Rio Grande do Sul pelo Piauí. Foi assim, em meio a grandes alegrias e algumas decepções, que os cardeais petistas tomaram o palanque da Paulista no início da madrugada de segunda-feira. Ali estavam Zé Dirceu, Palocci, Luiz Marinho, José Genoino e José Alencar, entre outros. Era uma espécie de ministério em celebração. Poucas horas depois, os exaustos caciques do partido voltariam a se reunir em um dos hotéis usados pelo PT. Tentariam, finalmente, depois de toda a festa e de toda a emoção, encaminhar as decisões que não haviam conseguido tomar nos últimos dias.