30/11/2001 - 8:00
Há uma espécie de seita secreta no mundo dos negócios brasileiro. Seu templo funciona na nova Faria Lima, no ponto mais nobre do mundo financeiro de São Paulo. É lá, no número 3.729, sétimo andar, que trabalham os cardeais do GP, gestor de fundos que já investiu R$ 3 bilhões em empresas privadas brasileiras. Nessa atividade, segue um mandamento rígido: comprar companhias em dificuldade, saneá-las para depois revendê-las por um preço muito maior. É o chamado milagre da multiplicação do capital, um dos códigos sagrados da religião, criada pelo mitológico investidor Jorge Paulo Lemann e outros dois fiéis seguidores, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. Esses princípios estão preservados, mas na operação do dia-a-dia, o GP vive um momento de ebulição. Com 27 companhias em carteira, o grupo está promovendo mudanças radicais na sua gestão e decidiu ainda reorganizar toda sua carteira de investimentos. Jorge Paulo Lemann e Carlos Alberto Sicupira, que eram a cara do GP, deram lugar à jovem guarda no processo de tomada de decisões. Aos 34 anos, Antonio Bonchristiano assume o cotidiano na gestão dos fundos da empresa. Seu antecessor na função, Roberto Thompson, 44 anos, cuidará dos negócios pessoais dos três maiores sócios da GP: Lemann, Telles e Sicupira. Seu principal foco será a Ambev, empresa na qual já é um dos conselheiros. Além disso, o GP está exorcizando os investimentos malsucedidos de seu portfólio. O lance mais recente nessa ?limpeza? é a venda da rede fluminense de supermercados ABC, cujo controle foi transferido por apenas R$ 1 mil para o grupo Pão de Açúcar. Aquisições equivocadas, empréstimos contraídos em dólar e tropeços na gestão levaram a companhia a uma dívida de R$ 50 milhões. A saída foi passá-la à frente. Numa atitude rara e quase inédita no mercado financeiro, os comandantes do GP fazem um mea-culpa. ?É impossível acertar todas as tacadas e nós reconhecemos que, nesses casos, houve erros de gestão?, admite Thompson, em entrevista exclusiva à DINHEIRO. ?O que importa é a média de retorno para os investidores.?
Sigilo absoluto. O que não muda é o profundo apego do GP à discrição absoluta. Na torre de escritórios onde costumam meditar sobre estratégias de investimento, o GP é o único locatário que não revela a própria identidade. Quem passa pelo saguão de entrada do luxuoso edifício, descobre que no sexto andar está o Pactual. No oitavo, algumas divisões da Telefônica. No sétimo, bem, lá existe apenas a inscrição ?7º Pavimento?. Os poucos que conseguem subir ao templo dão logo de cara com uma imensa porta de vidro e uma única recepcionista. Na parede de fundo bege, não se vê um letreiro, uma marca, nada que identifique a GP.
É assim, nesse ambiente misterioso, que trabalham os apóstolos de Lemann, sempre vestidos num estilo casual, com roupas elegantes e em tom pastel. Dividem o mesmo ambiente, um amplo salão onde se distribuem as mesas dos sócios e de alguns executivos. Somente Lemann, Sicupira e, agora, Thompson têm direito a escritórios privativos. Todos eles são educadíssimos, quase suíços. Mas o que poderia indicar um tédio comparável ao das noites de Genebra deve ser registrado apenas como primeira impressão ? sobretudo neste momento de ajustes internos. O GP enfrenta uma disputa judicial com a Coteminas, que está incorporando a Artex, um dos primeiros investimentos do fundo. Lemann e sua turma esperavam receber pelo menos R$ 80 milhões em ações da empresa mineira. A Coteminas diz que a Artex vale zero. O embate nos tribunais pode durar anos. Muitas empresas de internet também estão sendo colocadas à venda. A Maxlog, concebida como um mercado eletrônico de fretes, e o site Elefante, uma agenda virtual para os internautas, já mudaram de donos. Até o final do ano, mais uma pontocom deve ser negociada. Além disso, as participações do GP no Ibest e no site de leilões Lokau devem ser transferidas à operadora de telefonia Brasil Telecom.
Ganho em dólar. Criada em 1993, a GP concluiu sua primeira captação de US$ 500 milhões um ano depois. Esse primeiro fundo, com prazo de oito anos, praticamente esgotou todo seu ciclo e rendeu 15% ao ano, em dólares, para os seus investidores. ?Foi muito melhor do que a bolsa, a taxa de juros do CDI ou qualquer outro investimento?, diz Thompson. O sucesso foi fruto de dois mandamentos do GP: investir em negócios com grande potencial de crescimento ou com espaço para mudanças de gestão e ganhos brutais de valor. Na primeira categoria, um dos exemplos mais marcantes foi o da Multicanal. Comprada em 1994 com uma carteira de apenas 30 mil assinantes, a empresa foi incorporada pela Globocabo e abriu seu capital em 1996 com escala muito maior. No negócio, o GP realizou um ganho, em dólar, de 40% ao ano. Na segunda categoria de investimentos, que envolve reestruturação gerencial, um caso de êxito foi o do Paes Mendonça, comprado em 1995 e vendido em 1997 para a rede Bompreço/Ahold, com retorno de três vezes e meia sobre o capital investido. ?São negócios arriscados por natureza em um ambiente de risco muito alto, como é o caso do Brasil?, afirma Thompson.
A segunda grande captação da GP foi feita em 1997. Ao todo, foram levantados US$ 800 milhões. Desse fundo, saíram os investimentos feitos na Telemar ? o GP é um dos quatro acionistas no bloco de controle da maior operadora nacional de telecomunicações ? e em várias empresas de Internet, como iG e Submarino. O desafio é tentar, pelo menos, repetir o desempenho de 15% em dólar obtido no primeiro fundo do GP. ?Acho que é possível até superar a meta?, disse Bonchristiano, em entrevista a DINHEIRO.
Bonchristiano é hoje o responsável pela gestão dos fundos. Não tem uma tarefa simples pela frente. O estouro da bolha das ações de Internet mudou radicalmente o panorama do setor. Quando decidiu investir no iG, a intenção óbvia do GP era criar o maior provedor Internet do Brasil em número de assinantes para logo depois vender as ações numa oferta pública, o chamado IPO. Mas como o mercado se retraiu drasticamente, depois do colapso da Nasdaq, a saída foi fechar um acordo com a Telemar, que injetou recursos no provedor. No Submarino, a intenção era semelhante, mas várias subsidiárias internacionais, como as de Portugal e do México, já foram fechadas. ?O iG já é rentável e o Submarino está perto do equilíbrio?, garante Bonchristiano. Ele mesmo reconhece que há problemas na carteira de internet do GP e diz que a ordem é não perder tempo com ativos que jamais serão rentáveis.
Bonchristiano e Thompson lembram que nesse segundo fundo também foram feitos investimentos de altíssimo retorno. Além da própria Telemar, há um pedaço da ALL, a antiga Malha Sul da Rede Ferroviária Federal, que vem registrando expansão de 20% ao ano. Outro exemplo de sucesso é a rede de supermercados Sé, que foi vendida ao grupo português Jerônimo da Veiga com retorno de 100% em oito meses. A construtora Gafisa, também presente no portfólio, é extremamente rentável. ?No geral, é uma carteira espetacular?,
diz Thompson.
Novos fundos. Ao mesmo tempo em que se livra dos ativos mais problemáticos, a GP também tem olhos voltados para o futuro. No ano passado, foi criado um fundo de R$ 125 milhões voltado à área tecnológica. Outros dois fundos, de R$ 120 milhões cada, serão destinados aos setores de energia elétrica e petróleo e gás. No campo da eletricidade, o GP recrutou o ex-presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio. Sua primeira tentativa foi a compra da Copel, a companhia paranaense de energia, mas o leilão de privatização fracassou. Outra alternativa em estudo é investir em novos projetos de geração, em associação com o grupo Brascan. Na área de petróleo e gás, as metas não são menos ambiciosas. ?Vamos explorar petróleo e, quem sabe, até comprar a Petrobras um dia?,
brinca Thompson.
Mesmo sendo uma brincadeira, não se deve subestimar a capacidade do GP. Poucas empresas tão enxutas conseguiram reunir tanto poder de fogo. Afinal, são mais de R$ 3 bilhões em investimentos, geridos por apenas nove sócios e seis executivos associados. Mesmo assim, essa equipe possui outros papéis a cumprir. Lemann e Sicupira dedicam-se aos investimentos pessoais na Ambev e nas Lojas Americanas. Marcel Telles é o principal executivo da Ambev. Outro sócio do GP, Fersen Lambranho, hoje preside o conselho de Administração da Telemar. Alexandre Behring comanda a ALL e é apontado como um possível sucessor por pessoas ligadas ao GP. No comando da gestão dos fundos, ficam Bonchristiano, Octavio Pereira Lopes e Nelson Rozental. Mas há uma renovação permanente e novos sócios podem ser admitidos. ?É como no Vaticano?, diz Roberto Thompson. ?Tem que esperar subir a fumacinha branca.? A brincadeira é uma alusão à eleição do Papa. No Vaticano, depois de vários dias reunidos, os cardeais soltam uma fumaça pela chaminé, num sinal de que o nome, enfim, foi escolhido.