08/04/2009 - 7:00

Presidente de olhos claros: a íris castanha de Lula mudou de cor na fotomontagem
Dizem que a memória do brasileiro é fraca. Ela é capaz de falhar, fazendo com que se esqueçam fatos importantes que fizeram parte da história recente do País. Foi assim com as inúmeras Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) há alguns anos e está sendo da mesma maneira com as dezenas e sucessivas operações da Polícia Federal. Talvez por essa característica ser tão presente em nosso traço, o presidente Lula tenha passado batido por importantes nomes das finanças mundiais. Sob o olhar desconfortável de Gordon Brown, o primeiro- ministro britânico, Lula, com seus olhos escuros iguais aos da maioria da miscigenada população brasileira, disse dias atrás que não conhecia nenhum banqueiro negro ou indígena. E que a crise financeira fora provocada por pessoas brancas de olhos azuis. É claro que ele buscava uma metáfora, tão comum em seus discursos, para se referir ao desencadeamento dos problemas econômicos globais que nasceram no Hemisfério Norte.

Desta vez, porém, Lula mostrou ser mal-informado. A crise não escolhe cor de pele ou de olhos e, mais que isso, tem entre seus protagonistas banqueiros das mais diversas raças e credos. Uma das primeiras estrelas de Wall Street a perder a cadeira de ouro dos bônus, por exemplo, foi justamente o primeiro afro-americano a chegar ao cargo mais alto de uma poderosa instituição financeira: Stanley O?Neal estava à frente da Merril Lynch quando os prejuízos de US$ 8 bilhões com a compra de títulos hipotecários podres provocaram sua queda em outubro de 2007.
De executivo mais bem pago do mercado, recebendo cerca de US$ 46 milhões anuais, O?Neal levou uma indenização de US$ 159 milhões antes de chegar ao board da Alcoa. A partir dali, a base da pirâmide de cartas foi desmanchada. A Fannie Mae, que ao lado da Freddie Mac é uma das principais instituições financeiras especializadas em hipotecas dos EUA, inundou o mercado com os títulos tóxicos. E era presidida por Franklin Raines, o primeiro afro-americano a comandar uma empresa listada na Fortune 500. Ele deixou a companhia. Até a Standard & Poors, agência de classificação de risco que não soube avaliar os reais perigos desses títulos, tem o indiano Deven Sharma no comando.

Também passou despercebido de Lula outro dos símbolos da antiga pujança econômica americana. O Citigroup, que acumulou US$ 28,5 bilhões de prejuízo por 15 meses consecutivos, precisou convocar o indiano Vikram Pandit para salvar o barco avariado no final de 2007. No conselho do banco ? e com voz bastante ativa hoje que o Citi se encontra no olho do furacão ? está o conceituadíssimo ex-CEO da Time Warner Richard Parsons. E a bandeira de cartões de crédito American Express, que traz a emblemática figura do centurião, tem como principal executivo Kenneth Chenault, que ocupa a posição desde 2001. Exemplos não faltam em bancos de investimento e gestoras financeiras. John Rogers, sócio-fundador do Ariel Investments, administra US$ 4,4 bilhões em ativos financeiros. Nenhum deles tem pele branca ou olhos azuis.
?A gente percebe que ele não entende nada do mercado financeiro?, afirma, em e-mail enviado à DINHEIRO Eveline Gerck, uma carioca que está há duas décadas nos EUA e é sócia da AP International, um banco de investimentos com sede em Nova York. Eveline, que faz a gestão de ativos estimados em US$ 1 bilhão, tem o sotaque e a pele cor de jambo tão própria do Brasil. ?Vai ver é o Brasil que não tem banqueiro negro. Se for isso, o tiro saiu pela culatra?.