01/11/2006 - 7:00
Pelo menos metade dos dois milhões de turistas que visitam o Panamá todos os anos têm um cartão-postal clássico: a imagem de uma longa fila de navios às portas das eclusas do canal marítimo mais conhecido do mundo. A fotografia, contudo, deve mudar dentro dos próximos oito anos. No último domingo 22, a população panamenha foi chamada a decidir pela construção de um terceiro jogo de eclusas, o que duplicaria a capacidade de transporte do canal, hoje em 330 milhões de toneladas por ano. Mais de 78% dos eleitores deram o aval para que o governo gaste, de início, US$ 5,2 bilhões. Trata-se, desde já, da maior concorrência singular de um terceiro jogo de eclusas, o que duplicaria a capacidade de transporte do canal, hoje em 330 milhões de toneladas por ano. Mais de 78% dos eleitores deram o aval para que o governo gaste, de início, US$ 5,2 bilhões. Trata-se, desde já, da maior concorrência singular de engenharia em andamento no planeta. A efeito de comparação, a construção do Eurotunel, que liga a Europa continental à Inglaterra, custou US$ 18 bilhões. ?O canal está no limite?, analisa Luis Caldas de Moura, embaixador do Brasil no Panamá. ?A obra é fundamental para o país.?
A convocação do presidente Martín Torrijos despertou o interesse das grandes corporações mundiais. Empresas como Siemens e Mitsubishi foram as primeiras a enviar seus representantes ao Panamá. Na terça-feira 24, foi a vez das americanas Caterpillar, Bechtel e General Electric. O gigantismo da obra também pode ser conferido pelo interesse dos grandes bancos. O Credit Suisse, por exemplo, encomendou um estudo para definir a viabilidade de financiamento. Descobriu que ganhará dinheiro até mesmo com a passagem dos navios. Na mesma onda seguiram o Citibank, o JP Morgan, o HSBC e o Bank of Tokyo. Acompanhando atentamente a movimentação, as empreiteiras brasileiras também se anteciparam ao chamado do governo panamenho. A mais adiantada é a Norberto Odebrecht. A empresa confirmou o interesse e destacou Marco Cruz, diretor superintendente na América Central, para acompanhar pessoalmente o projeto. Cruz vive na Cidade do Panamá há pouco mais de um ano, quando instalou o escritório da empreiteira para acompanhar as obras de irrigação na cidade e de uma hidrelétrica na República Dominicana. ?Começamos com êxito na região e não queremos que essa base fique restrita?, afirma Cruz. ?O projeto do canal é de extrema importância para nós.? Nos próximos dias, o governo deve publicar as primeiras informações técnicas sobre o projeto ? é o tempo que a Odebrecht pretende utilizar para enviar uma equipe que permanecerá no Panamá durante toda a concorrência. A Camargo Corrêa e a Andrade Gutierrez também se manifestaram positivamente. E não descartam a formação de um consórcio que viabilize uma vitória brasileira. ?As construtoras nacionais nunca serão players se não fizerem associações para se tornarem competitivas?, analisa Murillo Mendes, presidente da Mendes Júnior, que não pretende participar da obra. O BNDES não responde oficialmente sobre um possível financiamento. Contudo, fontes do banco afirmam que já foram iniciados estudos de viabilidade para a operação. ?Se eles apresentarem uma planilha factível, não teremos problema nenhum em atender à demanda?, confidencia um diretor do banco. ?Faz parte da estratégia do banco fomentar o desenvolvimento das empresas brasileiras, seja no Brasil, seja no Exterior.?
Inaugurado em 1914, o Canal do Panamá passou por um século de discussões até finalmente entrar em operação. A primeira tentativa partiu dos franceses, em 1880, que haviam construído o Canal de Suez, no Egito. Animados com o sucesso da empreitada anterior, acabaram vendo seus planos frustrados pela morte de 20 mil funcionários, provocada pela febre amarela e pelos desabamentos das encostas do canal, na tentativa de construir uma passagem no nível do mar. Vendo uma oportunidade estratégica, o presidente americano Theodore Roosevelt interveio. Financiou a revolução do Panamá, até então uma província da Colômbia, e ganhou em troca o controle da zona do canal. Desde então, tornou-se a principal rota de ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Cerca de 3% do fluxo mundial de mercadorias passam pelas eclusas panamenhas, principalmente em embarcações americanas, chinesas e japonesas. O Brasil é apenas o 19º maior usuário do canal, pois os navios da Petrobras e da Companhia Vale do Rio Doce são grandes demais para a atual largura do canal ? o que pode mudar. ?Vejo o Brasil e a Colômbia como os principais beneficiários da ampliação?, disse à DINHEIRO Alberto Alemán Zubieta, administrador do Canal do Panamá. ?Produtos como carvão, ferro e soja terão custos reduzidos e tornarão esses países mais competitivos no mercado mundial.?
Mas o interesse velado do governo Torrijos é a manutenção da estabilidade política. Após a retirada das tropas americanas que guardavam a zona do canal, as vendas no comércio local caíram 40% e a população passou a cobrar do presidente compensações econômicas. Associe-se a este quadro o anúncio do governo da Nicarágua de que vai construir um outro canal na região. O projeto do presidente Enrique Bolaños, no entanto, é ainda mais ousado. Ao longo de 12 anos, os nicaragüenses arcariam com uma obra de US$ 18 bilhões que competiria diretamente com o Canal do Panamá. Independentemente de qual seja o resultado das disputas políticas na América Central, as empresas é que deverão sair ganhando. ![]()