Aprimeira crise global a gente nunca esquece – especialmente quem tem o poder e a obrigação de manter a calma nos mercados financeiros. Os presidentes dos bancos centrais mais importantes do mundo, Ben Bernanke, da Reserva Federal americana (FED), e Jean-Claude Trichet, do Banco Central Europeu (BCE), têm enfrentado nos últimos dias a primeira grande turbulência de seus mandatos. Desde que as bolsas de valores começaram a derreter após a fatídica quinta-feira 9 de agosto os dois mostraram a que vieram. Os bombeiros da crise causada pelos empréstimos imobiliários de alto risco nos Estados Unidos (os nefastos subprime) comandaram uma brutal injeção de liquidez nos mercados interbancários de seus países. Não apagaram todo o fogo de uma vez, mas evitaram a quebra de grandes instituições com problemas de crédito. Serão vistos como heróis? Não necessariamente. Tudo vai depender de seus próximos passos.

Até a quinta-feira 16, os dois bancos centrais haviam despejado US$ 371 bilhões nos mercados. O mais agressivo foi Trichet. Tão logo o incêndio se espalhou nas bolsas européias por conta da suspensão dos saques em três fundos do maior banco da França, o BNP Paribas, o francês abriu o cofre. Convertido em dólares, o socorro total do BCE somou US$ 283 bilhões. Seu colega no FED também bombeou dinheiro no epicentro da crise. Há apenas 18 meses no cargo,herdado do mítico Alan Greenspan, Bernanke, 53 anos, comandou a injeção de US$ 88 bilhões em seis dias. No primeiro momento, eles podem ter evitado o pior: a explosão de uma crise bancária que poderia acabar em recessão mundial. O economista Ben Stein, articulista do jornal The New York Times, elogiou a reação de Bernanke. “Foi perfeita”, afirmou à DINHEIRO. “É uma vergonha que os especuladores não sejam tão responsáveis e sensíveis quanto o doutor Bernanke.” Ironias à parte, é aí que mora o perigo: ao salvar os inocentes, os bombeiros também tiraram do sufoco os culpados pelo incêndio, os bancos de investimento cujos fundos de hegde especularam pesadamente com os títulos americanos.

Quando a reação dos bancos centrais é exagerada e culmina na proteção de perdedores que sabiam do risco que estavam correndo, ocorre um fenômeno que os econom i s t a s chamam de risco moral.“Ao dar saída a quem tem problemas, o banco central incentiva ações irresponsáveis no futuro”explica a economista Zeina Latif, do Banco Real ABN Amro. “Não sei se foi o caso agora, mas houve exagerada alavancagem sobre os empréstimos subprime e não se pode premiar isso.” O risco moral será incentivado se a crise se agravar nas próximas semanas e afetar a economia real, obrigando Bernanke a cortar as taxas de juro – como querem, aliás, os especuladores. Se ele e Trichet forem condescendentes nas próximas semanas, podem perder suas medalhas de honra ao mérito.

US$371 BILHÕES foram despejados pelos bancos centrais dos Estados Unidos e da União Européia desde a fatídica quinta-feira 9