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Há um ano, os fabricantes de motos estavam eufóricos. O mercado brasileiro fechara 2008 com vendas de dois milhões de unidades, melhor resultado da história do setor. Mas a euforia virou decepção.
Projeções revelam que o segmento vai amargar em 2009 uma queda superior a 20% no número de motocicletas emplacadas. O surpreendente é que o desempenho pífio está na contramão da indústria automobilística, que vai registrar no final do ano uma alta de 8,5% nas vendas – e isso sobre um resultado, o de 2008, que já havia sido recorde. O que explica a freada brusca do mercado de motocicletas? Segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Moto-cicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), os principais culpados pelo mau desempenho do setor são os bancos. Com a crise, eles elevaram o grau de exigência para a concessão de crédito e isso afetou principalmente os consumidores das classes C e D, que têm maior dificuldade para comprovar renda. É justamente esse público que concentra a compra de veículos de duas rodas. Se antes era possível comprar uma moto zero-quilômetro em até 60 vezes sem entrada, hoje o prazo máximo não passa de 36 vezes, com entrada de 20% a 30%. “Até 2008, os financiamentos representavam cerca de 65% das vendas de motos no Brasil”, afirma Paulo Shuiti Takeuchi, presidente da Abraciclo. “Depois da crise, os bancos limitaram o crédito e este número baixou para 40%. Esta redução teve um impacto imediato no setor.”

A crise é tão séria que algumas montadoras fizeram algo impensável até pouco tempo atrás: paralisaram a produção. É o caso da Honda, líder de mercado no País, que interrompeu suas atividades na Zona Franca de Manaus durante uma semana em setembro e por quatro dias em novembro. O curioso é que a gigante japonesa teve um desempenho um pouco melhor do que o do mercado como um todo. O 1,2 milhão de motos vendidas representam uma queda de 12% sobre a performance do ano passado. “Apesar da queda nas vendas, podemos dizer que o ano foi produtivo”, diz Roberto Akiyama, diretor comercial da Honda. Ele, de fato, tem o que comemorar. Com o pior desempenho da concorrência, a montadora aumentou sua participação de mercado de 66% em 2008 para 75% em 2009. “Mesmo em meio à crise, mantivemos todos os lançamentos previstos e ainda adequamos nossos modelos às novas leis de emissões”, afirma Akiyama.

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Em 2009, a montadora japonesa lançou 13 novos modelos, inclusive a primeira moto com motor flex do País. Para 2010, os planos são ousados. A meta é voltar a produzir 1,3 milhão de unidades e retomar o patamar de 2008. “Queremos crescer 12% e para isso contamos com a retomada do crédito”, afirma o executivo.
“Nossas lojas continuam com preços bons, mas o nível de aprovação de crédito caiu. De cada dez propostas enviadas, costumávamos aprovar de cinco a seis. Hoje, com muito esforço aprovamos três fichas.”

Principal rival da Honda, a Sundown já vê sinais de recuperação no mercado. “As perspectivas para 2010 já são bem melhores, pois os bancos estão vendo que o problema da inadimplência não é tão grande quanto imaginavam”, diz Walther Biselli, presidente da Sundown Motos. “Além disso, as fábricas estão fazendo acordos com outras financeiras, garantindo inclusive a recompra dos bens, se necessário.” Com 48 mil unidades vendidas em 2009, o que representa uma expressiva queda de 38,8% nas vendas em relação a 2008, a Sundown foi uma das empresas mais prejudicadas pela redução do crédito. Isso tem uma explicação. As motos da Sundown são mais baratas que as da Honda, o que faz com que seus produtos tenham maior penetração junto ao público de baixa renda – o mais afetado pela escassez de crédito. “Como a queda de 2009 foi muito brusca, temos certeza de que vamos crescer em 2010”, afirma Biselli. Shuiti Takeuchi, da Abraciclo, também se mostra otimista para o ano que vem. Segundo ele, com a chegada de novos bancos financiadores e do crescimento do PIB no Brasil, o mercado deverá voltar ao normal gradativamente. “Projetamos um crescimento de 15% para 2010, chegando à marca de 1,8 milhão de unidades vendidas”, afirma o executivo.