07/08/2002 - 7:00
Os dinossauros não foram extintos. Pelo menos os espécimes abrigados em grandes corporações internacionais sobreviveram e estão recuperando o prestígio e o poder que haviam perdido com a ascensão de executivos nascidos com a onda da internet. Agora, a relação de forças mudou e quem está sucumbindo à revanche da velha guarda são os herdeiros da bolha tecnológica. Nos Estados Unidos já perderam seus empregos os presidentes de várias empresas que apostaram alto na revolução tecnológica. Só em julho, três casos chamaram atenção. Os presidentes da Vivendi, Jean-Marie Messier, da Bertelsmann, Thomas Middelhoff, e o vice-presidente do grupo AOL Time Warner, Robert Pittman, foram despedidos pelos acionistas. ?Estou saindo para restaurar a paz e a calma na Vivendi?, afirmou Messier em comunicado distribuído para todos os funcionários do grupo francês de mídia.
Messier foi o primeiro a sair. Ele entrou
em choque com outros diretores porque insistia em continuar apostando na internet e ainda acreditava que a tecnologia
estava no futuro de qualquer negócio de uma companhia de mídia. O executivo avaliava que a rede era a ferramenta mais adequada na distribuição dos produtos da empresa, que incluem tevê a cabo e o site de músicas MP3.com. A compra do MP3.com foi o problema que Messier nunca conseguiu equacionar na Vivendi. Pela empresa cujo único patrimônio eram as músicas que seriam vendidas aos usuários da rede, a Vivendi pagou US$ 372 milhões. Messier também foi acusado nos seus últimos momentos de encobrir de maneira irregular alguns números do balanço da companhia. Essa foi a deixa para a velha guarda, os dinossauros, reassumir o controle da situação. ?Essas quedas são conseqüência da soma de executivos que pensaram com o ego e acreditaram que as respostas chegariam no tempo que eles desejavam?, afirma o consultor Daniel Domeneghetti, da E-Consulting.
O que aconteceu na Vivendi se repetia com freqüência em outras empresas do setor nos últimos dois anos. A idéia de que a internet revolucionaria o mundo dos negócios, o que realmente aconteceu sob certos aspectos, contaminou de pequenas a grandes companhias. O executivo americano Robert Pittman chegou com essa visão ao posto de segundo homem mais importante do conglomerado AOL Time Warner, após a fusão dos dois grupos há dois anos. Pittman se tornou um dos principais personagens desse novo paradigma empresarial ao lado de Steve Case, fundador da AOL.
Os sucessivos resultados da companhia mostraram-se abaixo
das expectativas dos acionistas. Como Case não poderia
perder o emprego porque ele era um dos donos do negócio, Pittman foi o escolhido. ?A volta dos dinossauros significa o retorno das práticas sensatas que transformaram a indústria da mídia no sucesso que foi no passado?, afirma Monica Ball, vice-presidente da Merril Lynch International.
A lista de grandes executivos desempregados foi completada na semana passada pelo ex-presidente da alemã Bertelsmann, Thomas Middelhoff. Ele saiu por pressão da família que ainda controla a companhia e tem negócios que vão da editora Random House à gravadora BMG. Middelhoff chegou ao cargo amparado na sua visão arrojada da internet. Foi essa avaliação que o levou a comprar o polêmico serviço de distribuição de músicas Napster. O ex-presidente queria transformar a Bertelsmann em um império de mídia global a partir da pequena cidade alemã de Gutersloh, onde fica a sede da empresa criada em 1835. Por enquanto, esse sonho está sendo arquivado pelos seus sucessores. ?Os dinossauros descobriram que não podem ignorar os avanços tecnológicos e daqui para frente ficarão mais atentos para não serem engolidos por outra onda tecnológica?, afirma Monica Ball. A lição foi aprendida pelos dinossauros e agora estão de volta.