23/04/2015 - 16:07
A divulgação do balanço da Petrobras também foi uma oportunidade para a diretoria martelar seus novos lemas: cortar investimentos e reduzir dívidas. Esses objetivos foram repetidos à exaustão, tanto no encontro com jornalistas, na noite de quarta-feira 23, quanto na teleconferência com analistas, na manhã desta quinta-feira 24. Por trás do financês e do tecnicês dos diretores, está um raciocínio simples: a Petrobras ainda está com a corda no pescoço, administrando o caixa na ponta dos dedos para não parar.
O verdadeiro combustível de qualquer empresa é o dinheiro que possui no caixa. É com ele que são pagos os fornecedores, funcionários, bancos e acionistas. E, nesse ponto, a Petrobras está rodando apenas com parte do tanque cheio. A petroleira entrou em 2015 com US$ 26 bilhões. Não é uma fábula de dinheiro, quando se considera que precisará pagar US$ 18 bilhões em juros e amortizações, além de cumprir um plano de investimentos de US$ 29 bilhões. Somente esses compromissos somam US$ 47 bilhões, quase o dobro do que havia na conta corrente da estatal, no início de janeiro.
Em 2016, a vida da Petrobras também não será fácil. A empresa esperar iniciar o ano que vem com US$ 20 bilhões em caixa – sim, menos “combustível” do que tinha em janeiro. As informações já divulgadas para 2016 mostram que a Petrobras planeja investir US$ 25 bilhões. Logo de saída, já é mais do que terá no cofre. Além disso, os pagamentos de juros e dívidas previstos para o mesmo ano são de R$ 49,1 bilhões. Como a empresa trabalha com um câmbio médio de R$ 3,30 por dólar, para 2016, a quantia corresponde a quase US$ 15 bilhões. Assim, somente com investimentos e dívidas, a Petrobras já tem compromissos de cerca de US$ 40 bilhões para o ano que vem.
Na reserva
Os números, até aqui, mostram que apenas a contenção de despesas e investimentos, neste e no próximo ano, não serão suficientes para equilibrar as contas. Por isso, a Petrobras vai fazer o mesmo que muitas pessoas, quando estouram o orçamento familiar: vender bens, renegociar dívidas e pedir dinheiro emprestado.
No jargão corporativo, o desinvestimento, isto é, a venda de ativos ou o cancelamento de projetos em andamento, acrescentará US$ 3 bilhões ao caixa da companhia neste ano, seja porque a venda renderá dinheiro vivo, seja porque a suspensão de projetos reduzirá a necessidade de desembolsos. Para o próximo ano, a meta de desinvestimento é ainda maior: US$ 10 bilhões. Ainda não se sabe, ao certo, que ativos serão postos à venda. A única certeza de Aldemir Bendine, presidente da companhia, é que ativos já em operação no pré-sal não serão vendidos. Se projetos em instalação nessas bacias poderão passar para outros donos ou, pelo menos, conseguir sócios para dividir investimentos, é outra coisa. A renegociação de dívidas é outra estratégia da Petrobras. Somente neste ano, US$ 1 bilhão serão repactuados com os credores.
Mas o principal alívio virá da captação de novos recursos. Para 2015, a empresa afirma ter levantado US$ 13 bilhões. Para 2016, ainda não se sabe. “Este ano está totalmente resolvido; agora, temos de olhar para 2016”, afirmou Ivan Monteiro, diretor de finanças e relações com investidores. Uma alternativa é a emissão de debêntures ou algum outro papel de renda fixa. O que a diretoria não quer, antes de tudo, é alimentar especulações de que um novo aumento de capital, por meio da emissão de ações, será feito. “Não há nenhuma discussão sobre isso”, disse Monteiro a analistas, nesta quinta-feira 23.
Fiado não
O maior dilema de uma nova emissão de ações seria a diluição dos atuais acionistas, o que poderia desvalorizar os papeis e afugentar investidores, em um momento em que a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, e as ingerências políticas já corroeram metade do valor de mercado da companhia.
O problema é que ninguém empresta dinheiro para quem já está muito endividado. Se isso é verdade para pessoas comuns, é ainda mais considerado, no caso de empresas. Para manter as operações e investimentos, a Petrobras faz cada vez mais dívidas. A dívida total da companhia subiu de R$ 267,8 bilhões para R$ 351 bilhões entre 2013 e 2014. Já a dívida líquida (que desconta o que há em caixa) subiu de R$ 94,6 bilhões para R$ 106,2 bilhões. Em dezembro, a empresa levaria quase cinco anos para quitar todos seus compromissos, consumindo toda sua geração de caixa. Um ano antes, gastaria 3,5 anos. Na média, as maiores petroleiras do mundo estão se preservando, com relações de dívida líquida sobre ebitda de 0,4 a 1 vez.
A preocupação dos investidores é justamente essa: dar dinheiro à Petrobras pode ser jogar mais gasolina no incêndio. Sem um plano forte de contenção de gastos, a alavancagem da companhia – o jargão corporativo para o nível de suas dívidas – tende a aumentar. “O que aconteceu é passado; o novo plano de negócios focará na desalavancagem da empresa”, afirmou Monteiro aos analistas, referindo-se ao documento que deve ser divulgado dentro de um mês, com as ações para os próximos anos. O plano de negócios também mostrará se a Petrobras finalmente aprendeu com seus erros – e se não os cometerá novamente.
