18/01/2002 - 8:00
No dia 3 de janeiro deste ano, o executivo Eduardo Mangabeira Albernaz interrompeu suas férias em Angra dos Reis para voltar a São Paulo e assinar alguns papéis. O dia seguinte foi inteiramente dedicado a essa tarefa. Mas desta vez as centenas de assinaturas que Albernaz estampou em contratos e promissórias não faziam parte da burocracia típica do mundo corporativo. Ao encerrar a sessão de autógrafos, Albernaz fechara o maior negócio de sua carreira e se tornava o principal acionista da empresa que ele presidia há dois anos, a Cotia Trading. Ele e cinco outros diretores arremataram 77,5% do capital da Cotia, antes nas mãos da família do ex-banqueiro Pedro Conde e de outros acionistas minoritários. O valor do negócio é guardado a sete chaves, mas a estimativa do mercado é que tenha girado em torno de R$ 80 milhões. A operação de compra de uma companhia pelos próprios executivos, conhecida como management buy out, foi montada pelo Banco Pactual. ?Foi o final feliz?, diz Albernaz.
Felicíssimo, pode-se dizer. Os novos reis da exportação tornaram-se donos da maior trading do País, dona de um faturamento de R$ 1,4 bilhão, subsidiárias nos Estados Unidos e na Argentina e uma associação com a americana Penske, a Cotia-Penske, dedicada a serviços de logística. Aos 44 anos, formado em Economia pela USP, o paulista Albernaz manterá o comando das operações da Cotia. Seus sócios também não mudarão de função. ?Continuaremos todos com a mão na massa?, diz ele. Albernaz começou a se transformar de empregado em empresário quando os Conde, donos de 58% do capital, deram sinais de que pretendiam passar o negócio à frente. Nos últimos anos, os herdeiros de Pedro envolveram-se em várias atividades. Seu filho, Francisco, ficou com a missão de acompanhar a Cotia, sem, contudo, participar da gestão. ?Já tínhamos participações pequenas e éramos candidatos naturais?, diz Albernaz. As conversas começaram em setembro de 2001. Dos seis executivos, apenas Albernaz e Fernando Menge, vice-presidente financeiro, envolveram-se diretamente na negociação. Os demais tocavam o dia-a-dia da companhia. Para evitar boatos na sede da Cotia, as reuniões aconteciam no Pactual ou nos escritórios dos advogados. Uma parte do valor da compra foi paga à vista, com financiamento do banco. Os executivos deram como garantia as próprias ações. O restante foi parcelado em um ano. Os compromissos financeiros com os Conde e o Pactual serão honrados com a geração de caixa e os resultados da companhia.
Contrato. A empresa vai gerar dinheiro suficiente para isso? ?Traçamos um cenário conservador para os cálculos?, diz Albernaz. Nas estimativas dos novos donos, o faturamento neste ano repetirá o de 2001, marcado por duros golpes no comércio exterior, como a crise na Argentina e os atentados de 11 de setembro. O lucro, porém, será ?muito melhor?, nas palavras de Albernaz, do que os R$ 7,5 milhões do ano passado. Primeiro porque um contrato de US$ 45 milhões para a exportação de máquinas agrícolas para a Venezuela será cumprido ao longo de 2002. Segundo: diversos investimentos e custos, que consumiram R$ 11 milhões, não se repetirão neste ano. Só no enxugamento das operações na Argentina, a Cotia queimou R$ 5 milhões. Lá o número de funcionários caiu de 90 para 12 e dois armazéns foram fechados. Os esforços dos novos donos agora estarão concentrados em aumentar a participação das exportações na carteira de negócios da Cotia. Hoje, as vendas para o mercado externo mal chegam a 50% do faturamento. Houve tempo em que atingiram 90%. ?Queremos aproveitar a retomada das exportações brasileiras?, diz Albernaz. Não se poderia esperar outros planos dos novos reis da exportação.