As leis da Física ensinam que, quanto maior um corpo, maior a dificuldade para colocá-lo em movimento. Uma vez em ação, o grande obstáculo é fazê-lo parar. Depois de 88 anos no Brasil sem fazer nenhuma grande aquisição, o Citibank, o gigante mundial do setor financeiro, prepara grandes movimentos no País. O banco quer consolidar sua própria administradora de cartões de crédito, abrir uma financeira e crescer no mercado de comércio eletrônico. Nem mesmo a guerra no Iraque irá alterar os objetivos da instituição. ?Após quase 100 anos enfrentando coisa muito pior que essa guerra, nada deverá afetar nossos planos?, diz o uruguaio Gustavo Marin, presidente do Citibank no País. ?Temos o couro grosso.?

A instituição comandada por Marin iniciou seus planos pela
área de cartões. Até junho, todos os plásticos com a marca
Citibank deixarão a Credicard, uma empresa da qual o Citi é sócio, migrando para a administradora própria. O segundo passo foi dado na web. Na primeira quinzena de março, o Citibank passou a ter 30% do Mercado Eletrônico, o maior site de e-commerce do País, com transações que somaram R$ 3 bilhões no ano passado. Segundo o presidente da companhia, Eduardo Nader, as 35 mil empresas cadastradas no sistema realizam cerca de 24 mil transações por dia. É aí que está o interesse do banco. ?O Citi está de olho no mercado virtual como mais um local para vender seus produtos, oferecer crédito e conquistar novos clientes?, observa Nader. Marin comprova a tese: ?Apostamos no e-business e somos um dos poucos que ainda não jogaram a toalha.?

Mas a grande tacada do Citi é a criação de uma financeira. Com a operação, o banco pretende avançar no lucrativo negócio de crédito no Brasil, que movimentou R$ 377,8 bilhões no ano passado. Segundo dados da ABM Consulting, o crédito pessoal responde por 32% do total concedido para pessoa física no País. Enquanto os bancos cobram uma taxa de juros média de 4,4% ao mês no crédito direto ao consumidor, as financeiras têm juros mensais de 12,64%. ?Com essas taxas, o retorno de uma financeira é tão grande que amortiza qualquer risco de insucesso?, avalia Miguel de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade.

De olho nesse mercado, o Citibank pretende criar a sua financeira ainda no primeiro semestre deste ano. Segundo Marin, o banco
vai começar a operação do zero. Ele, entretanto, não descarta
uma aquisição futura. ?Deveremos abrir uma operação própria
para conhecer o mercado e só depois analisar uma possível
compra?, afirma o executivo. Na avaliação do analista de bancos
da ABM Consulting, Alan Marinovic, a estratégia do Citi é aumentar sua participação no financiamento de pessoas físicas, que tem
juros mais elevado. Mesmo reconhecendo o know-how do
Citibank, o analista alerta para a necessidade de tropicalização
da operação. ?É fundamental ter escala?, diz Marinovic. ?O Citi vai ter de fazer um plano para entrar no mercado de massa, que é um público que ele não conhece.?

Recursos para as operações não faltam. Em 2002 o Citibank
registrou lucro recorde de R$ 1,63 bilhão no País, o equivalente a uma rentabilidade de 44% sobre o patrimônio líquido, ajudado pela desvalorização cambial. Com tanto dinheiro em caixa, Marin não descarta uma histórica aquisição, algo aguardado há tempos pelo mercado. ?Queremos crescer no Brasil e estamos sempre olhando as boas oportunidades de negócio?, diz o executivo. ?Mas enquanto essas oportunidades não aparecem, vamos crescendo organicamente.? Uma prova de que outra lei da Física ? a inércia ? também vale para o mundo dos negócios.