A primeira-dama da República, dona Maria Letícia da Silva, parece ter adotado hábitos peculiares no Palácio do Planalto. Há várias semanas já se discute abertamente em Brasília de que modo ela paga suas despesas de caráter pessoal. Um de seus fornecedores freqüentes, o cabeleireiro Wanderley Nunes, dono do Studio W, o salão mais caro de São Paulo, revelou que oferece, a título de cortesia, todos os cortes de cabelo de dona Marisa. Custam cerca de 250 reais cada. ?Veja se eu vou cobrar algo da primeira-dama?, disse Wanderley à DINHEIRO. O coiffeur também revelou que dá de presente toda a tintura usada por ela. Nesta semana, um novo fornecedor veio a público. Na coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o estilista Ivan Aguilar revelou que já ofereceu presentes avaliados em pelo menos R$ 30 mil à dona Marisa. Foram terninhos, vestidos e tailleurs. ?Presta atenção: você está dando uma roupa para o presidente e para dona Marisa; neste caso, você não cobra?, disse Aguilar, com total naturalidade.

O problema é que não convém a governantes, assim como a suas esposas, receber presentes caros. É algo que não combina com a liturgia do cargo. Além disso, de acordo com as normas da Comissão de Ética Pública, um servidor público pode receber presentes que custem até R$ 100. Acima desse valor, recomenda-se a devolução ou a doação a algum programa de caridade. Cada vestido assinado por Aguilar, segundo ele mesmo, custa entre R$ 800 e R$ 1,2 mil e foram 27 tailleurs e 15 ternos, por sua conta. Dona Marisa parece ter dificuldades em lidar com a questão dos presentes. Quando visitou os Emirados Árabes Unidos, no fim de 2003, a primeira-dama foi presenteada pela família real com um conjunto de jóias caríssimas, cravejadas de brilhantes. Só depois de muito tempo dona Marisa concordou em doar as jóias ao Fome Zero. O que também impressiona no caso recente é o fato de os dois fornecedores da primeira dama, o coiffeur Wanderley e o estilista Aguilar, terem mudado suas versões. Ambos antes sustentavam que tinham sido pagos ? Wanderley em dinheiro e Aguilar em cheques assinados pelo próprio presidente Lula. Mas depois que o Tribunal de Contas da União começou a investigar o uso dos cartões corporativos da Presidência da República, bem como os milionários saques em dinheiro, os dois vestiram a roupa do empresário generoso. ?Isso não me custa muito?, diz Wanderley. ?Ela vem aqui uma vez a cada dois meses?, afirma. O caso de Aguilar é mais grave ? e não apenas porque os seus serviços de alfaiate custam mais. ?Fiz isso por marketing?, diz. Ou seja: um costureiro transformou a primeira-dama da República em sua garota-propaganda.

Também se comenta que o hábito de dona Marisa, que chegou a plantar um canteiro de flores no Palácio do Alvorada com uma estrela do PT, se estenda aos filhos e noras, que seriam fregueses assíduos e especiais do Studio W. Chegariam ao salão em Ômegas blindados, acompanhados de seguranças. Wanderley, porém, nega. ?Mentira, mentira, mentira?, diz. Não custa lembrar que um dos filhos do presidente, Luís Cláudio, levou no início deste ano vários amigos para passar férias no Palácio do Alvorada em aviões da Força Aérea Brasileira. Ficaram 15 dias na residência oficial. Além disso, o próprio presidente lançou um projeto de reforma do Palácio do Alvorada, patrocinado por várias empresas privadas. Talvez não estejam percebendo que empresários não costumam dar nada de graça. Durante o governo Collor, as ligações do tesoureiro Paulo César Farias com a Casa da Dinda começaram a ser investigadas justamente quando PC disse a célebre frase sobre a primeira-dama Rosane: ?Madame está gastando demais?.