09/04/2003 - 7:00
A anedota está sendo contada nos círculos da direita americana. Um republicano linha dura diz ao correligionário: ?Sabe, nós ainda não deveríamos estar assim tão orgulhosos de George W. Bush?. Quando o outro, espantado, pergunta por que, ouve a explicação. ?Se ele fosse homem de verdade entraria na Síria.? Apenas piada? Talvez não. Na semana passada, sem aviso prévio, o secretário de Estado Colin Powell acusou a Síria de apoiar o terrorismo internacional e o Irã de tentar construir armas nucleares. Ficou subitamente claro que o regime militar de Damasco havia entrado na alça de mira dos EUA, em companhia da teocracia popular do Irã.
Dias antes o secretário Donald Ramsfeld já acusara a Síria, uma economia estatal com 20% de desemprego, de estar repassando material militar aos iraquianos. Avisara que o país ?teria de responder por isso?. Quem conhece a diplomacia da região teve a impressão de que os EUA preparam terreno para escolher seu próximo alvo. ?Síria, Líbia, Líbano, Sudão e até mesmo Arábia Saudita podem ser atacados pelos EUA?, disse ao editor Marco Damiani, em Brasília, um influente diplomata árabe. ?Não podemos dizer nada que atraia atenção ou nos ponha na lista.? Na semana passada, com o horror da guerra chegando aos subúrbios de Bagdá, a discussão em torno do próximo alvo motivou um pronunciamento de Jack Straw, ministro das Relações Exteriores britânico: ?Isso não é verdade. De qualquer forma, nós não teríamos nada a ver com uma atitude como essa.? Os americanos, sintomaticamente, não disseram nada. Não é novidade que Washington gostaria de repintar a paisagem política do Oriente Médio, onde se concentra 70% das reservas petrolíferas mundiais. Na lógica de gente como Rumsfeld, a guerra do Iraque é apenas o primeiro passo na mudança de regimes locais. Eles passariam de hostis a pró-americanos pela força das armas ou da intimidação. As lideranças árabes, escaldadas por 100 anos de colonialismo, perceberam a manobra e já se mexeram. No dia seguinte à declaração de Powell, o ministro iraniano das Relações Exteriores voou a Damasco. Os dois países produziram uma polida declaração de repúdio à agressão americana.
Mais tarde, o presidente sírio Bashar
al-Assad pôs as cartas na mesa. ?Os iraquianos estão mostrando como se pode defender a própria terra com coragem, mesmo sob uma força militar superior?, advertiu. A disposição no Irã é idêntica. A elite local, que comanda uma próspera economia petroleira de US$ 450 bilhões, que cresce 5% ao ano, divide-se entre religiosos tradicionalistas e os modernizadores do presidente Muhamad Khatami. Mas os dois lados se unem no sentimento antiimperialista. ?Os ataques verbais contra o Irã são uma forma de esconder as derrotas americanas no Iraque?, ironizou o porta-voz do governo. Embora invistam na diplomacia, os líderes árabes sabem que sua melhor defesa no momento é a coragem dos iraquianos. Se Bagdá cair em pouco tempo, a porta da aventura estará aberta para Bush e seus falcões. E qualquer governo árabe que não se curve a eles pode ser o próximo alvo.