01/03/2026 - 11:52
Depois de 36 anos no poder, líder supremo do Irã está morto. Mas o regime dos aiatolás não dá sinais de que irá se render, e um conselho provisório mantém governo e aparato militar de pé.A TV estatal confirmou a morte do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, cerca de doze horas depois de dezenas de bombas caírem sobre o complexo onde ele vivia e trabalhava. Localizado no centro de Teerã, o Beit-e Rahbari (Casa da Liderança) foi um dos primeiros alvos dos ataques militares de Estados Unidos e Israel contra o Irã, deflagrados neste sábado (28/2).
O aiatolá de 86 anos, que várias vezes expressou um desejo de martírio em discursos públicos, estava em seu complexo residencial e de trabalho com sua família mesmo diante da alta probabilidade de um ataque.
+Irã desafia Trump e promete vingar morte de Khamenei
+Voos do Brasil para países do Oriente Médio são suspensos após início do conflito no Irã
Diversos vídeos que circulam na internet mostram pessoas festejando a morte do líder religioso e político do Irã, após 36 anos na liderança. As imagens são reais, mas não se sabe se, e em que medida, elas podem ser vistas pela população iraniana, já que o acesso à internet no país foi praticamente cortado desde o início dos bombardeios.
Em contraste com esses vídeos, a TV estatal exibe imagens de multidões de apoiadores da República Islâmica em todo o país lamentando a morte de Khamenei, vestindo preto e carregando imagens do líder supremo morto. O regime decretou luto oficial de 40 dias e feriado nacional de sete dias.
Regime promete retaliar
O ataque de sábado ocorreu durante uma reunião do Conselho de Defesa e também matou outras figuras-chaves do regime iraniano, segundo a TV estatal. Além de Khamenei foram mortos o chefe da Guarda Revolucionária, Mohammad Pakpour; o ministro da Defesa, Aziz Nasirzadeh; o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Abdolrahim Mousavi; e o conselheiro de segurança do líder supremo, Ali Shamkhani.
Reagindo ao ataque, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, anunciou a criação de um conselho de liderança provisório, responsável por supervisionar a transição política e governar interinamente o país.
À TV estatal, Larijani disse que o Irã não deseja guerra com os países vizinhos, mas que continuará a atacar bases militares dos Estados Unidos localizadas em países do Oriente Médio.
O conselho interino já foi formado e é integrado pelo presidente do Irã, Massoud Pezeshkian, o chefe do judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, e o aiatolá Alireza Arafi. Pezeshkian afirmou que a morte de Khamenei foi uma “declaração de guerra contra os muçulmanos” e prometeu vingança.
Guarda Revolucionária promete vingança
A Guarda Revolucionária também prometeu vingança e assegurou a continuidade da Revolução Islâmica. “Em breve começarão as maiores operações militares da história das Forças Armadas iranianas contra Israel e contra bases dos EUA na região”, afirmou a força de elite.
Especialistas ouvidos pela DW avaliam que a morte de Khamenei não deve alterar o curso da guerra no curto prazo.
“Na minha avaliação, a morte de figuras individuais da liderança não leva imediatamente ao rápido colapso do sistema”, afirma o especialista em Oriente Médio Farzan Sabet, do Global Governance Centre do Geneva Graduate Institute.
Sabet, que estuda sanções econômicas e segurança na região, lembra que o Irã adquiriu alguma experiência com o conflito em junho de 2025, quando Estados Unidos e Israel bombardearam instalações nucleares do país por 12 dias.
“Do ponto de vista militar e de segurança, o Irã parece estar preparado para uma possível escalada há cerca de um mês e meio”, diz. “Por isso, unidades militares menores em todo o país são capazes de continuar operações mesmo sem ordens diretas do comando central, baseando-se em planos de missão previamente elaborados.”
Risco de escalada regional do conflito
A República Islâmica está executando uma estratégia anunciada já antes dos ataques deste fim de semana: a expansão do conflito para uma guerra regional ampla. O Irã não atacou apenas bases militares dos EUA na região, como no Catar e no Bahrein, mas também mirou a infraestrutura petrolífera no leste da Arábia Saudita, assim como centros urbanos densamente povoados, como Dubai.
O professor de estudos do Oriente Médio Arman Mahmoudian, da Universidade do Sul da Flórida, afirma que, embora não seja realista o Irã poder demonstrar superioridade militar sobre as forças americanas ou israelenses, o país poderia acirrar o conflito a ponto de obrigar o lado militarmente superior a encerrá‑lo.
“O objetivo é maximizar o custo da guerra, desestabilizando toda a região”, explica, acrescentando que a situação pode se agravar ainda mais.
A estratégia iraniana de desestabilização também poderia incluir uma possível interrupção do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz– como já ameaçado pela Guarda Revolucionária no sábado – ou a ativação de milícias aliadas, como o Hashd al-Shaabi no Iraque ou os rebeldes houthis no Iêmen.
Embora os custos da guerra possam ser muito altos para o Irã devido à assimetria militar entre os dois lados, o país dispõe de uma resiliência estratégica maior, afirma a especialista em relações internacionais Sara Kermanian, da Universidade de Sussex. “A República Islâmica está lutando por sua sobrevivência e, por ser um sistema não democrático, enfrenta uma pressão interna menor em relação a perdas humanas ou financeiras”, diz Kermanian.
“Se o Irã atravessar o conflito sem um colapso interno de poder, isso já poderá ser considerado um sucesso estratégico. Os EUA, por outro lado, podem enfrentar uma pressão interna maior se a guerra se acirrar”, pontua a pesquisadora.
Nessas condições, a questão central passa a ser quem consegue suportar a pressão por mais tempo. Não há dúvida de que Israel e os EUA são militarmente superiores, mas isso desempenha um papel apenas secundário quando se trata de avaliar quais custos cada lado está disposto a aceitar para manter a guerra, afirma Kermanian.
regime iraniano, afinal, luta por sua própria existência e já demonstrou, com a repressão aos recentes protestos , que está disposto a fazer a população pagar qualquer preço.
O presidente dos EUA. Donald Trump, advertiu o Irã contra retaliações. “O Irã acaba de declarar que vai atacar com muita força hoje, com mais força do que jamais atacou”, escreveu Trump nas redes sociais. “É melhor que não façam isso, pois, se fizerem, nós os atingiremos com uma força nunca vista!”
Se, após um possível acirramento do conflito, ainda haverá espaço para negociações entre os Estados Unidos e atores influentes dentro do sistema político iraniano, é algo que fica em aberto.
