18/05/2005 - 7:00
A ex-prefeita Marta Suplicy está sendo levada ao paredão da Justiça. Na segunda-feira 9, usando os rigores da Lei de Responsabilidade Fiscal, três promotores de São Paulo pediram à Fazenda Pública a devolução, por Marta e seis de seus ex-secretários, dos R$ 590 milhões registrados como déficit orçamentário na Prefeitura de São Paulo em 2003. Eles afirmam que a ex-prefeita e sua equipe econômica ? o que inclui o ex-ministro João Sayad ? usaram ?manobras e artifícios? para ampliar despesas sem ter garantias de arrecadação. Sugerem uma multa de duas vezes o valor do déficit e querem a suspensão dos direitos políticos de Marta por 8 anos. ?É perseguição?, reagiu ela. A ação está na 4a Vara da Fazenda Pública de São Paulo. Na quarta 11, o juiz Luciano Fernandes distribuiu as notificações. Os acusados têm quinze dias para se defender. Se não convencerem o juiz, o processo será instaurado. ?Querem até afetar a candidatura à reeleição do nosso presidente?, reclamou Marta.
A base da ação dos promotores é o fato de a Prefeitura ter apresentado receitas de R$ 10,9 bilhões ao longo de 2003 e feito despesas de R$ 11,5 bilhões. ?O déficit poderia ? e deveria ? ter sido evitado, mas trilharam o caminho do desrespeito à lei e da irresponsabilidade?, registra a ação. Marta, Sayad e o ex-secretário de Negócios Jurídicos Luiz Ferreira foram citados por assinar decretos de crédito de R$ 463 milhões. Após a saída de Sayad da secretaria de Finanças, em maio de 2003, mais R$ 1 bilhão foram decretados naquele ano. Os promotores concluíram que R$ 590 milhões foram criados sem lastro. ?Tínhamos previsão de receitas maiores?, sustenta o ex-secretário Ferreira.
A ação dos promotores tem um mérito. Ela desvenda em 41 páginas a facilidade com que é possível fabricar dívidas na administração pública. Marta só tinha o trabalho de juntar duas assinaturas mais (de seus secretários de Finanças e Negócios Jurídicos) para abrir créditos de todos os tamanhos para sua própria administração. Podiam ser modestos R$ 29,5 mil, como ordenou pelo decreto 43.565 de 1o de agosto de 2003, ou confortáveis R$ 306,2 milhões, em 19 de junho do mesmo ano. Bastou indicar a existência de ?receita vinculada? ou ?excesso de arrecadação?.
É certo, também, que a ex-prefeita não foi a única administradora pública a tocar a guitarra, antiga expressão para definir a emissão, sem lastro, de moeda ou papéis. Nada menos que 16 capitais e 17 Estados, entre os 27 da federação ? São Paulo incluído ? fecharam suas contas no vermelho em 2003. ?Em 20 anos de advocacia, nunca vi este tipo de questionamento?, diz o ex-secretário Ferreira. Há outro ex-prefeito que sofre uma ação de improbidade com base na Lei de Responsabilidade Fiscal: o antecessor de Marta em São Paulo, Celso Pitta.
?A desculpa da conotação política é uma mão na roda para o mau administrador público se defender?, disse à DINHEIRO o promotor Saad Mazloum, cuja jurisdição se limita ao município de São Paulo. Ele tem 18 anos de carreira e avisa que não pretende se limitar à fiscalização das contas da estrela petista. ?Se o prefeito José Serra deixar dívidas, vai sofrer o mesmo tipo de ação?. Serra sabe – e teme. No Rio, num encontro de economistas tucanos, ele disse estar preocupado com as contas. ?Deixar restos a pagar seria infringir a Lei de Responsabilidade Fiscal?, afirmou. O prefeito insinuou que integrantes do governo federal lhe sugeriram apoio caso não apontasse falhas no cumprimento da lei por parte de Marta. ?Porque isso existe?, disse com ar de mistério. ![]()
ALTO RISCO
Caso seja aplicada a multa de duas vezes o valor do déficit,
eventual condenação pode custar R$ 1,7 bilhão