13/02/2002 - 8:00
O ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, desembarcou em Brasília na terça-feira 5, depois de participar do Fórum Econômico Mundial nos salões do hotel Waldorf Astoria, em Nova York, certo de ter sensibilizado alguns países ricos. Ele integrou uma equipe montada especialmente para redigir um documento com propostas de melhores condições para as negociações mundiais de produtos agrícolas. Em meio a uma sucessão de pronunciamentos feitos por economistas, empresários e membros dos governos dos países mais ricos do planeta, Pratini conseguiu atrair as atenções ao enumerar, uma a uma, as sugestões do Brasil para a substituição das velhas políticas protecionistas na agricultura. ?Tentei tirar o debate do plano meramente intelectual para colocá-lo na altura do mundo concreto e objetivo?, disse o ministro a DINHEIRO. ?Acho que deu certo. De voz isolada, senti desta vez entre os ricos um ambiente muito favorável às posições brasileiras.?
Sem meias palavras, fiel ao jeito franco de ser que, um ano atrás, chacoalhou o mesmo fórum, na versão original em Davos, com a denúncia de que os países ricos dão subsídios da ordem de US$ 1 bilhão ao dia à atividade agrícola, o ministro brasileiro agora deu um passo à frente. Ele defendeu a substituição dos subsídios pela oferta de imposto de renda negativo, estabelecimento de salários pagos pelos governos aos que trabalham no campo e criação de mecanismos oficiais para completar a renda das famílias que dependem economicamente da atividade agrícola. Pratini sustentou que, a prosseguirem as atuais políticas de subsídios diretos aplicadas nos Estados Unidos e nos países europeus, os países pobres ficarão cada vez mais sem condições de comercializar sua produção rural. ?Excluídos do mercado, como os países da África terão condições de controlar o crescimento da pobreza e, ainda, pagar suas contas??, perguntou à elegante platéia reunida em Nova York na segunda-feira 4, último dia de debates.
O discurso fez efeito. Representantes da Fundação Ford e da multinacional de alimentos Nestlé, que falaram a seguir, classificaram como pertinentes as interrogações e conselhos dados pelo ministro brasileiro. As teses de troca dos subsídios diretos por apoio aos agricultores, que já vão tomando corpo na Europa, foram incluídas no texto final do documento que, mesmo sem ter caráter oficial, serve como uma espécie de bússola para que os governos tracem suas políticas macroeconômicas.
Apesar de reconhecer a gradual mudança de posicionamento entre os ricos, Pratini deixou Nova York com a certeza de que não se deve alimentar ilusões sobre uma guinada radical. ?As conversas são sempre difíceis, demoradas e repletas de pressões fortes?, define. ?O que temos a fazer é pressionar deste lado também.? Para isso, ele acredita que o Brasil tem de se manter na vanguarda dos países emergentes, como porta-voz dos pobres nas mesas de negociação da elite mundial. De sua parte, ele julga ter bons resultados para apresentar sobre o embate com os
negociadores dos outros países. As exportações brasileiras de produtos agrícolas saltaram de US$ 14,8 bilhões em 2000 para
US$ 19 bilhões no ano passado. Somente as exportações de carne cresceram de US$ 1,8 bilhão para US$ 2,8 bilhões. ?Para enfrentar os ricos, não basta ter bons argumentos?, acredita o ministro. ?É preciso, principalmente, ter bala na agulha.? afirma.