A manhã de quinta-feira prometia ser decisiva para a economia global. Na bucólica Gleneagles, Escócia, os líderes do G-8, o fechado grupo formado pelas sete nações mais ricas do planeta (Estados Unidos, Canadá, Japão, Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Rússia), arrumavam suas gravatas para iniciar o debate anual sobre como administrar o caldeirão de demandas de uma legião de nações pobres e miseráveis. Os líderes de quatro nações emergentes, Brasil, China, Índia e África do Sul, também foram convidados para o convescote. O encontro começou a explodir exatamente às 7h51, quando uma bomba foi detonada dentro de um vagão de metrô em Londres, perto da estação de Liverpool Street. Deixou sete mortos. Cinco minutos depois, uma explosão no metrô da Praça Russell matou mais 21 pessoas. Às 8h17, mais uma bomba explodiu num vagão do metrô, atingindo dois outros trens. Mais cinco mortos. A última explosão foi às 8h47, dentro de um ônibus de dois andares que passava por Tavistock. Segundo as testemunhas, o teto do veículo se abriu como uma lata de sardinha. A essa hora, em Gleneagles, os líderes dos ricos já haviam cancelado seus debates sobre os pobres para condenar o atentado que aterrorizou a capital financeira do mundo. Um grupo supostamente ligado à rede Al Qaeda divulgou um comunicado na internet reivindicando a autoria da ação. Até a noite de quinta-feira, as autoridades londrinas contabilizaram 37 mortos e pelo menos 700 feridos ?150 deles em estado grave.

?É especialmente bárbaro que isso tenha acontecido em um dia em que as pessoas estão se reunindo para tentar resolver os problemas da fome na África?, consternou-se o primeiro-ministro britânico Tony Blair, que este ano exerce a presidência do G-8. ?Quem mata inocentes tem o diabo no coração?, reagiu o presidente dos Estados Unidos George Bush. Cada um dos líderes presentes em Gleneagles, um a um, condenaram a covardia do ato. ?O Brasil expressa sua mais firme condenação a mais essa deplorável ação terrorista?, protestou em nota o presidente Lula. Ao longo do dia, os principais mercados financeiros do mundo foram se assustando com os estrondos em Londres. A bolsa de Frankfurt caiu 1,85%; a de Paris, 1,39%; a de Madri, 1,91% e a Bovespa baixou 0,27%. Paradoxalmente, a bolsa de Nova York subiu 0,31%.

O que está por trás desse atentado é a resistência cada vez maior das nações desenvolvidas em encarar de frente as desigualdades do sistema econômico internacional. A agenda do G-8 tem dois pontos centrais. Um a ajuda dos ricos aos pobres da África. O outro são as mudanças climáticas do planeta e a implementação do Protocolo de Kioto. Blair criou a expectativa junto aos britânicos de que a reunião do G-8 seria capaz de acabar com a miséria africana. Estimulou, por exemplo, o roqueiro Bob Geldof a organizar concertos em dez metrópoles, o Live-8, pelo perdão das dívidas africanas. Levou 1 milhão de pessoas às ruas e 3 bilhões às TVs. Ainda assim os líderes ricos foram ao G-8 predispostos a dizer não a tudo e a todos. O encontro em Gleneagles foi acossado por manifestações; a polícia chegou a prender uma centena de pessoas. Essas são reações dos moderados à intransigência dos ricos.

A reunião do G-8 ocorreu no momento em que os ricos estão com suas finanças desequilibradas. A ajuda à África vai sair ? mas de forma muito mais lenta e limitada do que se imaginou. A União Européia acena com uma ajuda anual de 1 bilhão de euros. Os emergentes querem que os ricos ajudem em 0,56% de seus PIB?s. A agenda do clima está mais complicada. Os europeus já aderiram a Kioto. Vão investir pelo menos US$ 50 bilhões para reduzir a emissão de gases de sua indústria. Mas os EUA recusam-se a aderir ao protocolo. ?Esse impasse aumenta ainda mais o desequilíbrio entre as indústrias européias e americanas?, explica José Juan Ruiz, diretor de Estratégia do Banco Santander. Tony Blair prometeu arrancar concessões de Bush para o G-8. Lembrou que os EUA lhe deviam a vida dos soldados britânicos no Iraque. ?Blair tomou as decisões que acreditava mais convenientes para ganhar a guerra contra o terrorismo?, disse Bush. Com os ataques a Londres, o terror voltou a falar mais alto. Foi ruim para todos.