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Não tem para ninguém. Os bancos de investimento americanos e brasileiros bem que tentam, mas não conseguem romper a supremacia de duas casas bancárias suíças no negócio mais quente do mercado de capitais nacional: os lançamentos de ações. Os nomes e os logotipos do UBS Pactual e do Credit Suisse sempre aparecem com destaque nos anúncios dos IPOs (sigla em inglês de initial public offerings) publicados pelas novatas na Bolsa. Ora separados, ora juntos, os dois são os principais líderes das novas emissões, que movimentaram R$ 25 bilhões este ano na Bovespa. Eles comandaram 35 das 47 operações primárias anunciadas até agora. Ou seja, ficaram com 74% dos mandatos. E receberam a maior parte das gordas comissões dos lançamentos. Numa estimativa conservadora, somente no primeiro semestre os gigantes suíços embolsaram no Brasil uma fortuna estimada em R$ 420 milhões com os IPOs. Seus principais desafiantes ? JP Morgan, Merrill Lynch, Itaú BBA, BBI e Unibanco ? e as corretoras envolvidas dividiram o resto do bolo, cerca de R$ 230 milhões. Até dezembro, esses números serão bem maiores.

A pergunta que não quer calar no mercado de capitais brasileiro é uma só: por que os suíços ganham quase todos os IPOs no Brasil? Numa analogia ao biscoito da Nestlé, eles são líderes porque vendem mais ou vendem mais porque são líderes? Uma coisa puxa a outra. Todo empresário que decide buscar sócios na Bolsa tem medo de que a operação não dê certo. Um lançamento fracassado, além de frustrante, é oneroso e tem conseqüências ruins no perfil de crédito da empresa. Sem contar os danos à imagem. Por isso, quanto mais operações um banco tem em seu portfólio, mais fácil fica a conquista do próximo negócio. Nessa guerra, os suíços entram armados de canhões e seus concorrentes, de escopetas. Segundo a Thomson Financial, no primeiro semestre deste ano o UBS liderou US$ 3,4 bilhões em IPOs no Brasil (37% do total) e US$ 11,7 bilhões no mundo (8,4%). O Credit Suisse emplacou US$ 2,6 bilhões (27,8%) e US$ 8,6 bilhões (6,2%).

 

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TITO ENRIQUE (A DIR), DO ABC BRASIL: agradecimento público aos banqueiros do UBS Pactual

 

Números como esses são uma poderosa munição para impressionar os clientes candidatos à Bolsa. ?A experiência conta muito. Escolhemos os dois suíços para coordenar nosso IPO porque eles lideram esse mercado?, afirma Luis César Miara, diretor financeiro do Paraná Banco, que abriu capital em fevereiro e captou R$ 529 milhões. Dos R$ 17,5 milhões gastos em comissões pela instituição, R$ 13,2 milhões foram para os cofres do UBS Pactual e do Credit Suisse, que dividiram a coordenação. O Grupo Camargo Correia também considerou a grife do Credit Suisse ao abrir o capital da Camargo Correia Desenvolvimento Imobiliário (CCDI), em janeiro. ?É um círculo virtuoso que favorece os suíços. Quem saiu na frente tem mais experiência acumulada e boas operações em carteira?, diz Paulo Mazzali,diretor de Finanças da CCDI. O perfil dos compradores de ações novas também ajuda os suíços. Em média, 73% dos papéis dos IPOs brasileiros são comprados por investidores estrangeiros. Uma farta rede de distribuição no Exterior faz toda a diferença num IPO. ?Uma boa força de vendas lá fora é fundamental para o sucesso?, diz Mazzali.

No fundo, o que os estreantes estão dizendo é que não dá para aventurar-se na selva das finanças globalizadas sem um bom canivete suíço no bolso. Ao comemorar a estréia na Bovespa na quarta 25, o presidente do Banco ABC Brasil, Tito Enrique da Silva Neto, fez questão de se lembrar do UBS Pactual. ?Agradeço aos banqueiros que nos ajudaram?, afirmou. Ele tem bons motivos para isso. Dentre as diversas ferramentas de acesso aos mercados oferecidas pelos bancos suíços no País, a principal é made in Brazil. São os banqueiros de investimento formados pelas escolas do Pactual, comprado no ano passado pelo UBS, e do Garantia, do Credit Suisse desde 1998. São os brasileiros que dão as cartas no País, e não suas matrizes. ?Aqui não tem nenhum suíço?, provoca um dos executivos.

Os times liderados por André Esteves, do UBS Pactual, e José Olympio Pereira, do Credit Suisse, são extremamente competitivos. São obcecados por resultados, respiram a meritocracia ? quem traz mais lucros ao banco ganha mais dinheiro ? e se dedicam totalmente ao trabalho. Nos diversos road shows (apresentações aos investidores) que fez no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, o diretor comercial do Paraná Banco, André Luiz Malucelli, ficou impressionado com o ritmo dos garotos. ?Eles são brilhantes. Não têm noite, dia, nem fim de semana. Tivemos que mudar nossos hábitos para acompanhá-los?, afirma. Os concorrentes não estão conformados com a briga desigual e prometem esquentar ainda mais a competição. O Bradesco, que lançou este ano o banco de investimentos BBI, reuniu um grupo de 500 pessoas para entrar na guerra. ?O mercado de capitais tende a crescer mais. Há espaço para todo mundo. Vamos brigar pelo nosso?, diz Denise Moura, diretora do BBI.