24/07/2002 - 7:00
O presidente da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), Manuel Félix Cintra Neto, está pisando em ouro. No chão da entrada do prédio da Bolsa foi cravado um desenho em ouro branco, exatamente do mesmo material usado no anel de noivado da Princesa Diana. A demonstração de riqueza não ocorre à toa. Com R$ 400 milhões em caixa, fora as reservas para eventuais problemas de mercado, a BM&F é um caso de prosperidade. Está com tanto dinheiro que comprou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, o sistema eletrônico de negociação de títulos públicos e câmbio (Sisbex) e metade da Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC). E tudo indica que é só o começo. A BM&F quer mais. ?Hoje, a nossa prioridade é a internacionalização?, diz Cintra Neto.
Seus planos são ambiciosos. Cintra quer trazer para o prédio da Praça Antônio Prado, no centro antigo de São Paulo, as negociações dos papéis da dívida externa brasileira, como o C-Bond e o Global Bond. É uma boa briga. Esses são os títulos de países emergentes mais negociados no mundo. Para trazer pelo menos parte deles para o Brasil, Cintra depende do ok do Banco Central. Se conseguir, acredita que vai acelerar o giro de dinheiro na BM&F. Atualmente, os principais contratos da Bolsa são de apostas em tendências futuras em juros, dólar e produtos agrícolas. Mas só no caso dos produtos agrícolas há participação direta dos investidores estrangeiros. Com os C-Bonds e Global Bonds, a BM&F poderia atrair um número bem maior de gringos. ?Nossos negócios poderiam se multiplicar?, diz Edemir Pinto, superintendente da Bolsa.
A ambição da BM&F está calçada numa base rica ? e não é de ouro branco. Recentemente, a instituição paulista ultrapassou a poderosa New York Mercantile Exchange (Nymex), dos Estados Unidos, como a quinta maior bolsa de futuros do mundo em número de contratos negociados. A BM&F tem mais dinheiro em caixa do que a segunda maior no ranking mundial, a Chicago Mercantile Exchange. Além dos R$ 400 milhões em seus cofres, ainda possui R$ 200 milhões em salvaguardas para cobrir uma eventual quebradeira de corretoras. E agora vai reforçar sua rede de proteção contratando um seguro contra pane financeira no valor de US$ 200 milhões. ?Foi até difícil achar uma seguradora para fechar negócio?, diz Edemir Pinto. ?Mas com esse seguro vamos completar R$ 1 bilhão em garantias para o nosso mercado.?
Petróleo. Com esse reforço, a BM&F se sente mais segura
para expandir. Depois de comprar a bolsa de valores carioca, pretende lançar produtos financeiros específicos para o Estado do Rio de Janeiro. ?O Rio é a capital do petróleo. Queremos criar contratos voltados para a área de energia?, diz Cintra Neto. No mercado financeiro, comenta-se que a BM&F estaria preparando a compra ou a fusão com a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que luta para recuperar o antigo brilho. Cintra Neto nega essa hipótese. ?O que estudamos é a união de alguns serviços específicos com a Bovespa, que podem ser prestados em comum?, diz o presidente da BM&F.
A Bovespa pode não estar nos planos, mas por pouco a BM&F não levou pelo menos um pedaço de uma concorrente americana, a Nybot, uma bolsa americana especializada em contratos futuros agrícolas, como café, algodão e suco de laranja. Representantes da Nybot ofereceram 40 títulos patrimoniais para os brasileiros, cobrando de US$ 10 milhões a US$ 15 milhões pela sociedade. Ao final das negociações, não houve acordo. Além de julgar o preço alto demais, a BM&F avaliou que os americanos estavam mais interessados, na realidade, em tentar levar para Nova York alguns dos contratos negociados em São Paulo.
Não são só os americanos que estão de olho na instituição. O sucesso financeiro da BM&F é tão grande que algumas corretoras na praça brasileira já questionam o uso do dinheiro. Corretoras independentes, que penam para enfrentar concorrentes ligados aos grandes bancos, gostariam de receber descontos na Bolsa. A BM&F diz que não é o caso de se mexer em nada. ?A melhor maneira de ajudar as corretoras é promover o crescimento do mercado. Estamos fazendo a nossa parte?, diz Edemir Pinto.