30/04/2003 - 7:00
O homem forte da economia mais poderosa do mundo desembarcou em Brasília na noite da segunda-feira 21. John Snow, secretário do Tesouro americano, chefiou uma missão que, à primeira vista, parecia apenas protocolar. Os discursos vinham recheados de elogios à condução da política econômica e de promessas de concessões no campo comercial. O périplo começou na manhã da terça-feira 22, num encontro de 50 minutos com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. O secretário americano perguntou sobre o regime de metas de inflação, mas, no fim da conversa, já demonstrava mais interesse na arquitetura de Brasília do que nos números econômicos. Meirelles o levou à varanda e percebeu a intenção de Snow: o desejo americano de que o Brasil participe da reconstrução do Iraque. Do BC, Snow seguiu para a Fazenda, onde o ministro Antônio Palocci, com o pé esquerdo engessado após uma partida de futebol, o aguardava. Snow derreteu-se em relação à ?solidez? da condução econômica e avisou que os Estados Unidos aceitarão rever seus subsídios para garantir a aprovação da Área de Livre Comércio das Américas. Mas foi apenas no encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um dia depois, que Snow foi explícito e colocou todas as suas cartas na mesa. ?Queremos que o Brasil tenha um papel importante no pós-guerra?, disse Snow. ?O conflito e a posição brasileira contrária à guerra são páginas viradas?. A proposta concreta que o secretário americano trouxe na bagagem é que empresas brasileiras entrem nas licitações de obras no Iraque que serão lideradas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial. ?O Brasil tem competência para atuar na construção civil, na recuperação das estradas, na saúde e no fornecimento de alimentos?, pregou Snow. Lula, naturalmente, gostou do que ouviu. E ainda revelou que há vários brasileiros em Bagdá, recrutados pelo Banco Mundial.
O convite feito por Snow faz parte da segunda etapa da ofensiva americana. Depois de ocuparem o Iraque, os Estados Unidos pretendem reconstruir suas relações com o resto do mundo. E, na lógica pragmática da diplomacia americana, conhecida como dollar diplomacy, nada funciona tão bem quanto o poder do dinheiro. Para reconstruir o Iraque, os Estados Unidos reservaram US$ 100 bilhões. E Snow trouxe a tiracolo o executivo Adolfo Franco, chefe para a América Latina da USAID, a agência americana para o desenvolvimento internacional que preparou o pacote da reconstrução, com as verbas de infra-estrutura, de importações de alimentos e de outros produtos. A missão americana, na prática, coroou um esforço que já vinha sendo feito pelo Itamaraty para incluir o Brasil na retomada dos negócios com o Iraque. No mapeamento feito pelos diplomatas, constatou-se que o ponto estratégico para participar da reconstrução será Dubai, nos Emirados Árabes. Lá, já estão instaladas 20 mil empresas globais e algumas brasileiras, como Sadia, Perdigão e Avipal. Snow confirmou que aquela será mesmo a principal base de realização de negócios em torno do pós-guerra. “As melhores oportunidades do planeta estão hoje em Dubai”, avisa Flávio Moreira Sapha, embaixador brasileiro em Abu-Dhabi, capital dos Emirados.
Semanas antes do início da invasão do Iraque, o embaixador Sapha procurou o adido de negócios da vizinha embaixada dos Estados Unidos para saber se haveria algum veto às empresas brasileiras por conta da oposição do governo Lula à invasão. Ao contrário, avisou o americano. Ele ainda deu de presente uma lista de fornecedores do Exército norte-americano, encabeçada pela trading Al Maya Lalf. Eles estão comprando toda sorte de alimentos, carnes, frangos e cereais. Em Brasília, o Itamaraty repassou de pronto a informação às empresas exportadoras credenciadas. Somente um frigorífico paulista, o Estrela, mandou gente a Dubai para conferir. Às vésperas da guerra, o frigorífico vendeu 400 toneladas de carne bovina para 15 tradings da região. As estimativas são de exportar 4 mil toneladas este ano, um faturamento de US$ 6,5 milhões. “Foi tudo muito fácil e rápido”, conta Flávio Scorsi, gerente de exportação da FrigoEstrela. “Apenas mostrei os catálogos e eles foram comprando”.
Os grandes negócios deverão sair a partir de maio, quando
começarão a jorrar também as divisas provenientes da venda de petróleo iraquiano. Deverão ser injetados US$ 5 bilhões este ano e mais US$ 30 bilhões a partir de 2004. As grandes nações ainda debatem se a reconstrução e as regras das concorrências se darão sob a tutela dos EUA e Inglaterra, ou sob a supervisão direta da ONU. Caso a primeira hipótese prevaleça, é certo que os filé dos negócios será entregue às empresas da coalizão anglo-americana. “Nesse caso, o Brasil tem grandes chances de participar como fornecedor ou subcontratado”, avisa o embaixador Mário Villalva, diretor-geral do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty. “Se for a ONU a comandar, estamos preparados a participar das concorrências na primeira fila”, acrescenta. Independente da futura decisão política, já se tem um mapa da mina bastante preciso para as empresas brasileiras. A proposta trazida por Snow é um meio termo, na qual algumas obras ficariam a cargo dos organismos internacionais, mas sob o controle dos EUA.
Qualquer que seja a proposta adotada, as empreiteiras, por exemplo, terão uma entrada mais fácil no Iraque se fizerem joint-ventures com empresas de Dubai ou do Kwait. No setor petrolífero, a Petrobras, que descobriu o campo de Majnoon nos anos 70, o maior do Iraque, deve ser preterida pelas Sete Irmãs anglo-americanas, mas há cerca de 50 empresas nacionais com porte e tecnologia para fornecer equipamentos e serviços de engenharia. “Já passamos essas dicas a quase mil empresas do setor”, revela Elói Fernandez y Fernandez, presidente da Organização Nacional da Indústria Petrolífera. “Se a competição no Iraque for técnica, ganhamos de qualquer um”. Há oportunidades concretas e imediatas no setor de alimentos. Dos
US$ 100 bilhões que os EUA reservaram, calcula-se que pelo menos US$ 15 bilhões estejam carimbados para alimentar as tropas, os iraquianos e para ajuda humanitária.
Para o Brasil, o açúcar pode ser o maior filão. A demanda também
será alta por frango, carnes bovinas, soja e arroz. Uma boa alternativa para ganhar mercados árabes é vender os produtos sem marcas, para intermediários de Dubai. Também haverá grande demanda por material médico e hospitalar, implementos agrícolas e autopeças. Na década de 80, o Brasil chegou a exportar US$ 1 bilhão por ano para o Iraque, mas desde o embargo econômico de 1991, as vendas caíram para US$ 25 milhões, dentro do programa da ONU “petróleo por alimentos”. Com abertura comercial do pós-guerra, o Itamaraty calcula que o volume de comércio bilateral se estabilize em US$ 400 milhões anuais. “Os árabes adoram o Brasil”, lembra Michel Alabi, presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. “Toda vez que puderem escolher, vão optar por nós”. E o secretário John Snow parece saber disso.