06/11/2002 - 8:00
A coisa mais espantosa a respeito do político Antônio Palocci Filho é que virtualmente ninguém fala mal dele. Em uma atividade em que as pessoas normalmente acumulam simpatias na mesma proporção que desafetos, o jovem prefeito de Ribeirão Preto, de 42 anos, é uma exceção. Está na vida pública com mandato há 14 anos, milita na esquerda desde 1978 e participou com destaque no duro comando da campanha petista deste ano. Fontes no meio empresarial sugerem que ele foi o principal arrecadador de doações na fase final da campanha de Lula. Apesar disso, Palocci parece não ter inimigos. ?Se você achar alguém que não goste dele, eu pago?, desafia o usineiro Maurílio Biagi, dono da Cia. Energética Santa Elisa, empresário mais poderoso da região e fã do prefeito. Desde terça-feira passada, quando foi nomeado por Lula como o coordenador da transição presidencial pelo PT e tornou-se um dos homens mais poderosos da República, ficou ainda mais difícil ignorar suas qualidades. ?Palocci tem dado um show de bola?, diz Octavio de Barros, economista-chefe do BBV. ?Ele é a maior surpresa dessa campanha?, ecoa o consultor e ex-ministro Maílson da Nóbrega. ?Foi a melhor escolha de Lula?, confirma o deputado Delfim Netto.
Se para a maioria dos brasileiros a ascensão desse bisneto de italianos pareceu surpreendente, assim não foi para os 500 mil habitantes de Ribeirão Preto — próspero, orgulhoso e calorento reduto da produção de açúcar e álcool localizado a 307
quilômetros de São Paulo. Ali Palocci é reverenciado como
prata da casa desde 1983, quando, recém-formado pela escola de medicina local, iniciou um trabalho como diretor da vigilância sanitária de grande repercussão. A par disso, seu jeito tranqüilo e a capacidade de conversar com todo tipo de gente lhe garantiram uma audiência muito maior que a do PT local, embora fosse barbudo e radical como os demais. ?Esta é uma cidade conservadora?,
explica a jornalista Isabel Farias, velha amiga e diretora da revista Revide, que cobre a vida de Ribeirão desde 1986. ?As pessoas detestavam o PT, mas adoravam o Palocci.? Ele elegeu-se vereador em 1988. Com isso, deu início a uma carreira política que deve transformá-lo em ministro em pouco mais de dez anos. De Ribeirão vai levar o sotaque caipira, 150 mil votos que o elegeram prefeito pela segunda vez em primeiro turno e a luta inglória para parar de fumar, que o acompanha há 20 anos.
?Palocci sempre foi muito acima da média. Não me surpreende que tenha ido tão longe?, diz o amigo Silvio Morais, psiquiatra e companheiro de política desde o Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina da USP. Os dois defendiam os rígidos princípios da Liberdade e Luta, um agrupamento trotskista particularmente dogmático e belicoso. ?Não se iluda com as maneiras dele?, avisa Morais. ?Palocci é suave mas duro na queda.? Essa lendária maciez no trato (ninguém se lembra de tê-lo visto erguendo a voz ou dizendo um palavrão) parece ter sido herança genética do pai, já falecido. Antônio Palocci era pintor, funcionário público e é lembrado como um homem afável. Da mãe costureira teria vindo a sensibilidade social. Antônia Palocci era ativista católica nos anos 70 e ainda hoje participa ativamente da carreira política do filho. Todo mundo em Ribeirão conhece a Antônia. ?É gente simples, veio do nada?, emociona-se o taxista Carlos Nortari. ?Eles moravam na Cohab.? Palocci é o mais novo de quatro irmãos, todos homens. Jogava de atacante no Cruzeiro Mirim, foi coroinha, tinha um cachorro chamado Tarzã e seu apelido familiar era Toti. Dizem que passava em primeiro na escola sem estudar. Ah, sim: bebê, era o Cristo na manjedoura do presépio vivo.
?No fundo as pessoas estão muito orgulhosas dele. Se ele sair tudo ficará bem?, prevê Gilberto Maggioni, o vice-prefeito do Partido Municipalista Brasileiro que deve herdar o posto no Palácio Rio Branco. Maggioni é um dos milagres políticos de Palocci. Empresário, conservador, aproximou-se do jovem petista quando passaram oito meses discutindo a redação de uma nova lei ambiental regendo a instalação de indústrias às margens do Rio Pardo, que atravessa a cidade. Na hora de apresentar o projeto à Assembléia Legislativa, o deputado declinou. Explicou que era de oposição e que isso inviabilizaria a aprovação do projeto. Sugeriu encaminhar o texto através de um deputado da situação. Deu certo. ?Ali ele mostrou o que era?, diz Maggioni. ?Inteligente, modesto e prático?. Estão juntos na política desde então. O vice-prefeito garante que Palocci tem ?trânsito total? com o empresariado da região e isso parece ser verdade. Biagi, o usineiro, refere-se a Palocci como ?um predestinado?. Os dois viajaram a Paris anos atrás para atrair montadoras de automóveis para Ribeirão e o empresário espantou-se com o comportamento do companheiro. ?Ele não se interessava em fazer compras e não dava a mínima para os restaurantes?, conta Biagi. ?Trabalhava o tempo inteiro. Não está na vida a passeio.? Palocci é casado com a médica Margareth e tem com ela uma filha de 11 anos, Carolina, e dois enteados.
Embora tenha sido responsável por algumas das primeiras e ruidosas privatizações do País, ainda em 1995 ? a abertura de capital da companhia telefônica de Ribeirão e a ampliação do tratamento de esgotos local em regime de concessão ? Palocci se tornou conhecido nacionalmente apenas em janeiro, quando substituiu Celso Daniel, o prefeito de Santo André assassinado, como coordenador do programa do PT para as eleições. Ali, o são-paulino comilão se destacou pela imensa capacidade de trabalho e pelo poder de persuasão. Um colega na cúpula do PT o compara ao atacante Ronaldo Nazário, que estreou com a camisa do Real Madrid fazendo dois gols: ?Ele não começou em segunda ou terceira. Começou em quinta marcha?. Lula o conhecia de anos e sabia das suas qualidades, mas o calor e a brevidade da campanha condensaram as virtudes de Palocci e as sublinharam aos olhos do presidente eleito. Não há dúvida de que hoje ele é um dos esteios de Lula. Há poucas dúvidas sobre seu futuro como ministro. Sobre seu passado, não há dúvida nenhuma: foi bom, até aqui.
?Quando falta dinheiro, você acha?
DINHEIRO ? O sr. vai ser ministro?
ANTÔNIO PALOCCI ? Isso depende do presidente Lula. Se ele me perguntar se eu quero um ministério, minha resposta está pronta. É não. Eu quero ser prefeito de Ribeirão Preto. Mas se o Lula disser ?Eu preciso de você na minha equipe?, é diferente, porque o Lula tem um desafio extraordinário diante do País. Eu não posso me negar a colaborar.
O sr. se sente à vontade para exercer um cargo econômico?
Se o Lula quiser um presidente do BC eu não sirvo. Não tenho formação de mercado e nem formação acadêmica na área, mas se for uma área política ligada à economia eu me sinto à vontade.
O País vem de um longo predomínio da tecnocracia. A equipe do PT vai ser um choque?
O Brasil precisa de um MBA em povo e é isso que o governo Lula trará. Uma equipe de governo tem de ter pessoas muito bem preparadas, mas é preciso saber onde colocar o técnico e onde colocar o político.
A primeira pedra no caminho do novo governo é a perda de receita no orçamento de 2003, não é?
Há um exagero nessa questão. Falam de uma perda
orçamentária de R$ 12 a R$ 14 bilhões deste ano para 2003, mas na verdade a maior parte disso é receita extraordinária, que você pode ter todo ano se buscar com afinco. É certo que o Everardo raspou o fundo do tacho em várias áreas, mas alguma coisa sempre tem. Estou acostumado com administração pública: quando falta dinheiro você acha.
Qual é a meta do PT com o orçamento?
Nossa prioridade no ano que vem é a questão social, a fome, e as metas do compromisso fiscal. Lula reafirmou isso. Temos um superávit de 3,75% para fazer e vamos trabalhar nisso. E temos que resolver o salário mínimo. Não vamos esquecer o que dissemos. O projeto do Lula é dobrar o valor do salário mínimo em quatro anos. Não sei dizer qual será o aumento em 2003, mas vamos tentar melhorar o que foi oferecido pelo atual governo.
Vai ser feita uma minirreforma tributária ainda este ano?
Há muitas questões tributárias em jogo neste momento, mas o que se pode fazer neste final de ano é trabalhar a votação da contribuição sobre o lucro líquido, a votação da medida provisória que retira a cumulatividade do PIS e da Cofins e a discussão do Imposto de Renda.
E a desoneração das exportações?
Está no projeto do PIS. A medida provisória tem um artigo
que consolida o processo de desoneração das exportações.
Essa mesma MP resolve a cumulatividade ao longo do tempo e a questão das exportações.
O Congresso encaminhará as votações?
Pode não haver tempo para resolver tudo, mas não creio que vá haver má vontade de nenhum partido. São medidas consolidadas, e pode-se colocar também a aprovação da emenda 192, que partilha em várias leis a regulamentação do sistema financeiro. Após a aprovação, vai se colocar a discussão sobre autonomia operacional do BC, mas só para o ano que vem. Não há tempo este ano.
Haverá modificação na Previdência?
Agora não. A idéia é que o novo governo assuma a
reforma previdenciária como uma questão fundamental, mas
a única coisa possível agora é a aprovação da previdência
privada dos servidores.
Como o governo eleito vai participar das discussões
com o FMI?
Vai haver um momento em que a missão vai discutir com o atual governo. Vai haver um outro momento em que as duas equipes podem dialogar juntas com o FMI e vai ter um terceiro momento em que o FMI queira conhecer os membros da nova equipe.
E a Alca?
Acho pouco provável que a equipe de transição se envolva com essa questão. Mas o formato do tratamento no novo governo já está decidido: sem conteúdo ideológico, sem debate que não seja a integração da América Latina e as questões comerciais.
Existe um Plano B caso os mercados entrem em ebulição?
Plano B se você tem não se conta. Mas eu acho que o Brasil não precisa de um Plano B. Está forte no Plano A, animado com a eleição do presidente Lula. E o presidente Lula está muito otimista e os mercados também refletem o humor das autoridades. Acho que o Plano A vai caminhar muito bem.
Na manhã da última quarta-feira 31, ele chegou à prefeitura às 8h45 da manhã, acompanhado pela Rede Globo. Sob a luz da câmera cumprimentou os funcionários, derrubou um porta-canetas e iniciou uma inacabável seqüência de entrevistas. Estava de terno cinza e gravata amarela e parecia elegante, apesar dos 90 quilos. Tem 1,79 de altura. No rosto cansado (?Tenho dormido 4 horas por noite, há um mês?, contabiliza) a mesma expressão calma, quase beatífica, que é sua marca registrada, apesar da confusão ao redor. E há uma enorme confusão em Ribeirão. Palocci ganhou a eleição em primeiro turno e já teve 80% de aprovação popular. Agora, depois de algumas denúncias ruidosas do vereador Nicanor Lopes, do PSDB, cavaleiro solitário da oposição em uma Câmara de 21 representantes, a unanimidade já não existe. Mas a cidade ainda gosta do seu prefeito e divide-se diante da idéia de vê-lo ministro de Lula. Divide-se exatamente meio a meio, segundo a pesquisa de uma faculdade local. Pior, no calor da campanha de 2000 Palocci registrou em cartório um documento dizendo que cumpriria seu mandato até o final. Havia uma acusação de que ele sairia candidato ao Senado pelo PT nas eleições deste ano e o documento diz que não o faria. ?Como não fiz?, diz Palocci. Mas o fato é que ele pode sair para ser ministro do Planejamento e grande coordenador da área econômica do governo do PT. Antes, porém, terá que convencer seus eleitores, sob risco de perder a base política.