A ONU afirma que o projeto de lei de combate ao terrorismo no Brasil,  atualmente em discussão no Congresso, ameaça “limitar as liberdades  fundamentais”. A mensagem foi enviada ao governo e parlamentares por um  grupo de relatores especiais da organização.

“Estamos  preocupados que a definição do crime estabelecida pelo projeto de lei  pode resultar em ambiguidade e confusão na determinação do que o Estado  considera como crime de terrorismo, potencialmente prejudicando o  exercício dos direitos humanos e das liberdades fundamentais”, disseram  os relatores no documento.

O projeto de lei 101/2015 tenta  definir os crimes de terrorismo no Brasil, permitindo ainda a criação  de procedimentos investigatórios e processuais. A proposta foi  encaminhada ao Senado em agosto, depois de já ter sido aprovada pela  Câmara dos Deputados. No dia 28 de outubro, o Senado aprovou a lei, que  agora voltará a ser discutida pelos deputados.

Um dos  problemas identificados pelos relatores da ONU se refere à modificação  feita no texto pelo Senado. “Lamentamos que o atual projeto de lei  excluiu um artigo anterior que estabelecia uma salvaguarda importante  que garantia que a participação em manifestações políticas e em  movimentos sociais não fosse considerada no âmbito dessa lei,” disse o  documento da ONU.

O alerta foi emitido por Ben Emmerson,  relator especial sobre a promoção e proteção dos direitos humanos e das  liberdades fundamentais na luta antiterrorista, David Kaye, relator  especial sobre a promoção e proteção do direito à liberdade de opinião e  expressão, Maina Kiai, relator especial para os direitos da liberdade  de reunião e associação pacífica, e Michel Forst, relator especial para a  situação de defensores de direitos humanos.

“Os Estados  têm o dever de proteger a sociedade civil e os direitos fundamentais  para sua existência e seu desenvolvimento, como os direitos à liberdade  de associação e reunião pacífica e à liberdade de expressão”, defenderam  os relatores. “Definições imprecisas ou demasiado amplas sobre  terrorismo abrem a possibilidade do uso deliberadamente indevido do  termo. Por isso, legislações que visam combater o terrorismo devem ser  suficientemente precisas para cumprir com o princípio de legalidade, a  fim de evitar que possam ser usadas contra a sociedade civil, silenciar  defensores de direitos humanos, blogueiros e jornalistas, e criminalizar  atividades pacíficas na defesa dos direitos das minorias, religiosos,  trabalhistas e políticos”, apontaram.

Para a ONU, “quando  leis voltadas para a promoção da segurança podem afetar as liberdades  fundamentais, os Estados devem sempre assegurar que os princípios de  necessidade, proporcionalidade e não discriminação sejam inteiramente  respeitados”. “As medidas contra o terrorismo que têm um impacto  negativo na capacidade de ONGs para atuarem de forma efetiva e  independente estão fadadas a ser, em última instância, contraproducentes  na redução da ameaça imposta pelo terrorismo.”