19/10/2005 - 8:00
Há uma década que os empresários vêm aprendendo a se virar sem investimentos públicos, política industrial ou ajuda do governo. Mas só agora o mercado financeiro começa a descobrir que pode funcionar ? e bem ? sem o Banco Central. A instituição ficou um mês em greve, com 90% de seus 4.612 funcionários de braços cruzados. Nesse período, contudo, os bancos privados prosseguiram cobrando os juros altos de sempre, os leilões de títulos públicos funcionaram normalmente, o mercado de câmbio não sentiu qualquer influência, as notas técnicas continuaram saindo e sequer faltou dinheiro na praça. ?A greve não afetou em nada o mercado financeiro?, explica Álvaro Bandeira, diretor da Ágora Sênior. ?Na verdade, nem percebemos?. Os funcionários do BC podem voltar ao batente nesta segunda-feira 17. Eles começaram a greve a 19 de setembro, exigindo 53% de aumento mais participação nos lucros do BC. À medida que foi ficando nebuloso para o mercado para que serve o BC, afinal, e foi ficando claro para o governo que a instituição pode funcionar com 10% de seus quadros, os grevistas reduziram as reivindicações. Eles tinham negociações agendadas com o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, ao longo da sexta-feira 14. Pretendiam aceitar qualquer proposta próxima a 6% de aumento ? um décimo do inicial. Henrique Meirelles, por sua vez, já havia admitido bancar 5,7%.
Há um mês, o sentimento era outro. Quando a assembléia decidiu parar, a primeira preocupação foi com a falta de dinheiro na praça. Todo o Departamento de Meio Circulante do BC aderiu à greve; não ficou ninguém para abastecer os bancos privados. ?Se alguém for ao banco e quiser sacar R$ 10 mil não vai conseguir?, garantia, no 23º dia de greve, o diretor do sindicato dos funcionários do BC, Paulo Cadovi. ?Em poucos dias também não haverá mais dinheiro nos caixas eletrônicos?. Blefe puro. A Casa da Moeda começou a abastecer diretamente o Banco do Brasil, que fez a distribuição do dinheiro para outros bancos. Os grevistas também prometeram paralisar a mesa de câmbio. Mas o mercado nem percebeu. ?A única diferença é que em vez da taxa sair às 17h30, passou a sair às 20h30?, afirmou um operador da mesa de câmbio do BC. Na semana passada, os sindicalistas do BC espalhavam no mercado o boato de que governo e CUT, unidos, teriam estimulado a greve dos bancários, iniciada na terça-feira 11, com o objetivo de esvaziar a greve deles. A CUT nega, os sindicatos dos bancários também. O que se viu de concreto é que a greve dos bancários começou a provocar transtornos já em seu primeiro dia. Já a greve do BC, um mês depois de deflagrada, só teve o efeito deixar claro que a instituição pode funcionar com cerca de 500 funcionários. Os que furaram a greve. ![]()
90% dos servidores do BC cruzaram os braços, exigindo 53% de reajuste salarial |