19/03/2008 - 7:00


A CRISE DIPLOMÁTICA ENTRE
Um dia depois da sinalização do chanceler Celso Amorim de que seu colega espanhol Miguel Moratinos prometera uma ?trégua? aos brasileiros, o clima beligerante chegou ao Congresso. Enfurecido, o deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB/RJ) encaminhou ofício à PF e aos ministérios do Trabalho e da Justiça solicitando uma fiscalização urgente da situação dos executivos espanhóis no País. ?Recebi denúncias de que há funcionários do Banco Santander, da Telefônica, do grupo Gás Natural, além de técnicos do consórcio OHL trabalhando sem o visto adequado?, disse à DINHEIRO o deputado, que é delegado da PF licenciado. ?O que dói na verdade é o bolso?, completou, para, então, arrematar: ?Quando começarmos a incomodar legalmente, tomar providência e humilhar, como fazem com os brasileiros, as empresas vão interferir?. O ministro da Justiça, Tarso Genro, não desanuviou o cenário. ?Vamos exercer com toda a plenitude, com todo o rigor a nossa soberania.?
ESPANHÓIS:
em retaliação, a
Polícia Federal
intensificou a
fiscalização no
Brasil e grupo
voltou à Espanha
Não é uma guerra casual. Os espanhóis foram as grandes estrelas da privatização brasileira e compraram de tudo: operadoras telefônicas, concessionárias de energia, bancos e rodovias. E trouxeram dezenas de fornecedores, numa espécie de ?reconquista? da América. Agora, apanhadas de surpresa com o estremecimento dos laços diplomáticos, empresas ibéricas se movimentam nos bastidores. Um empresário espanhol que investirá cerca de US$ 500 mil num hotel no Nordeste estremeceu. ?Não há riscos de os investimentos serem cancelados, mas poderá haver uma extensão do prazo para a conclusão do projeto?, disse ele, que pediu para não aparecer, preocupado com represálias ao empreendimento. Comunidades no Orkut, o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) e até o ator José de Abreu passaram a defender o boicote aos espanhóis. Como a idéia é recente, a economia real não foi afetada. As lojas Zara, do grupo Inditex, ainda não registraram redução nas vendas. Presidido pelo espanhol Enrique Huert, que mora no Brasil, o grupo optou pela descrição, ?porque não há motivos para se indispor com os brasileiros?. O banco espanhol Santander decidiu pela resposta-padrão. Em nota, informa que ?não teve nenhum problema ou sofreu qualquer tipo de restrição?. Com a cautela de costume, a Telefônica disse apenas que os investimentos de R$ 15 bilhões até 2010 no Brasil estão garantidos.
Certo é que há uma preocupação nascendo. O presidente Lula, que evocou o princípio da reciprocidade, acredita que o problema foi provocado pela campanha de reeleição do primeiro-ministro socialista, José Luis Rodríguez Zapatero, de combate aos 250 mil imigrantes ilegais no País. ?Temos uma relação histórica com a Espanha. Peço é que os países tratem os brasileiros em seus países como nós os tratamos aqui?, diz Lula. ?No passado, o Brasil recebeu de braços abertos os pobres espanhóis.? O presidente se refere à robusta imigração espanhola, entre 1880 e 1960. Fugidas dos problemas econômicos que arrasaram a Espanha, 750 mil pessoas pediram asilo ao Brasil. O Brasil exerce um atrativo tão grande que, nos últimos dez anos, a Espanha investiu mais de US$ 40 bilhões no País, tornando-se o segundo maior investidor estrangeiro, atrás apenas dos Estados Unidos. E, apenas no ano passado, 878 espanhóis receberam visto de trabalho para permanecer no País, número que em 2004 era de 500. ?Nunca discriminamos ninguém pela nacionalidade?, desabafa um funcionário do Ministério do Trabalho responsável pela imigração. Apesar disso, o próprio presidente Lula teve dificuldades para cumprimentar seu colega Zapatero, reeleito na semana passada. Ligou três vezes antes de ser atendido.
Mesmo com os contratempos, não é interesse de ninguém que a tensão continue. Em 2007, os espanhóis remeteram US$ 1,8 bilhão de lucro para sua terra natal, valor bem superior às remessas de divisas enviadas ao Brasil pelos imigrantes que servem clientes e limpam banheiros nos restaurantes de Madri e Barcelona. A Espanha também se consolidou como o oitavo maior emissor de turistas ao Brasil, com 211,5 mil pessoas. A crise fez a ministra Marta Suplicy ligar para o ministro do Turismo espanhol, Joan Closs. Depois da conversa, Marta sintetizou: ?O que está acontecendo não contribui para o fortalecimento da aproximação que já conquistamos?. De acordo com Bárbara Piccolo, responsável pela Europa na agência CVC, não houve cancelamento de viagens, mas cerca de 5% dos passageiros ?pediram alteração de rota para entrar na Espanha por terra?. A Iberia, companhia aérea espanhola, que desde o início da crise teve 17 vôos fretados cancelados, não se pronunciou.
Em vez de amenizar a irritação dos brasileiros, o embaixador da Espanha no Brasil, Ricardo Peidró, disse que estava ?insatisfeito? com o princípio da reciprocidade adotado pelo Brasil e que a Espanha não pediria desculpas porque não fez nada arbitrário ou injusto. ?A determinação para o endurecimento das normas partiu da Agência para o Controle das Fronteiras Externas da União Européia?, esquivou-se. Peidró falou bobagens. Em vez de condenar o Brasil, deveria se esforçar para que seu país tratasse os brasileiros de forma digna.
Espanha e Brasil, iniciada após a repatriação de pesquisadores brasileiros que participariam de um congresso acadêmico na Europa, está se transformando numa autêntica guerra comercial. Turistas espanhóis foram deportados, ameaças de boicote aos produtos ibéricos proliferam pelo País e até a Polícia Federal pode ser chamada para fiscalizar vistos de trabalho de executivos que atuam em grandes corporações.