PARTE 1- O brasileiro Cássio Nogueira passou sete dias exilado em Trípoli, capital da  Líbia, em meio às manifestações contra o regime político de Muammar al-Kadhafi. Nogueira é funcionário da Odebrecht e estava no país trabalhando como arquiteto no projeto do novo Aeroporto Internacional de Trípoli.

Entre 19 e 25 de fevereiro de 2011, enquanto aguardava a liberação para voltar ao Brasil, Nogueira trocou e-mails com a família e amigos. Os principais trechos dessa espécie de diário de bordo, que você confere na IstoÉ DINHEIRO Online, revelam preocupações, tensões, temores e também manifestações espontâneas de solidariedade. Como são vários as mensagens, optamos por dividi-la em diferentes partes, que serão publicadas ao longo desta terça-feira (1º de março). Acompanhando os relatos em sequência cronológica, é possível perceber como a temperatura dos fatos subiu na Líbia e como essa realidade foi percebida pelo brasileiro.   

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Os primeiros três dias:

De: Cassio Nogueira
Data: 19 de fevereiro de 2011                                                                     
Horário: 08:11                                                                                           
Assunto: Notícias

“Bom dia gente!!!

Só dando sinal de vida? a internet no país já foi cortada. Ainda temos um pouco, e muito lenta aqui no projeto, por questões contratuais. Já não consigo mais nem receber no hotmail, muito menos usar o Skype. Inúmeros sites estão bloqueados.

Ainda não bloquearam a internet no celular (e por sorte também ainda não conseguiram bloquear o aplicativo Facebook do Windows Mobile), mas creio que será questão de tempo. Muitos na empresa já nem conseguem receber e-mails pela Odebrecht.

Pode ser que nas próximas horas cortem as telecomunicações internacionais? o monitoramento tá se acirrando? mas o clima aqui tá tranquilo, nenhum sinal de protesto.

Enfim, se eu der uma sumidinha, NÃO SE PREOCUPEM! ESTÁ TUDO BEM! O trabalho segue normalmente. De qualquer forma, o passaporte já está no bolso e com visto válido em caso de emergência.

Enquanto puder, seguirei dando notícias. E vamos torcer pra que volte ao normal o quanto antes!
Bjos em todos! Saudades!

De: Cassio Nogueira
Data: 21 de fevereiro de 2011
Horário: 15:15
Assunto: Notícias Diretamente da LÍBIA

Olá, queridos amigos.

Depois de alguns dias no escuro, com os meios de comunicação celulares e wi-fi extremamente afetados, apareceu uma brecha de Internet aqui em Trípoli. Muito lenta, mas melhor do que nada. Vi que estão chegando muitos e-mails perguntando sobre a situação, se estou bem, e gostaria de aproveitar essa chance para responder a todos os amigos de uma vez. Via Facebook ainda não consigo ver nada, pois está bloqueado, e para navegar em uma internet lentíssima via proxy fica impraticável.

Sim, estou bem, ainda sem nenhum arranhão, firme e forte!!!

As notícias que estão chegando a vocês não devem ser nada animadoras. É verdade, a casa está caindo. O movimento está se espalhando rapidamente, já chegou em Trípoli, e de uma hora para outra o quadro virou de cabeça para baixo.

Algumas das manifestações já acontecem em bairros residenciais, onde moram funcionários da empresa, que já foram realocados. Onde moro ainda há tranquilidade. Algumas casas e carros foram queimados e veem-se móveis, entre outros tipos de objetos, jogados nas calçadas. Ouvem-se tiros (provavelmente para o alto). Homens fortemente armados estavam fazendo vistoria pelas ruas? hoje, já não se vê um policial. As notícias de saques e mortes continuam a aparecer. É questão de tempo até que o caos total tome conta na capital.

Os civis já roubaram muitos equipamentos bélicos. Como existem várias facções ou tribos diferentes, isto pode até virar uma guerra civil (muito provável). Quem conseguir tomar conta do petróleo vai reinar no país. O Tiozão vai ter que se garantir muito para que fique tudo como está. E com essa história de contratar mercenários para ir de encontro ao seu próprio povo foi um tiro no pé. Dizem que ele já não tem mais apoio do seu exército. Afinal, não querem atirar nos próprios ?irmãos?.

Os nossos colegas da Queiroz Galvão, que estão em Benghazi, se encontram numa situação muito mais complicada. Há pouco tempo recebi o telefonema de um amigo que está lá no foco da confusão. Estão sitiados em um hotel, já abandonado pelos funcionários. Estão sem comunicação alguma com o exterior. Estamos até tentando fazer uma ponte deles com suas famílias. O exército está contendo a fronteira da cidade. Ninguém entra e ninguém sai.

Nossa obra parou hoje. Apenas os expatriados foram trabalhar. No decorrer do dia, percebemos que foi em vão. O que se viu foi um monte de baratas tontas passando pelos corredores com o telefone ao ouvido procurando uma saída. Alguns entrando em pânico, outros permanecem calmos.

Apesar de nossa evidente preocupação, estamos tentando segurar a onda na medida do possível. Tivemos um pronunciamento dos diretores para com o restante da empresa, e a ordem é de agrupar todo mundo em locais bem distantes de onde tem havido manifestações. Aos poucos vamos desmobilizando o pessoal. Se a coisa ficar pior, temos três outras bases equipadas, em locais distintos, já preparadas pra nos receber.

Não é uma tarefa rápida. Todos querem sair ao mesmo tempo e o aeroporto não comporta a quantidade de pessoas (afinal, é por isso que estamos, ou melhor, estávamos, construindo um novo!!!).

Primeiro estão partindo as mulheres e as crianças. Esperamos concluir a tarefa até quarta-feira. O próximo passo será o RH da empresa selecionar as pessoas menos necessárias de acordo com a situação do projeto para sair do país. Nesse caso, não sei onde me encontro, mas aguardarei ansiosamente para que chamem meu nome. Existem os mais desesperados que estão tentando sair por conta própria. Enfim, vamos ter férias forçadas!

(…) Um pouco de paciência para todos nós? vai tudo terminar bem!

Abraços e beijos em todos,

Cássio”

De: Cassio Nogueira
Data: 21 de fevereiro de 2011
Horário: 19:34
Assunto: Saída…

“Meus queridos,

passo para comunicar que amanhã logo cedo estaremos deixando nossas casas de vez. Vamos todos nos agrupar em um local mais seguro, da empresa. Ainda não sei qual e nem sei ao bem em que tipo de situação de moradia será. Mas o importante é que todo mundo fique junto.

Todos vamos dormir com um olho aberto:). No mais, tudo está muito bem! E vamos começar a fugaaaaaa! Pai, lembra daquele filme da década de 80, com Kurt Russel, fuga de Nova York? Vai ser nesse estilo!!!

Boa noite, gente. Descansem bem!

Bjos., KK”

Acampanhe ainda nesta terça-feira (1º de março) mais relatos do brasileiro na istoÉ DINHEIRO Online.

Parte 2

Parte 3

Parte 4