PARTE 2 – Esta é segunda parte do diário de bordo do brasileiro Cássio Nogueira, que passou sete dias em Trípoli, capital da Líbia, em meio às manifestações contra o regime político de Muammar al-Kadhafi. Nogueira é funcionário da Odebrecht e estava no país trabalhando no projeto do novo Aeroporto Internacional de Trípoli. Clique qui para ler a primeira parte do relato.

 

O quarto dia:

 

De: Cassio Nogueira
Data: 22 de fevereiro de 2011
Horário: 07:17
Assunto: NOTÍCIAS DA LÍBIA

“Olá amigos,

primeiramente, agradeço muitíssimo a solidariedade de todos vocês. Continuo recebendo muitos e-mails e muitas mensagens carinhosas, positivas. Me enche o coração de alegria, mesmo passando por um momento de tanta calamidade. Hoje o peito amanheceu palpitando mais forte. Ao nascer do sol, abandonamos nossas casas. Estava frio e chovendo… bom para acalmar os ânimos. Esquece TV de LCD, esquece equipamento de som, esquece os móveis, esquece o violão, esquece o carro. Ficou tudo pra trás, e quer saber? Nada disso faz a mínima falta! O que faz falta está do outro lado do oceano, que nos últimos dias não paro de pensar por um segundo sequer: pai, mãe, irmã, avó, tios, primos, a bailarina, os amigos, praia do Cabo Branco, a comida de Fátima… e minha casinha no Bairro dos Estados.

Enfim, pegamos apenas o essencial e partimos. Engraçado como tem gente que em um momento desses acha que uma mala com vinte pares de sapatos seja essencial. Que vontade de tocar fogo nessa mala! Enfim, partimos num comboio em direção a nossa base. Ficamos divididos em pequenos grupos e ninguém mais fica sozinho.

Recebemos a fenomenal notícia de que a empresa fretou dois aviões que nos levariam a Portugal/Dubai, e daí cada um seguiria sua conexão. Imaginem a farra dentro de uma aeronave dessas. Tomara que não sirvam bebidas alcoólicas, senão termina todo mundo indo parao o destino errado!!! Que euforia!!! Mas não demorou muito pra cair a ducha de água fria: o espaço aéreo está fechado. Volta a ansiedade… já não tenho mais unhas.

Mandamos algumas pessoas ao aerporto para analisar a situação. Um caos completo! Mais de duas mil pessoas do lado de fora contidas, sem poder entrar. Os carros só conseguem parar a mais ou menos um quilômetro de distância da porta. Quem tiver mais de uma mala, é bom repensar! Quase todos os voos comerciais foram cancelados. Só estão conseguindo decolar os voos a pedidos das embaixadas e olhe lá. Estamos então aguardando na fila.

E o plano B? Quem não consegue voar, vai pelo mar!!! A essa altura do campeonato, dinheiro nem é mais problema! Foi fretado um navio para nos tirar a qualquer lugar que seja, e depois nos viramos! Então vamos lá! O quê? Problema? Navios também precisam de liberação do Porto. Jesus Cristo! De volta à estaca zero! Infelizmente não tivemos sucesso na fuga de hoje.

Mas tenho fé que será minha última noite neste lugar. A situação do país fica mais instável a cada hora que passa. O ?Fazendeiro?, assim o chamamos, terminou seu discurso de louco há alguns minutos. O que esse maluco está fazendo com seu povo merece ser apagado da história. O que foi um dia silencioso está se tornando numa noite nervosa.

Neste exato momento escuto tiros, buzinas, e gritos sem parar da minha janela. Estão possessos. Confesso que estou com medo. Quem me conhece sabe que costumo tremer normalmente… e somando com esse ?mix? de feelings? Imaginem! Ninguém vai dormir por aqui! Vamos aproveitar pra terminar nosso estoque de cerveja e vodka. Quem sabe assim esquecemos um pouco do que está lá fora.

Preciso abrir um parênteses para com os líbios. Sempre critiquei muitos deles, seja por achá-los preguiçosos, por não fazer nada no trabalho, ou por julgá-los hipócritas. Mas hoje vi verdadeiros heróis atuando. Deixaram de estar com suas famílias, protegendo os seus, arriscando-se pela cidade, se indispondo com os seus próprios para ajudar vários estrangeiros desconhecidos. É realmente tocante quando um cara que você nunca viu na vida está do teu lado, te chamando de irmão, e fazendo o possível por você. E enquanto isso, uma outra pessoa, do teu sangue, preocupada com sua mala de 20 pares de sapato!

Um pouco distante da gente, nossos colegas brasileiros que estão em Benghazi continuam presos lá sem comunicação com o exterior. Consegui falar por telefone durante a manhã com um deles. Estão todos bem, e senti que está perto de conseguirem uma saída. Sei que seus familiares estão muito apreensivos. Portanto, se algum de vocês que estiver lendo este e-mail conhecer um parente de alguém da Queiroz Galvão, por favor, comunique que estão bem. Ou até repassem essa mensagem.

A mídia continua fazendo sensacionalismo excessivo com as notícias. Podem dar um desconto! Estamos TODOS muito bem. A empresa tem feito um papel formidável a favor da nossa evacuação. Além disso, nossa equipe está realizando um belo TEAM PLAY, e que logo logo esses momentos de tensão fiquem apenas na lembrança de uma experiência (assim disse Tia Nadja).

Resta agora mais uma noite longa e crua, sem distração, sem muitas palavras. Que seja a última nesse lugar…

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