PARTE 3 – O brasileiro Cássio Nogueira viu de perto o caos e o despero que tomou conta da capital da Líbia em meio às manifestações contra o regime político de Muammar al-Kadhafi. O arquiteto, que é funcionário da Odebrecht e estava no país trabalhando no projeto do novo Aeroporto Internacional de Trípoli, enfrentou o frio, a chuva, filas intermináveis e a revolta por ficar apenas com a roupa molhada do corpo. Esta é a terceira parte de seu relato sobre os dias na Líbia. Clique para ler a primeira parte e aqui para acompanhar a segunda.  

 

O começo do sétimo dia:

 

De: Cassio Nogueira
Data: 26 de fevereiro de 2011
Horário: 09:06
Assunto: LÍBIA – CAPÍTULO FINAL

“Meus Queridos,

Nesta manhã, eu nem sonhava com o desafio que estava reservado para a equipe no que seria o nosso Dia ?D?. O plano era simples: já estava prevista a liberação do espaço aéreo, o avião pousaria e cairíamos fora! Simples assim… e de tanta euforia, misturada com os sons dos tiros nas ruas, não dormimos quase nada. Com o nível de adrenalina tão elevado, a noite maldormida nem estava fazendo falta.

(…) 10:00 chega o comboio. Mais uma retirada para nossa base. Logo que chegamos lá, recebemos a boa notícia: o espaço aéreo está liberado. Adrenalina sobe mais ainda… É hora de implantar nova base perto do aeroporto. Junto com a boa notícia os líbios alertam que o clima na cidade continua a esquentar. Nosso avião, um 747-300, estava pronto para sair (creio que de Bucharest).

Horário programado para chegar em Trípoli 14:00. Corremos na frente para montar o sistema de comunicação no nosso camping perto do aeroporto para poder mobilizar os (+ ou -) 385 expatriados até lá. Chegou uma informação de que decolou nosso avião.

Fiquei tão eufórico que decidi ligar para os meus pais. Foi tanta emoção que nem conseguimos nos falar. Apenas lágrimas caindo de ambos os lados da linha. A partir daí já não consegui fazer mais nada. Virei um inútil, tive que me recolher no meu cantinho e chorei que nem uma criança… não conseguia parar. Tentei outro telefonema que só fez piorar a situação. Os amigos tentaram me passar umas atividades para distrair um pouco assim consegui retomar a postura.

Por volta das 13:00 chegou a informação de que o avião não decolou. Problema: greve com os funcionários da torre de controle. Será possível um negócio  desses???? A velha Lei de Murphy não falha! Mas não vamos mais parar. É hora de mobilizar todos para a nova base.

Enquanto isso, o tempo passa e o avião não chega, e nem notícias.

16:30: chegaram os demais expatriados, em 4 ônibus, mais alguns agregados de outras empresas brasileiras. Sejam bem-vindos!!! Alojamos cada quarto com 4 pessoas, ou uma família por quarto.

O dia estava frio e com ventos fortes. Logo começou a chover granizo para ?melhorar? nossa situação. Fui pegar minha malinha e minhas câmeras em um dos ônibus. Para minha surpresa, descobri que meus pertences ficaram para trás.

Definitivamente, fiquei com raiva! Agora fiquei molhado, sem nenhuma roupa extra, sem escova, pasta de dentes, os óculos de grau (era o meu charme) e, o pior, sem minhas câmeras!!! Vocês, amigos, sabem muito bem a importância delas pra mim.

Perturbei a todos para que voltássemos à antiga base e, assim, buscasse minhas coisas. Como já  estávamos no fim do dia e às 18:00 havia o toque de recolher, o pedido foi negado. Virei um bicho de raiva… pela segunda vez no dia perdi o controle. Um amigo tentou me acalmar um pouco… ?é preciso desapegar dos bens materiais, o que importa é você chegar em casa sem nenhum arranhão?.

Realmente, naquele momento, havia preocupações maiores. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Depois de um dia inteiro sem comer, foi improvisado um almoço ao fim do dia. O avião já estava horas atrasado. E mais um horário foi estabelecido: o avião chegaria as 20:00, e teríamos duas horas para colocar todo mundo dentro e zarpar.

Todos nós, reunidos em uma sala, aguardando ansiosamente pela informação de pouso do avião. 20:00… nada 21:00 nada… 22:00 nada… e até que enfim ligaram dizendo que o avião estava em manutenção em Malta. O novo horário de chegada seria 02:00 am.

Chegou então o momento de todos irmos ao aeroporto. Há dias já estávamos sabendo que lá estava um caos total, mas nem dessa forma acho que estávamos preparados para enfrentar o que vimos pessoalmente. É difícil repassar em palavras o que os olhos viam. Milhares de pessoas acampadas na área externa, em tendas improvisadas com panos, lixo para todo lado, carros estacionados até mais de um quilômetro da entrada. Uma visão de miséria total. Chegar perto do terminal? Nem pensar. Só com algum tipo de ajudinha extra.
Acho que chegamos por lá um pouco depois das onze da noite, após uma tarefa exaustiva de carga e descarga de malas. O frio estava aumentando e o vento também. Conseguimos chegar com os ônibus perto do terminal e logo organizamos uma fila nossa.

A tática foi utilizar a política brasileira da boa vizinhança. Quem não gosta de brasileiros? Todos vestimos camisas da seleção ou com as cores da bandeira. Grampeamos e amarramos bandeiras nas malas. Ainda por cima foram distribuídos os coletes amarelos da obra para todo mundo. Estávamos muito bem padronizados para não nos perdermos entre a multidão.

Agora resta ter paciência e aguardar o pouso do avião. Cada minuto parecia durar uma hora. O tempo foi passando e esse bendito avião não saía de Malta. Como estávamos parados em fila, sem muito o que fazer, o frio piorava. Em alguns momentos chegava a chover. Ficamos assistindo de camarote as confusões do lado de fora do terminal.

Passaram-se duas, três, quatro, cinco horas, e permanecíamos na mesma posição da fila. A essa altura do campeonato, os pés começaram a ficar dormentes de gelado. Foi o dia que mais passei frio na vida. Acho que fazia uns 4 ou 5 graus. As calças e o tênis estavam molhados da chuva. Como eu tremia!!! Junto comigo, centenas de outras pessoas passavam pelo mesmo. Precisava achar uma saída…

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