Cansaço, fome e sede misturados aos gritos e às cenas de violência. Esse foi o cenário caótico encontrado pelo brasileiro Cássio Nogueira no aeroporto de Trípoli, capital da Líbia, antes de conseguir, finalmente, embarcar de volta para casa. Nogueira, que ficou na cidade de 19 a 25 de fevereiro,  estava no país trabalhando no projeto do novo Aeroporto Internacional de Trípoli. Acompanhe a quarta parte de seu relato, que Istoé Dinheiro Online publica em primeira mão. 

 

O final do sétimo dia:

 

De: Cassio Nogueira
Data: 26 de fevereiro de 2011
Horário: 09:06
Assunto: LÍBIA – CAPÍTULO FINAL

“(…) O tempo foi passando e nada do avião pousar. O Sol começou a nascer. O grupo estava havia oito horas naquele frio horripilante com o vento cortando a cara, sem falar das rajadas de chuva. E por volta das 08:00 am chegou a notícia que o avião estava pousando. Estávamos sem comer e sem beber nada também. Banheiro? Tinha de ser improvisado, como o velho esquema de carnaval: parede humana.

Finalmente andamos um pouco e conseguimos chegar na porta do aeroporto. O esquema era de entrar de treze em treze pessoas. O problema é que na porta do prédio o caos estava triplicado. Todo mundo queria passar por cima de todo mundo. No lado de dentro, praticamente não se andava sem pisar em alguém. Havia pouquíssimos policiais controlando a situação. Qualquer um que tentasse forçar alguma situação perto da porta levava cacetada na hora. Toda vez que começava algum empurra-empurra, tínhamos de recuar um pouco… era preciso fugir de qualquer situação de risco.

O corpo estava exausto, mas a cabeça ainda bem alerta. Muitos de nós já estávamos agora no segundo dia sem dormir. É impressionante como o corpo humano consegue superar situações extremas quando necessário. Todo mundo ainda mantendo a calma, e os organizadores, que paciência! Um show de auto-controle. Por volta das 8:00 am começamos a entrar aos poucos.

Finalmente vamos nos livrar daquele frio! Aos poucos fomos conseguindo entrar. E lá dentro estava ainda mais lotado do que fora. De repente a fila parou de andar. O que foi agora meu Deus? O nosso check-in não tinha começado.

O alvoroço lá fora estava piorando e apenas uma pequena quantidade de nós havia conseguido entrar. Os egípcios começaram a jogar pedras e trocar pancadarias. Restou ao grupo a opção de recuarmos um pouco esperar a tempestade passar. Dentro do prédio apenas conseguíamos escutar algumas gritarias momentâneas, mas não conseguíamos enxergar nada. Ainda estávamos bem longe de entrar pro check-in. Permanecemos com a fila parada por mais umas duas horas até chegar a informação de início do check-in. Já eram umas 11:00 am e ainda continuávamos sem beber nem comer.

Ao chegar na sala de check-in, a cena impressionava. Parecia uma selva. Não havia o mínimo controle de nada. Funcionários do aeroporto em pé em cima dos balcões com toras de madeira, e até correntes, batendo na população para se afastarem. Só vi dois policiais, sentando o cacetete pra todo lado.

Pessoas com olhos roxos, braços com hematomas, mulheres gritando e chorando, carrinhos quebrados, malas destruídas, e surtos de pancadarias repentinas. Eu estava só com a roupa do corpo, conseguindo me virar bem, mas imaginem quantas famílias estavam lá naquele momento. Crianças vendo aquilo tudo…

Um certo momento começou uma pancadaria ao lado de nossa fila que logo se estendeu por metade do saguão. E lá veio o policial em nossa direção com o cacetete na mão… engoli seco. Começou a gritar em árabe e nos empurrar para baixo. Não sabíamos o que era para fazer, e logo uma pessoa disse que era para nos abaixarmos. Sentamos todos no chão enquanto ele distribuía uma meia dúzia de ?swingadas? nos egípcios. Uma pessoa para controlar centenas!!! E não é que conseguiu? Pouco tempo depois estava todo o saguão sentadinho no chão em silêncio. Claro que a calmaria não durou muito.

No meio dessa aflição, um colega nosso mexicano perdeu o passaporte. Imaginem que decepção! Há poucos momentos de entrar na sala de embarque. Infelizmente esse ficou para trás (para pegar o próximo vôo, pois o avião foi fretado para fazer várias vezes esse percurso Tripoli-Malta até retirar o último funcionário da empresa) aos cuidados pessoais do nosso embaixador, que por sinal, esteve ao nosso lado o tempo todo para garantir que entrássemos nesse avião de qualquer jeito. Temos muito a agradecê-lo pelo apoio.

E por cima da confusão, nosso check-in teve início. Já era perto de meio dia. Peguei minha passagem e respirei com um tremendo alívio. O processo daí em diante foi rápido e tranquilo. Todos muito abatidos, mas quando víamos que estava chegando o momento, os sorrisos apareciam mais e mais.

O nosso voo decolou as 14:00. Quando o avião tirou as rodas do chão, uma breve comemoração e o silêncio tomou conta até o destino. O cansaço falou mais alto. Em Malta, fizemos aquela MEGA refeição (meu umbigo estava roçando com as costas), demos uma boa dormida num belo hotel, e no dia seguinte seguimos para Portugal.

Esse voo, sim, foi sensacional. Como previsto, o estoque de bebidas não durou até metade do voo. As aeromoças ficaram horrorizadas.Tomamos conta do avião, inclusive do sistema de comunicação (aquele telefonezinho que a aeromoça usa para falar a todos). Durante todo o trecho, brincamos, rimos, revivemos os momentos, e nos emocionamos com os discursos dos colegas.

Todos os brasileiros já se encontram fora da Líbia, mas ainda estamos terminando de evacuar os tailandeses e vietnamitas. Essa tarefa, nossos amigos líbios estão encarando sem nossa supervisão in loco. Mas estão executando-a muito bem, e logo teremos 100% do corpo de expatriados fora do país. Temos muito a agradecê-los. Vamos torcer para que esses eventos finalizem o mais breve possível, e o país consiga se reerguer decentemente com um novo governo.

Neste momento, escrevo do meu quarto do Hotel em Portugal, um pouco ressacado, aguardando a saída para o aeroporto. Não vejo a hora de encontrar todos no Brasil.

A ?Experiência Líbia? definitivamente será um marco em muitas de nossas vidas, uma lição de vida repleta de desafios.

Agradeço mais uma vez pelo carinho e apoio de todos vocês, e vamos agora aguardar o próximo desafio! Enquanto isso, alguns dias de férias serão muito bem vindos.

Beijos e abraços a todos!

Cássio”

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Acompanhe aqui as demais partes do relato do brasileiro Cássio Nogueira.

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3: