07/09/2001 - 7:00
Os painéis eletrônicos de todos os aeroportos americanos rodavam suas plaquetas de informação em velocidade nunca vista antes. Nas colunas digitais que aparecem após a sigla da companhia e o número do vôo, só havia uma palavra: cancelado. Não há paralelo na história da aviação mundial. Jamais houve paralisação como essa. Nas horas que se seguiram ao atentado terrorista, ninguém entrava e ninguém saía dos Estados Unidos. A iminência de um novo ataque fez com o Federal Aviation Administration fechasse aeroportos e bloqueasse o espaço aéreo, obrigando companhias do mundo todo a tirarem temporariamente os Estados Unidos de suas rotas. Foram 40 mil vôos cancelados naquela terça-feira 11, desde o momento em que o terceiro avião terrorista se espatifou sobre o Pentágono. Aeronaves que estavam a caminho dos Estados Unidos foram forçadas a dar meia volta ou alterar o destino e pousar no Canadá ou no México. A explosão do World Trade Center fez estragos monumentais. Não foi somente um terrível atentado às vidas americanas, mas um golpe duro na economia mundial que atingiu não só a aviação, mas setores como o turismo, o sistema financeiro e, principalmente, a indústria de seguros.
Somados custos e perdas de receita das companhias aéreas em três dias de paralisação (até a manhã da quinta-feira 13 os aeroportos americanos permaneciam fechados), o número pode atingir US$ 10 bilhões. A estimativa é da International Air Transport Association (Iata). Leva em conta a combinação de perdas de receita com as despesas para manter estacionadas as aeronaves (como o aluguel de hangares) e o custo fixo de tripulação, além de gastos extras como, por exemplo, as possíveis hospedagens de passageiros. Somente as grandes companhias americanas ? American Airlines, United, Delta e Continental ? registraram perdas de US$ 4,8 bilhões. Na Europa, British Airways, Lufthansa, Air France e a holandesa KLM computaram quase US$ 2 bilhões. Na Ásia, em dois dias a perda combinada do valor de mercado das principais empresas atingiu US$ 3,8 bilhões. O que se seguiu a esse buraco enorme na contabilidade foi um efeito em cadeia que derrubou ações das empresas. No dia seguinte ao ataque, as ações da British caíram 21%, da Lufthansa, 17% e da Air France, 16%.
No Brasil, 60 vôos foram cancelados entre a terça-feira e a quinta-feira. A TAM, que opera três freqüências diárias Brasil/Miami, teve de estacionar suas aeronaves na terça-feira 11. A Varig opera quatro vôos para os EUA. As rotas representam 14% da receita da empresa, algo como R$ 500 milhões anuais. ?O que vai acontecer, em todo o mundo, é uma queda vertiginosa de receita das companhias aéreas e de turismo?, diz o consultor José Carlos Martinelli. ?Aponte um cidadão que irá escolher os EUA como destino nos próximos meses ou voar em uma companhia americana.? A regra também vale internamente. Se um americano puder ir de Nova York a Washington de carro certamente o fará. E a já prejudicada aviação local, que registrou prejuízo de US$ 2,6 bilhões em 2000, deverá fechar o ano com um rombo de US$ 3 bilhões. O setor de aviação é apenas um exemplo das atividades que implodiram junto com o WTC. O ataque terrorista pode ser também um golpe mortal para seguradoras e resseguradoras ? especialmente a Lloyds of London, que já estava em dificuldades financeiras. As indenizações poderão chegar a US$ 30 bilhões. Se for confirmado, o valor ultrapassará o atual recorde, que pertence ao furacão Andrew.
Em 1992, ao varrer a Flórida, ele provocou danos de US$ 19,7 bilhões. As estimativas do mercado incluem o seguro pago pelo prédio do WTC e os edifícios vizinhos, seguros de vida e invalidez das vítimas, a apólice das quatro aeronaves destruídas, cobertura médica para os milhares de feridos, seguro dos equipamentos dentro do WTC e dos carros danificados. Grande parte dos gastos virá das apólices de lucros cessantes ? pagas quando uma empresa, por algum motivo, precisa parar de funcionar. Esse item deve representar US$ 3 bilhões, quase o equivalente ao valor dos edifícios, estimado em US$ 4 bilhões. O grosso das indenizações, porém, irá para o pagamento às famílias das vítimas. Esses cálculos foram feitos com base nos valores pagos na primeira vez em que o WTC foi atacado por terroristas, em 1993, quando várias bombas explodiram nos estacionamentos do subsolo. Na época, para danos muito menores, as seguradoras desembolsaram US$ 510 milhões.
As resseguradoras, que são uma espécie de seguradora das seguradoras, pagarão a maior parte da conta bilionária. O fardo mais pesado cairá sobre a Lloyds of London, que cuida das contas das companhias aéreas. Calcula-se que a indenização poderá chegar a US$ 1 bilhão. Pode ser um golpe fatal contra a companhia britânica, que já foi a maior do mundo, mas está em situação pré-falimentar desde 1996. Além da Lloyds, a Munich Re e a Swiss Re calculam gastos de US$ 910 milhões e US$ 720 milhões, respectivamente. A alemã Allianz estima que sua cota será de US$ 635 milhões, e a Zurich Financial Services, outros US$ 400 milhões. Por causa dessas expectativas, o Eurotop, índice composto pelas ações das 29 maiores seguradoras européias, caiu 11,6% no dia do desastre. Foi a maior queda desde sua criação, em 1996.