17/01/2026 - 12:00
Quando Paula Harraca entrou na ArcelorMittal, gigante do aço, era literalmente a única mulher em toda a planta. A atual CEO da Ânima Educação havia abandonado sua carreira como atleta profissional de hóquei na grama e mergulhou no mundo corporativo – deixando de dividir um campo com várias colegas de equipe mulheres e passando a entrar na indústria do aço que, no início do século era predominantemente masculina.
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“Quando eu entrei na ArcelorMittal em 2000, eu tinha 22 anos. Eu era a única mulher em um galpão de 500 pessoas. Não tinha banheiro feminino, não existia uniforme produzido para mulheres”, afirma Paula Harraca em sua participação no Dinheiro Entrevista.
“Mas, mesmo sendo um ambiente muito masculino, eu fui muito bem acolhida e tive muito respeito por onde eu passei (….) Para mim, a melhor forma de trazer essa integração do feminino no ambiente de trabalho é mostrar que a mulher consegue chegar onde ela quiser”, complementa.
Paula ficou pouco mais de duas décadas na ArcelorMittal, multinacional que é a maior produtora de aço do mundo. Por lá, diz que ‘viveu várias empresas’ ao trocar de área e atuar em outras geografias.
Na sua trajetória, conta que foi promovida nas suas duas gestações, e com 40 semanas.
“Eu comecei a viajar com a Ema [sua filha]. Consegui uma ótima babá, e eu viajava com elas porque eu amamentei minhas filhas até os dois anos, as duas. Afinal é o que a Unicef recomenda, é a melhor vacina que você pode dar. Graças a Deus eu consegui fazer isso”, relata.
“Então eu ia ao centro de distribuição, viajava com a Ema, com a babá, ia lá para um quartinho, não tinha nem sala de amamentação, mas eu amamentava. Agora temos condições e agora temos projetos que permitem isso. É algo muito legal, já que eu só consegui tendo que fazer muito esforço, muito sacrifício e com muito apoio – sem apoio a gente não faz nada”, completa.
Paula Harraca foi 1ª C-Level da ArcelorMittal
Quando chegou ao C-Level da empresa, era a primeira mulher no corpo de diretoria – mas quando saiu, já tinha quatro mulheres integrando o nível de hierarquia. Ela conta que, com o tempo, percebeu a importância de ser uma referência para outras mulheres da corporação ao ocupar esses espaços e ser a primeira em muita coisa.
“Quando a gente é a primeiro a chegar, é importante garantir que não seremos a última.”
Paula também conta que atualmente são menos de 8% de mulheres na liderança de empresas de capital aberto da bolsa de valores – que é o caso da Ânima Educação, liderada por ela desde julho de 2024.
“Diversidade não é impor práticas, é escutar o que as pessoas precisam.”
Atualmente a Ânima tem 64% dos educadores do gênero feminino, e também enxerga mudanças de diversidade no corpo docente.
Uma ‘revolução silenciosa’ nos cursos de medicina
Acerca do aumento do protagonismo feminino – nas empresas e na educação – a CEO da Ânima Educação destaca o que considera uma ‘revolução silenciosa’ em cursos de graduação em medicina.
Dentro dos quadros internos da empresa, que detém 18 instituições de ensino e cerca de 500 polos de educação, vê um aumento drástico na participação de mulheres.
“Temos mais de 70% das estudantes mulheres nas nossas salas de aula, das mais de 12 mil [cadeiras], 70% são do sexo feminino. É um fenômeno interessante que estamos observando, porque diz muito a respeito desse lugar onde a mulher começa a ocupar posições de poder associadas a algo que é um atributo feminino muito grande, que é o cuidado.”
A executiva aponta que, com esse cenário, haverá um impacto indireto no aumento de mulheres em posições de liderança, dado que especialmente em comunidades e municípios menores o médico é ‘tão referência quanto um prefeito’.
A fala está em linha com um aumento relevante da participação feminina tanto nos cursos de graduação quanto na atividade médica em si.
De acordo com o relatório Demografia Médica no Brasil 2025, elaborado pela USP e pelo Ministério da Saúde, em 2025 as mulheres devem representar 50,9% dos médicos em atividade – sendo então a primeira vez na história que as mulheres ultrapassam os homens em número de médicos ativos.
A projeção é que até 2035, 55,7% dos médicos no Brasil sejam mulheres.
