18/08/2001 - 7:00
O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, corre por fora na disputa presidencial e defende a continuidade da política econômica. ?A oposição pretende romper com um modelo que está dando certo.? Doutorado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas, da qual foi reitor entre 1986 e 1990, ele também atuou no BID até 1994. Nesta entrevista a DINHEIRO dada em seu gabinete, em Brasília, o tucano fez coro ao discurso de reaquecimento da economia por meio do incentivo às exportações. ?Exportar tem de ser um projeto unificador do governo.? A seguir, os principais pontos da entrevista.
Governabilidade. ?Somente um candidato do governo poderá dar continuidade ao que está sendo feito. Quaisquer outras candidaturas, mesmo que não afirmem, contêm uma proposta de ruptura. Talvez queiram voltar para uma economia mais fechada, talvez tragam a inflação. Não quero causar pânico ou dizer que não haveria governabilidade. Pode ter, só que noutro modelo. O País, quando votar, vai ter consciência disso. Não podemos ter os benefícios de uma economia com acesso aos créditos e mercados internacionais e, ao mesmo tempo, praticar políticas muito divergentes das de outros países.?
Retrato do Brasil. ?Avançamos muito nos últimos sete anos, mas ainda estamos na metade do caminho para transformar o Brasil numa economia sólida que não tenha de buscar financiamento externo para fazer blindagem a cada sobressalto.?
Desenvolvimento. ?Precisamos colocar a necessidade de exportar como um projeto unificador de governo. Exportação aumenta a competitividade da nossa indústria, gera emprego, diminui a vulnerabilidade externa, melhora nossas contas e alivia a necessidade de financiamento externo. Também temos de obter
uma redução sustentada nas taxas de juros. Uma terceira condição é promover a reforma tributária com redução no número de impostos. Com a exportação como guia, saberemos quais reformas
tributárias e em que ordem devemos fazer.?
Baixa nos juros. ?Vivemos um ciclo vicioso. Temos juros altos e isso cria instabilidade. Chegamos a taxas de 40%, mas mesmo o atual patamar de 19% é insustentável a longo prazo. O País
terá de continuar a fazer reformas em busca de uma taxa de
padrão internacional.?
Armínio no BC. ?Considero Armínio Fraga um dos grandes valores
do País, por sua experiência internacional, seu patriotismo, pelo modo como vem dirigindo o Banco Central. Quando ele entrou se previa desemprego de mais de 20%, queda na produção e inflação de 50%. Nada disso aconteceu. Mas não quero especular se ele deve continuar.?
Globalização. ?Para aproveitar a globalização, precisamos de uma atitude vendedora sobre o mercado internacional. Temos de ser agressivos e não apenas nos defender da competição externa. Se nossas empresas tiverem competitividade para exportar, também terão um nível de produtividade que permitirá menores custos para o mercado interno.?
FMI. ?É um sistema para o qual a gente tem de dizer: ?oxalá não seja preciso usá-lo nunca?. Ele ajuda nas situações de ataque especulativo à moeda do País ou quando há risco de estabilidade econômica. Temos de buscar uma política que nos afaste do FMI. É fundamental consolidar os avanços na área fiscal.?
Ajuste no acordo. ?Temos de revisar os conceitos de déficit público. O FMI nos impede de tomar empréstimos do Banco Mundial e do BID, que entram na conta de déficit público. É um problema conceitual que o Brasil vem batalhando para resolver.?
Política industrial. ?O novo modelo deve induzir o investimento privado, como na privatização da telefonia e na associação da Petrobras com empresas privadas.?
Crise de energia. ?É injustiça o presidente ter esse problema, pois o governo investiu na construção de hidrelétricas. Houve atraso na definição do preço do gás, que retardou o investimento privado, mas muitas obras foram feitas.?
Privatizações. ?Não sou favorável a que a gente privatize a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Mas no setor elétrico, por exemplo, precisamos de um modelo de convivência do setor público com o privado.?
Inflação. ?A inflação está na raiz das nossas desigualdades. Nos últimos dez anos, vivemos uma crescente desigualdade em todos os países. Aqui ela não aumentou, se manteve. A estabilidade, por isso, é um valor para se preservar.?
Empresários. ?O governo vem melhorando esse diálogo. A classe empresarial pode não estar contente, mas reconhece que houve muitos avanços.?
Oposição. ?O governo se queixa com razão da falta de diálogo. Em 1995, fui com o presidente ao Rio. O governo tinha dois meses, mas já havia uma manifestação com faixas de ?fora, FHC?. Ele nem tinha entrado! À medida em que as pessoas fiquem mais educadas, conheçam mais o mundo, leiam mais, talvez a gente chegue a uma situação melhor.?
Candidato ideal. ?Meu nome está à disposição. O cabeça de chapa tem de ser do PSDB. O vice, possivelmente, do PFL. Se for escolhido candidato, espero o apoio de todos os meus companheiros. Se for outro, apóio. O presidente me autorizou a tocar o barco. Sou 100% ministro e pré-candidato nas horas vagas.?
Educação. ?Sete anos atrás, 25% das crianças pobres não tinham acesso à escola. Hoje, o acesso à educação básica é universal. Para este País ser justo, tem de dar educação infantil, fundamental e média para todos, com uma educação básica como a da Coréia, uma técnica como a alemã e uma superior como a americana. Vamos chegar lá.?