Relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), combinados com inquéritos da Polícia Federal (PF), da Controladoria-Geral da União (CGU) e do Ministério Público Federal (MPF), revelam como a expansão operacional do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) ultrapassou o tráfico tradicional para instrumentalizar programas sociais. As duas maiores facções criminosas do país utilizam o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o antigo Auxílio Emergencial tanto para fraude direta de saques quanto para lavagem de capitais por meio de beneficiários usados como “laranjas”, conforme inquéritos da Polícia Federal (PF).

+ PMs do Rio suspeitos de ligação com o Comando Vermelho e milícias são alvo da PF

+ Quem é o CEO da Fictor, alvo da PF em operação sobre fraudes bancárias e ligação com CV

O que aconteceu

  • PCC e CV expandem atuação para fraudar programas sociais como Bolsa Família, usando “laranjas” e lavando dinheiro ilícito.
  • Os esquemas criminosos incluem a apropriação de dados do Cadastro Único (CadÚnico), a ativação indevida de contas digitais e a triangulação financeira via “contas mulas”.
  • Fintechs com menor supervisão regulatória facilitam a lavagem de capitais, enquanto órgãos como PF, CGU e MPF intensificam ações de repressão e cruzamento de dados.

Como as facções fraudam programas sociais?

As investigações da Polícia Federal apontam que o crime organizado atua capturando a infraestrutura de pagamento e os dados do Cadastro Único (CadÚnico). O esquema funciona através de duas dinâmicas operacionais:

  1. Apropriação e clonagem de dados: Quadrilhas vinculadas às facções utilizam bancos de dados vazados para registrar CPFs de terceiros ou criar identidades fictícias. Com o auxílio de cibercriminosos e, em alguns casos, agentes cooptados em correspondentes bancários e lotéricas, as contas digitais de pagamento (como o Caixa Tem) são ativadas indevidamente para o desvio imediato de saques.
  2. Triangulação financeira e “contas mulas”: Beneficiários reais de baixa renda são aliciados ou têm seus nomes utilizados sem consentimento para abrir contas em fintechs e instituições de pagamento de menor supervisão regulatória. Nessas contas, os valores recebidos do governo federal se misturam a fluxos milionários provenientes do narcotráfico e da extorsão, fracionando repasses via Pix para disfarçar a origem ilícita dos fundos.

Achado do Coaf: Relatórios enviados à PF identificaram dezenas de titulares do Bolsa Família movimentando volumes financeiros incompatíveis com o perfil socioeconômico exigido pelo programa — registrando repasses atípicos de centenas de milhares de reais direcionados a contas de empresas de fachada e fintechs sob investigação de elos com o PCC.

Fintechs facilitam a lavagem de dinheiro?

A transição do sistema bancário tradicional para o ecossistema de pagamentos instantâneos abriu vulnerabilidades exploradas pelo crime organizado. Enquanto os grandes bancos comerciais aplicam filtros rigorosos de Know Your Customer (KYC), fintechs de menor porte e arranjos de pagamento paralelos por vezes operam com checagens fragilizadas.

Documentos do MPF e inquéritos da PF demonstram que valores oriundos do tráfico e de fraudes sociais trafegavam em cadeia por contas de instituições financeiras de pagamento até ingressar no circuito legal — financiado a compra de imóveis, frotas de transporte e postos de combustíveis.

Combate ao crime: quais são as ações do Estado?

O combate a essa modalidade criminosa tem mobilizado forças-tarefas conjuntas:

  • Polícia Federal e CGU: Ações como a Operação Códigos Ilícitos e a Operação Fraus desarticularam redes especializadas na invasão de contas de benefícios sociais e na criação de vínculos fraudulentos no INSS e no Ministério do Desenvolvimento Social.
  • Estratégia Nacional de Combate à Fraude (BNFAE): Acordos firmados entre o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, CGU, TCU e MPF estabeleceram o cruzamento contínuo de dados bancários e cadastrais para bloquear pagamentos suspeitos e encaminhar indícios diretamente à PF. Esta estratégia pode ser verificada no site do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.

A sofisticação do modelo impõe ao Estado o desafio de aprimorar a segurança cibernética das plataformas sociais sem criar barreiras desproporcionais de acesso à população em situação de vulnerabilidade.

Fontes primárias e documentos oficiais