20/01/2015 - 11:29
Por décadas, os pregões realizados nas bolsas de valores ao redor do mundo eram sinônimos de gritos e cotoveladas. O tradicional pregão viva-voz tinha como operador o profissional responsável por comprar e vender as ações de seus clientes e, se necessário fosse, disputar o melhor preço no grito. A dinâmica, porém, deixou de ser realidade há algum tempo. As negociações verbais deram espaço às transações digitais e, se antes a concentração de operadores era necessária em um espaço físico, hoje, o trabalho é feito do escritório de uma corretora.
No Brasil, essa função foi extinta em 2009, já nos Estados Unidos, a NYSE, bolsa de Nova York, conseguiu integrar os dois formatos de trabalho preservando profissionais experientes. Essa “espécie em extinção” é defendida pelo pesquisador da London School of Economics, Daniel Beunza. O professor estudou por 13 anos esses profissionais e defende que, com o fim dessa função, nos moldes tradicionais, o mercado só tem a perder. “A total automatização de um processo de compra e venda de ações não é boa para o investidor”, diz Beunza em entrevista à DINHEIRO.
DINHEIRO – O que mudou nas funções de um operador de pregão nos últimos 13 anos?
Daniel Beunza- A função incorporou muitas tecnologias e viveu uma crise séria. Com isso, muitos profissionais ficaram sem trabalho. Isso aconteceu em Londres, Paris e Nova York. No caso da NYSE, a função foi integrada com outras tarefas digitalizadas e hoje ainda existe de forma pontual.
DINHEIRO – Como eram os pregões quando você começou a pesquisa em 2003?
Daniel Beunza – Essa função era inteiramente humana. Os pedidos de compra e venda eram verbais e, dependendo, havia um acordo de confiança, também verbal, entre as partes. A bolsa era muito grande e o piso repleto de pessoas negociando. Esse modelo manual era dominante no mercado, cerca de 80%.
DINHEIRO – E hoje. Como essas seções acontecem?
Daniel Beunza – Hoje em dia, os pedidos de compra e venda são automatizados e, em poucos casos, negociados no formato viva-voz.
DINHEIRO – A vida dos operadores que sobreviveram ficou mais fácil?
Daniel Beunza – Não exatamente. O processo de adaptação foi muito difícil e muitos não se mostraram aptos para supervisionar os algoritmos. Foi difícil principalmente para os profissionais mais antigos.
DINHEIRO – Como se comportou operadores durante a crise de 2009?
Daniel Beunza – Eles se saíram muito melhor do que qualquer computador. Como a volatilidade era imensa, as máquinas não davam conta de processar. Logo, o papel dos operadores em momento de crise foi fundamental.
DINHEIRO – Quais são as principais conclusões de seu estudo?
Daniel Beunza – A principal constatação é que a NYSE automatizou suas operações de forma a integrar os algoritmos à estrutura social existente, logo, ela está aproveitando o melhor da tecnologia com o melhor da experiência dos operadores. Isso tem dado mais segurança aos investidores que fazem questão de ter um contato mais próximo e manter as informações do que está acontecendo no pregão.
